Terras raras: a nova fronteira da Química brasileira
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No solo de Minaçu, no norte de Goiás, uma riqueza estratégica para a economia mundial já começa a ser explorada em escala comercial. O município abriga uma operação dedicada à produção de terras raras, grupo de elementos químicos essenciais para tecnologias como veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos médicos, telecomunicações e sistemas de defesa.
O tema ganhou espaço no debate internacional por estar diretamente relacionado à transição energética, à soberania tecnológica e à busca de diferentes países por maior autonomia em cadeias produtivas hoje fortemente concentradas. Nesse cenário, o Brasil ocupa posição estratégica por possuir uma das maiores reservas conhecidas desses minerais no mundo.
Ter o recurso, porém, é apenas o primeiro passo. O desafio está em transformar essa riqueza em conhecimento, tecnologia e produtos de maior valor agregado. Depois da extração, entram etapas como beneficiamento, caracterização química, separação, purificação e obtenção de óxidos, metais e ligas. É justamente nesse processo que o profissional da Química assume papel central.
Para o Conselho Federal de Química (CFQ), ampliar a participação brasileira nessa cadeia exige investimento em ciência, inovação, formação profissional e capacidade industrial.
“As terras raras são uma oportunidade ímpar para o Brasil do ponto de vista da soberania brasileira e algo que pode ser um divisor de águas para a ciência e a tecnologia. Os profissionais da Química acompanham com grande interesse esse debate e tem uma posição clara a favor do nosso desenvolvimento e da nossa população”, afirma José de Ribamar Oliveira Filho, presidente do CFQ.
Química no centro da cadeia

As terras raras formam um grupo de 17 elementos químicos. Apesar do nome, muitos não são necessariamente escassos na crosta terrestre. A complexidade está em encontrá-los em concentrações economicamente aproveitáveis e, principalmente, em separá-los.
Como possuem propriedades químicas semelhantes, sua separação exige processos sofisticados. Profissionais da Química atuam na análise da composição dos minérios, no desenvolvimento de rotas de processamento, no controle de parâmetros como pH, temperatura e concentração, além da separação seletiva dos elementos, tratamento de resíduos e controle de qualidade.
Kilder Bernardes Pereira, formado em licenciatura em Química pela Universidade Estadual de Goiás (UEG) e gerente de Laboratório e Processo em uma operação do setor em Minaçu, destaca a importância dessa atuação.
“O desenvolvimento de uma operação de terras raras demanda um conhecimento técnico altamente multidisciplinar, envolvendo etapas como caracterização dos materiais, testes e validação de processos, desenvolvimento de rotas de processamento, beneficiamento e produção em diferentes escalas. Nesse cenário, o papel do profissional da Química é fundamental, pois é ele quem domina os princípios e técnicas necessários para compreender a composição, o comportamento e as transformações químicas desses materiais ao longo de todo o processo produtivo”, explica.
Mais do que ampliar a mineração, portanto, o Brasil precisa avançar nas etapas posteriores da cadeia. São elas que concentram conhecimento, tecnologia e maior valor econômico.
Disputa global amplia oportunidades

A crescente demanda por tecnologias de baixo carbono, automação, eletrificação e equipamentos de alta precisão colocou as terras raras no centro de uma disputa internacional. A China mantém posição dominante tanto na mineração quanto, principalmente, no processamento desses materiais.
Essa concentração tem levado diferentes países a buscar novos fornecedores e a investir na diversificação das cadeias produtivas. Nesse movimento, o Brasil passou a despertar maior interesse internacional. Para o CFQ, esse cenário representa uma oportunidade não apenas para o setor mineral, mas também para a ciência e a indústria nacionais.
“Vemos esse boom das terras raras como uma grande oportunidade para o Brasil e para a Química brasileira. O domínio chinês é resultado de uma estratégia de longo prazo. O país investiu em pesquisa, desenvolvimento e políticas industriais desde o século passado, tratando as terras raras como recursos estratégicos. A ciência brasileira merece ser ouvida e consultada, temos milhares de profissionais qualificados e preparados para assumirem seu papel neste campo”, destacou Jonas Comin, 1o secretário do CFQ.
O desafio é evitar que o país se limite à exportação de matéria-prima. Quanto mais a cadeia avança, maior é a incorporação de conhecimento científico e tecnológico. Da mineração, passa-se aos óxidos separados, metais, ligas e componentes empregados em produtos de alta tecnologia.
Ciência nacional busca soluções

A pesquisa brasileira também trabalha para desenvolver tecnologias próprias para esse mercado. Um exemplo vem da Universidade de São Paulo (USP), onde pesquisadores estudam a nano-hidrometalurgia magnética, técnica que utiliza nanopartículas funcionalizadas para capturar seletivamente íons de terras raras.
O método pode contribuir para processos de separação mais eficientes e com menor consumo de determinados reagentes e solventes.
“Nós estamos desenvolvendo um processo de captura e separação utilizando nanotecnologia. É um projeto bastante ambicioso, porque nem mesmo a China trabalha exatamente dessa forma. Estamos criando novos materiais capazes de capturar seletivamente as terras raras, o que pode representar uma inovação tecnológica para o Brasil”, afirma o professor e pesquisador Henrique Eisi Toma à revista Pesquisa FAPESP.
O avanço dessa cadeia abre espaço para áreas como Química Analítica, hidrometalurgia, nanotecnologia, ciência dos materiais, controle ambiental e desenvolvimento de processos industriais. Mais do que uma corrida por recursos minerais, as terras raras colocam diante do Brasil uma decisão estratégica: exportar riqueza mineral ou usar ciência, indústria e qualificação profissional para transformá-la em tecnologia. Para os profissionais da Química, essa nova fronteira já começou a ser aberta.