Mulheres inspiram debate sobre diversidade, equidade e inclusão na ciência durante o Falas da Química

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Evento promovido pelo CFQ reuniu pesquisadoras e lideranças femininas para discutir os desafios e avanços da presença das mulheres na ciência, tecnologia e engenharia

O Conselho Federal de Química (CFQ) promoveu mais uma edição do Falas da Química, série de painéis virtuais que propõem diálogos sobre temas relevantes para os profissionais da área. Com o tema “Desenvolvimento das Mulheres com Diversidade, Equidade e Inclusão”, o encontro foi organizado pelo Comitê da Mulher na Química e reuniu pesquisadoras que têm se destacado nacional e internacionalmente por suas trajetórias e iniciativas de promoção da diversidade na ciência.

A mediação foi conduzida por Andrea Piluski, coordenadora do Comitê da Mulher na Química e conselheira federal do CFQ. Ao abrir o evento, Andrea destacou que o painel buscou “ampliar a reflexão sobre os desafios e conquistas das mulheres na ciência, mostrando como a diversidade fortalece não apenas a Química, mas toda a sociedade”.

A ciência que ainda precisa de cor e voz

A primeira convidada, Anna Benite, doutora e mestre em Ciências Químicas pela UFRJ e professora titular da Universidade Federal de Goiás (UFG), apresentou o panorama das desigualdades de gênero e raça na produção científica brasileira. Coordenadora do Laboratório de Pesquisas em Educação Química e Inclusão (LPEQI), ela chamou atenção para a ausência de representatividade feminina e negra nas universidades e nos espaços de decisão.

Benite compartilhou dados que evidenciam a disparidade: embora as mulheres representem parcela expressiva da comunidade acadêmica, ainda são minoria entre as primeiras autoras de artigos científicos e nos cargos de liderança. “Nós temos um alto potencial de produção científica, mas esse conhecimento nem sempre se traduz em qualidade de vida para a população. Existe um gap entre o que produzimos e as reais necessidades do país”, afirmou.

A pesquisadora também apresentou o projeto Investiga Menina, iniciativa que coordena desde 2009 e que já atendeu mais de 4 mil estudantes da rede pública goiana. O programa promove o ensino de ciências com foco em meninas negras, articulando universidades, escolas e movimentos sociais. “Nosso objetivo é plantar cientistas desde a educação básica, criando modelos positivos e currículos antirracistas. Hoje, muitas das meninas que começaram conosco já são engenheiras, químicas e biólogas formadas”, celebrou.

Ao comentar a apresentação, Andrea Piluski destacou duas frases que sintetizam a fala de Benite: “projetar o futuro para essas meninas” e “diversidade gera um modelo robusto”. Segundo ela, “quanto mais conhecemos os dados, mais entendemos que evoluímos, mas ainda temos um longo caminho pela frente”.

Diversidade como motor de inovação

A segunda painelista, Bruna Arruda, engenheira química e coordenadora do Laboratório de Química do Insper, compartilhou sua trajetória e a importância de ampliar a representatividade de mulheres negras nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática. Fundadora do coletivo Mulheres Negras na Engenharia, o maior do Brasil, Bruna é também embaixadora da diversidade em fóruns nacionais e internacionais, com passagens por eventos na ONU e até no telão da Times Square, em Nova Iorque.

Em sua fala, Bruna destacou que a falta de modelos e referências começa ainda na infância. “Pesquisas mostram que 9 em cada 10 meninas acreditam que engenharia é coisa de menino. Esse estereótipo limita sonhos e escolhas”, observou. Para ela, a desigualdade de gênero e raça nas ciências é resultado de um processo social que começa cedo e se agrava ao longo da formação acadêmica e profissional.

Não é que as meninas não queiram ser engenheiras ou cientistas — é o sistema que muitas vezes não foi desenhado para que a gente faça parte dele”, afirmou. Ela defendeu que a mudança precisa ser intencional e acompanhada por políticas públicas concretas: “Se deixarmos o tempo agir sozinho, a equidade de gênero levará mais de um século para ser alcançada. A transformação precisa ser planejada.

Durante a interação com o público, Bruna compartilhou detalhes de sua experiência ao apresentar o projeto do coletivo na sede da ONU. “Foi um sonho coletivo. Quando uma mulher negra conquista um espaço, ela abre caminho para muitas outras”, destacou.

Avanços e próximos passos

Questionada sobre o papel das políticas públicas, Anna Benite reconheceu avanços, ainda que tímidos, em editais de fomento e programas de incentivo. “Hoje já há iniciativas que pontuam a maternidade no currículo e editais com reserva de verba para equidade de gênero e raça. São passos pequenos, mas importantes.

Bruna complementou destacando o impacto positivo das políticas de cotas: “Talvez não sejam a solução definitiva, mas foram fundamentais para o ingresso de muitas pessoas negras no ensino superior. Precisamos de ações transitórias que abram caminho para transformações duradouras.

Encerrando o evento, Andrea Piluski reforçou o compromisso do Sistema CFQ/CRQs com a valorização das mulheres e com o incentivo à diversidade em todos os níveis da ciência. “Temos dados desafiadores, mas também muitas histórias inspiradoras. Seguiremos trabalhando para que mais mulheres ocupem os espaços que lhes pertencem.

Assista na íntegra

🔗 O painel completo está disponível no canal do CFQ no YouTube.