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Inventário de emissão de gases de efeito estufa é tema de webinar

O profissional da Química é o mais qualificado para a produção de inventários de emissão de gases de efeito estufa (GEE), ferramenta fundamental para empresas com responsabilidade socioambiental, preocupadas em entrar na agenda climática mundial controlando suas emissões de CO2. É a partir desses relatórios que o mundo poderá comprovar, em 2030, se o Brasil conseguiu atingir a meta de redução de 43% das emissões de GEE, conforme se comprometeu no Acordo de Paris.

Foi o que apontou o especialista em Química ambiental Rafael Caldeira, no webinar “Inventário de Emissões de Gases de Efeito Estufa”, promovido pela Câmara Técnica do Conselho Regional de Química da 3ª Região (CRQ III), na última quinta-feira (6). Caldeira, que já elaborou inventários para corporações dos mais diversos segmentos, foi a “estrela” do evento, que contou ainda com a participação de dois membros da Câmara Técnica do CRQ III: a gestora ambiental e técnica em Química Aline Mesquita, e o químico industrial Vinícius de Oliveira.

Segundo o especialista em Química ambiental, o profissional da Química é o mais adequado para realizar os cálculos usados na metodologia dos inventários porque a estimativa para fatores de emissão de GEE é feita por meio de cálculos estequiométricos.

Os inventários seguem uma metodologia padrão internacional. “O que varia de país para país é a matriz energética. A grande emissão do Brasil é no solo, e na agropecuária, chega a 70% das emissões, porque nossa característica econômica é na base do extrativismo, a criação de bases, mineração e produtos agrícolas. Você vê a característica econômica do país pelo perfil de suas fontes de emissão de CO2”, explicou.

Caldeira chama a atenção para as vantagens que os inventários podem trazer, não só para o meio ambiente, mas também para a imagem das empresas junto a stakeholders e consumidores, o que acaba tendo um impacto comercial positivo.

Os inventários aumentam o controle sobre o próprio negócio e reduzem as incertezas. “Um indicador de gestão ambiental vai representar o quanto sua empresa polui. Desta forma, ela pode tomar a decisão de apostar em energias renováveis, o que traz vantagens comerciais, publicidade. Nesses inventários, a empresa está dizendo para a sociedade: estou me esforçando para entrar na agenda climática da ODS e controlar as minhas emissões de CO2”.

Caldeira alertou que “a poluição atmosférica é uma área que não tem o que remediar, só tem o que prevenir. Diferentemente do que acontece no corpo hídrico ou no solo”, disse ele, ao apontar a importância de as empresas se preocuparem em controlar suas emissões.

Panorama ambiental brasileiro

Caldeira apresentou um cenário atual desanimador no Brasil neste quesito. “Mesmo em plena pandemia, momento em que ocorre retração na produção e no consumo de diversos itens, a qualidade do ar não melhorou, e as emissões de GEE continuam aumentando”, afirmou.

Segundo o especialista, estudos que fizeram análises de gás armazenado no gelo constataram uma concentração de dióxido de carbono de 280 parte por milhão no período pré-industrial. Em 2010, as concentrações pularam para 390 parte por milhão. Em 2020, observa-se a concentração 416 parte por milhão. Em 2021, no mesmo período do ano passado, a concentração chegou a 420 partes por milhão.

Parte do problema é que, em pouquíssimos estados brasileiros, as empresas são obrigadas por lei a emitir inventários para obterem licença ambientais para produzirem. “O Rio de Janeiro é pioneiro nisso. Há uma lei estadual que incentiva os inventários”, ressaltou o químico. Trata-se da resolução nº 64/2012, do Instituto Estadual do Ambiente (INEA), que dispõe especificamente sobre a apresentação de inventário de emissões de gases de efeito estufa para fins de licenciamento ambiental no estado do Rio de Janeiro.

A legislação considera “a importância de o Estado conhecer a evolução do quantitativo de gases de efeito estufa emitidos pelas atividades nele exercidas, para elaboração de planos e programas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas”; e a Resolução Conjunta nº 22/2007, da Secretaria de Estado do Ambiente, que determina às empresas a inclusão de inventário de emissão de gases de efeito estufa nos procedimentos de Licenciamento Ambiental.

O Rio de Janeira, segundo Caldeira, é o estado que concentra maior número de empresas com grande impacto poluidor. “As indústrias de mineração, petroquímica, e indústrias químicas são as que têm maior impacto poluidor”, esclareceu o consultor. “Minas Gerais e São Paulo têm programas de regime voluntário”, acrescentou.

Efeito estufa

“O efeito estufa é um efeito natural, necessário para a manutenção da temperatura atmosférica terrestre. O CO2 é o principal agente do efeito estufa, o problema é quando ele está em excesso”, explicou Caldeira. Segundo ele, a poluição modifica a composição da troposfera, uma das sete camadas que revestem a terra e a mais próxima da superfície, ficando a 20 quilômetros dela.

Apesar de corresponder a apenas 0,3% da atmosfera, a troposfera é a camada mais sensível, onde ocorre a vida. “A atmosfera era composta por 78% de nitrogênio, 21% oxigênio e 0,028% de dióxido de carbono (CO2). Isso já mudou. Hoje é 0,2% de dióxido de carbono. Se está aumentando o gás, você pode estar reduzindo outro, quem sabe o oxigênio, isso é um ponto importante”, explicou o químico.

Tal fenômeno acarreta em alteração do clima de algumas regiões, ocasionando períodos de seca, escassez de chuvas, ondas de calor, proliferação de doenças em regiões que não tinha. Pode ainda provocar a acidificação dos oceanos, o que atinge algas, peixes e baleias.

O calcanhar de aquiles do Brasil, segundo o químico, são as queimadas, a alteração das mudanças do solo, responsáveis pelas principais fontes de emissão antropogênicas de CO2. “Mas as queimadas não perdem muito para as atividades que envolvem combustíveis fósseis”, ressaltou.

Para Caldeira, o Brasil deveria investir em créditos de carbono. “Há vários mecanismos de investimento, os títulos verdes, por exemplo. E o Brasil tem vantagem de ter uma matriz mais hídrica de energia, diferentemente de outros países, que dependem do carvão. Nosso país tem um potencial enorme de investimentos principalmente na região da Amazônia, onde há riqueza de recursos naturais que se pode desenvolver dentro da sustentabilidade e em biocombustíveis, inclusive com valores acessíveis. Podemos investir em título verde baseado em manutenção de florestas e restauração de áreas, pagamento por serviços ambientais. O Brasil está com a faca e o queijo na mão: tem a fonte do recurso, o que falta é o desenvolvimento, a estrutura em torno disso”.

Confira o webinar em: