No Dia das Crianças, CFQ doa alimentos e brinquedos a creche de área carente do DF e recebe o carinho dos pequenos

Publicado em:

É em uma casa quente, com telhados metálicos e paredes recortadas em alturas variadas que 60 crianças recebem, todos os dias, o carinho que muitas não têm em casa. A Creche Alecrim, localizada na comunidade de Cidade Estrutural, uma área carente do Distrito Federal, insiste em existir pela dedicação de sua responsável, Maria de Jesus Pereira de Sousa.

É lá que as 60 crianças, muitas filhas de papeleiros e oriundas de famílias em vulnerabilidade, ficam entre 7h e 17h, todos os dias. As crianças mais novinhas têm cerca de um ano; as maiores, na casa dos 12 ou 13 anos de idade. Na Alecrim, elas brincam, fazem suas refeições, cuidam da higiene pessoal e se envolvem com atividades lúdicas que colaboram com seu desenvolvimento.

Na creche, ninguém tem salários: as cuidadoras, na medida do possível, atuam como voluntárias; a própria Maria de Jesus também nada recebe para zelar, todos os dias, pelas 60 almas que mães e pais desesperados pela falta de condições financeiras colocaram em seu caminho. Ajuda do poder público? A Alecrim não recebe – e nem faz questão. Ela diz que o Governo do Distrito Federal (GDF) alega que a casa não reúne as condições para receber as crianças. Até hoje, porém, nenhum governante ofereceu uma alternativa melhor para instalar o ponto de acolhida dos catadores de papel. Maria de Jesus, com um sorriso tímido, afirma que se o Estado não atrapalhar, já ajuda muito. Mas quem os ajuda de verdade? A sociedade, ou parte dela, que se mobiliza para ações de benemerência. Os doadores. A caridade.

É aí que os caminhos do Conselho Federal de Química (CFQ) e de Maria de Jesus se cruzaram, de maneira um tanto casual: uma escola particular de Brasília, chamada Avidus, resolveu fazer uma ação voltada para o Dia das Crianças, o 12 feriado de 12 de outubro. A ação da Avidus foi parar nos grupos de WhatsApp da escola privada e, de lá, a ideia da ação chegou ao primeiro vice-presidente do CFQ, Fuad Haddad. Ele prontamente entrou em contato com a gerência-executiva do Conselho Federal, que incumbiu a servidora Lilian de Souza, da gerência financeira, de encaminhar a ação.

O CFQ possui expertise na construção de campanhas desse tipo. Durante a pandemia, o projeto Química Solidária envolveu todo o país por meio dos Conselhos Regionais de Química (CRQs) para mobilizar profissionais da Química, instituições de ensino e empresas para produzirem álcool em gel 70% para doação. Foram mais de 100 mil litros doados. O engajamento nessa nova ação do Química Solidária agora seria interno, voltado para a doação de mantimentos para as crianças. A Creche Alecrim, com seu trabalho meritório, foi escolhida meio que ao acaso. Tamires Santana, coordenadora pedagógica da Avidus, unidade do bairro sudoeste de Brasília, c0nta que a escola é nova e as ações sociais são parte do aprendizado também dos alunos que doam.

“Com a chegada do Dia das Crianças, a gente pensou em ajudar alguma instituição. Buscávamos alguma que não tivesse nenhuma vinculação religiosa ou que já tivesse algum auxílio do governo. Nos surpreendemos por esse projeto da Alecrim, desenvolvido com as famílias dos catadores. Foi a primeira instituição com que a gente entrou em contato e, logo que a Maria nos contou o propósito da  creche, a gente se encantou e resolveu abraçar essa ideia, com a doação de brinquedos”, afirma Tamires.

No dia 11, véspera do feriado, o CFQ e Avidus se mobilizaram para efetuar a doação em um café da manhã com as crianças. Representados por 12 servidores, colaboradores e pessoas ligadas à ação, o CFQ doou 70 cestas básicas, além de brinquedos, presentes para todos os menores atendidos pela Alecrim. Feijão, arroz, açúcar, óleo de soja, milho de pipoca, biscoitos, macarrão, leite e leite em pó, além de pasta de dente e sabonetes, são alguns dos artigos doados.

Os integrantes do CFQ, que foram até a Alecrim na expectativa de fazerem uma doação, se surpreenderam com uma torrente de carinho. As crianças disputavam a atenção dos visitantes e passavam de colo em colo. Quem pensou que ia à Cidade Estrutural para doar, foi na verdade quem mais recebeu.

“Quero que vocês se lembrem, sempre, de que são pessoas especiais”, afirmou, emocionado, o gerente-executivo do CFQ, Renato Melo, olhando para cada uma das crianças acolhidas pela creche.

Maria de Jesus, igualmente tocada pela ação envolvendo o CFQ e a Avidus, lembrou que as doações não são tão importantes quanto o carinho e o tempo doado para acarinhar as crianças. Ela disse, porém, que as doações voluntárias têm uma sazonalidade peculiar: são fartas no período entre outubro e o Natal, e escassas entre janeiro e maio.

“Ganhamos agora e guardamos, para atender as crianças ao longo dos meses”, afirma.

A própria história pessoal de Maria de Jesus, e os passos que a levaram às crianças e a Creche Alecrim, são um indicativo de que a sociedade deve dar suporte a esse trabalho. Há 13 anos, Maria de Jesus era catadora. Teve de deixar o galpão de reciclagem para cuidar da filha, acometida por uma cardiopatia. Forçada a ficar em casa, acabou acolhendo os filhos de outros catadores que também não tinham como cuidar de seus pequenos. Resultado: na hora em que ela podia retornar à vida de catadora, a casa estava cheia de crianças e não havia como voltar às atividades.

“Hoje temos crianças aqui cujos pais são de fora. Temos um menino haitiano, crianças venezuelanas”, lembra a responsável pela creche.

O haitiano é um menino de três anos, olhos coriscantes, cabelos em pequenos dreadlocks. James é o nome dele, ele fala somente o francês (creole) dos pais. Para Maria de Jesus, o desafio de lidar com James se acresce da barreira linguística. O menino é tímido e, quando os visitantes trocaram algumas frases em francês com ele, ele não respondeu. Apenas sorriu.

“Temos até dificuldade em saber quando ele quer ir ao banheiro ou está com fome, mas ele se entende perfeitamente bem com as outras crianças”, afirma ela.

Fato é que, com amor, tudo se resolve. Essa é a história da creche. Por meio de doações, Maria de Jesus teve acesso ao imóvel em que a Alecrim funciona até hoje. Pelo primeiro ano, os doadores garantiram o aluguel; a partir disso, a creche precisaria caminhar com suas próprias pernas. Até hoje, o trabalho segue em marcha, ajudando as crianças que precisam – mas também os adultos que doam, reenergizados pelo afeto dos pequenos que pedem tão pouco.

O Química Solidária, nessa ação, incutiu algo de especial no Sistema CFQ/CRQs. A relação do Conselho com a comunidade em que vive deverá, cada vez e ainda mais, estar voltada para o impacto social positivo e em nome do bem comum. Lilian, a encarregada por promover as arrecadações, lembra que apenas uma semana separou o kick off da arrecadação e a entrega dos donativos. Foi a primeira ação do gênero no CFQ, mas nem de longe será a última.

“É apenas a primeira (ação), mas as pessoas gostaram e já estou recebendo sugestões para futuras iniciativas. No Natal, por exemplo, a gente pode fazer isso. Pode ser a mesma creche, pode até ser outro lugar, enfim, mas eu senti que os próprios conselheiros e funcionários querem continuar esse trabalho”, afirmou Lilian.