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“Professores foram fundamentais para eu reconhecer minha paixão pela Química”, diz a doutora mais jovem do país

Aos 26 anos, a carioca Daphne Cukierman se tornou a doutora mais jovem do Brasil pela plataforma de recordes Rank Brasil. Ganhou o título após defender tese de doutorado em Química sobre um composto que pode ser a base de um fármaco que vai tratar doenças neurodegenerativas como o Parkinson. Detalhe: Daphne pulou da graduação direto para o doutorado do Departamento de Química do Centro Técnico Científico, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), sem precisar passar pelo mestrado. E graças à bolsa parcial que recebeu do programa de doutorado sanduíche da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), fez parte dos ensaios pré-clínicos na Alemanha, no Laboratório de Neurodegeneração Experimental da Faculdade de Medicina da Georg-August Universität – Göttingen, de setembro de 2018 a junho de 2019.

Daphne, porém, enfrentou um longo percurso de resistências e adversidades até chegar onde está. A cientista conta que, desde pequena, nutria o sonho de ser professora, mas não via incentivo por parte da escola nem de colegas. “Me alertavam que é uma carreira desvalorizada”, conta.

Depois, apesar da paixão pela Química, viu-se pressionada para fazer vestibular para Engenharia Química. “No ensino médio, não nos esclarecem como um químico atua, há uma desinformação total”, explica. E, hoje, ela insiste na pesquisa científica e em seguir na carreira acadêmica no Brasil, apesar da falta de incentivo financeiro do Estado no País. “Faço por amor, mas não sei até quando vou dar conta”, diz.

Daphne explica que o cenário de investimento em pesquisa no Brasil não é nada animador. “O que eu mais amo na vida é dar aula, orientar alunos. Tenho vontade de ficar aqui, perto da minha família, onde nasci, onde tive investimento, quero devolver isso. Mas a vontade tem um limite. Vamos ver como vai ficar a questão de financiamento na Ciência nos próximos anos. Hoje tem apenas um processo seletivo para pós-doutorado aberto no Rio. Não tem concursos rolando. E o valor das bolsas de pós-graduação não tem reajuste há muitos anos e é incompatível com o trabalho de mais de 40 horas semanais que realizamos por quatro anos, sem direito a férias, e sem poder ter um trabalho paralelo para complementar a renda, pois exige exclusividade”.

Professores inspiradores
Filha de uma engenheira química e de um médico, Daphne cresceu em meio a brincadeiras com tubos de ensaio e contas de matemática. Mas foi apenas no ensino médio que uma professora, de nome Maria Odete, a fez perceber sua paixão pela Química. “Ela me puxou pelo braço e disse ‘seus olhos brilham na minha aula. Você ama Química’. Foi então que pensei ‘este é o meu caminho’”.

Ainda assim, sucumbiu à pressão e prestou vestibular para Engenharia Química. “Há uma grande pressão para passarmos em cursos de alta visibilidade, voltados para o mercado. E poucos alunos se interessam por Química devido à forma como a matéria é dada no ensino médio. Os próprios professores são orientados e cobrados a dar aulas para os alunos passarem no vestibular, não para despertar a curiosidade pelo conhecimento. Tive a sorte de ter uma professora inspiradora, mas vejo que não é a realidade.”

Logo no início do curso de Engenharia Química, mais uma vez foi um professor de Química, Nicolás A. Rey, coordenador do Laboratório de Síntese Orgânica e Química de Coordenação Aplicada a Sistemas Biológicos (LABSO-Bio) da PUC-Rio, que enxergou o talento de Daphne e a puxou para a pesquisa e para a mudança de curso para Química. “Fiz 3,5 anos de iniciação científica e, no caminho, optei por mudar de curso. A Engenharia Química focava muito nos processos, em gestão. Eu gostava era de Química pura, de pesquisa”, conta.

Rey fala com orgulho da pupila. “Primeiro, me chamou a atenção o interesse e a curiosidade dela, uma capacidade de se maravilhar. E depois que ela entrou para o laboratório, percebi que trabalha bem, é dedicada e perseverante – característica essencial para um pesquisador. Quando você faz pesquisa, tem momentos em que as coisas dão errado. E é justamente aí que você tem a chance de inovar, encontrar novas soluções, descobrir novos fenômenos. O químico está interessado no que ainda não foi feito”, explica o professor.

“Pena que haja muito menos mercado para isso do que para engenheiros químicos. Mas falo para os meus alunos que, se forem bons e gostarem do que fazem, seja o que for, vai ter lugar para eles. O bom químico ganha muito mais do que um engenheiro químico médio. Nas universidades, como na PUC, a gente tem uma política bastante liberal no sentido de que o professor, que tem um salário fixo, também pode ir atrás de seus próprios projetos com a indústria, fazer parcerias”.

Metais no cérebro
O grupo de pesquisa coordenado por Rey, que atua desde 2009 na PUC-Rio, estuda os aspectos biológicos da Química inorgânica, mais especificamente o papel dos metais na vida, na saúde e na doença. Faz pesquisas voltadas para as áreas de câncer e de doenças neurodegenerativas.

Por sorte ou coincidência, Daphne sempre teve interesse pelo cérebro e por pessoas em idade avançada. “Quando pequena, eu falava que, se me tornasse médica, eu seria geriatra”, lembra.

A pesquisa da jovem doutora, orientada por ele, consistiu em elaborar compostos químicos minimamente tóxicos e com o máximo de estabilidade e boa solubilidade que atuem na α-sinucleína, proteína do cérebro que, na sua forma agregada, é encontrada em pessoas com doença de Parkinson.

As novas substâncias visam impedir o dobramento anormal desta proteína e o processo de agregação deste decorrente, que ocasiona a morte exagerada de neurônios responsáveis por processos motores.

Atualmente, o tratamento existente no mercado consiste em remediar os sintomas relacionados à morte dos neurônios, mantendo os níveis de dopamina altos no cérebro.

O intuito dos compostos desenvolvidos pelo grupo de pesquisa do qual Daphne faz parte é prevenir este processo antes que ele ocorra. Ou seja, criar uma estratégia modificadora da doença, evitando a agregação proteica que ocorre previamente à morte dos neurônios. A pesquisa está na fase pré-clínica. Para ir em frente e potencialmente chegar ao mercado, necessita de investimentos da ordem de US$ 2 milhões, calcula Rey, para viabilizar testes em diferentes modelos animais e depois em humanos.

“Sem investimento maciço, o desenvolvimento de um fármaco pode demorar 20 anos. E o investidor brasileiro não tem a mentalidade de apostar em algo que ainda não está pronto, mesmo que haja a grande possibilidade de ele ganhar bilhões lá na frente”, lamenta o pesquisador.

“Se tivesse um engajamento maior entre indústria e universidade, seria muito mais rápido”, pondera Daphne. “Não me desanimo porque alguém tem que acreditar que pode fazer. Ainda mais agora, que tive essa divulgação por ser jovem, e recebi tantas mensagens carinhosas, de pessoas com parentes com doenças, que agradeceram pelo meu esforço, e pediram para eu não desistir. Isso me tocou fortemente”, conclui.