Engenheira Química cria método inédito para diagnosticar câncer de próstata
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A engenheira química e mestranda do Programa de pós-graduação da Universidade Federal de Uberlândia (PPGQUI-UFU), Anízia Durans, desenvolveu um método para o diagnóstico do câncer de próstata por meio da análise da urina. A nova técnica pretende ser mais conclusiva do que o tradicional exame PSA, realizado através do sangue coletado do paciente. “No exame PSA tem que haver a reação com o antígeno prostático, que não é específico para o câncer de próstata, assim pode apresentar resultados falsos positivos, não sendo conclusivo”, explica Anízia Durans.
Segundo a pesquisadora, além de produzir resultados mais eficientes com amostras de urina de pacientes com diferentes estágios do câncer de próstata, a nova técnica auxilia em um diagnóstico precoce da doença, possibilitando uma maior chance de êxito no tratamento médico.
“Ao conversar com o professor Waldomiro Borges Neto, do Instituto de Química da UFU, e meu orientador, me interessei por se tratar de um tema de extrema importância. Após ser aprovada no programa cursei as disciplinas, fiz treinamentos sobre Quimiometria e há um ano iniciei o estudo”, diz Anízia.
Foi por meio do Programa de pós-graduação em Química que a engenheira se interessou pela linha de pesquisa apresentada pelo seu orientador, o professor Waldomiro Borges Neto, do Instituto de Química da UFU.
“Às vezes, o aluno guia o mestre”. O professor Waldomiro Neto concorda com o ditado. Segundo o orientador, a Ciência, com toda sua complexidade, é um exemplo de que somente com todos os esforços se alcançam resultados satisfatórios. “Nesse cenário, o ditado nos remete ao fato de que todos aprendem ao longo do caminho. Não acredito que algum mestre não tenha algo a aprender com seus alunos, na construção do conhecimento todos envolvidos são beneficiados. Não tenho como definir em qual momento deixamos de aprender ao longo do processo. Enfim, ninguém é detentor do conhecimento ou imune à contribuição de cada indivíduo, esse é o maior fascínio da educação.”

“Todo estudo científico desperta em nós, pesquisadores, um fascínio que beira a paixão sem limites, quando se trata de temas relacionados à saúde, com uma relevância que toma dimensões ainda maiores. Saber que seu conhecimento vai contribuir para o desenvolvimento de algo com benefícios importantes, justifica todos os momentos de dedicação e esforços para alcançar bons resultados. Esse é o nosso principal papel na sociedade”, pontua o professor Waldomiro Neto.
O professor Waldomiro garante que com a publicação dos resultados em uma das mais importantes revistas científicas na área da Química, a Analytical Chemistry, e divulgação em mídias e jornais, as pesquisas podem consolidar parcerias com pesquisadores brasileiros, tornando possível realizar outros importantes estudos na temática das Ciências Ômicas.
A engenheira química relata que no seu método, analisando as amostras de urina pela técnica de espectrometria de massa é gerado uma grande quantidade de informação química.
“Usando métodos quimiométricos podemos distinguir as amostras de pacientes sadios dos pacientes com câncer de próstata, bem como identificar os compostos químicos relacionados à presença do câncer de próstata. Esses compostos serão estudados para avaliar sua ação como biomarcadores da doença. Assim, temos um exame mais específico na presença do câncer de próstata, o que aumenta a sua eficácia”, ressalta.
Segundo estudos do médico urologista Miguel Srougi, um dos maiores especialistas em cirurgias de câncer de próstata no Brasil, os exames de toque e PSA apresentam erros de até 35% e 20%, respectivamente.
“O Instituto de Radiologia de Presidente Prudente relata erros de 7% em exames por ressonância e 28% por biópsia. Portanto, os exames atualmente usados, mesmo que se complementando, não são totalmente conclusivos, principalmente em fases iniciais do câncer, fato que compromete no diagnóstico médico e possível tratamento, além de serem invasivos causando desconforto e até problemas como sangramentos e contaminações”, garante a pesquisadora.
Ainda de acordo com Anízia Durans, o método desenvolvido, embora considerando o fato de se tratar de um estudo local com 80 amostras, o resultado foi 100% de acerto em dois diferentes métodos quimiométricos e com parâmetros de mérito estatísticos que atestam a validação dos dois métodos aplicados.
“Temos, então, duas maneiras eficientes de modelar os dados e classificar as amostras o que amplia a aplicabilidade. Assim, mesmo aumentando o número de amostras de urina a serem analisadas, certamente, os métodos apresentaram erros muito menores que os obtidos nos exames atuais”, afirma a pesquisadora.
A pesquisa da engenheira Durans já rendeu frutos com uma parceria com pesquisadores do College of Medicine da University of Florida/Gainesville, nos Estados Unidos.
“A etapa de desenvolvimento de um teste disponível em farmácias, como os testes de Covid e gravidez, faz parte de projetos desenvolvidos no grupo de pesquisa do professor Doutor Timothy J. Garrett, da Universidade da Flórida.
Para o professor Waldomiro, a Química exerce um papel fundamental na Ciência. “Porque ela promove conhecimentos aplicados nas soluções, desde as mais simples até as mais complexas, das mais clássicas às mais inovadoras existentes, do macro ao nano, tantas possibilidades que nos tornam indispensáveis para a sociedade. Espero ainda ver a Ciência sendo tratada como uma importante solução para a nossa sociedade e não como um custo a se pagar”, conclui o orientador.
Crédito/Foto: Arquivo Pessoal Engenheira Química Anízia Durans