Segurança começa no rótulo

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Especialistas alertam para os perigos das combinações de produtos feitas em casa, que podem colocar em risco a saúde de adultos, crianças e animais

Mais um caso de intoxicação por inalação de gases tóxicos foi registrado, desta vez em Minas Gerais, e o motivo não é incomum: a mistura de produtos de limpeza. A ocorrência resultou na internação de uma mulher após ela limpar sua residência com uma combinação de ácido muriático e água sanitária.

Muitas pessoas recorrem a essas combinações para “potencializar” a faxina. Mas, além de representarem graves riscos à saúde, essas receitas podem diminuir a eficácia desse tipo de produto. Para entender as consequências dessas misturas, primeiro é preciso ter em mente que limpeza é o processo de remoção de sujeiras, sujidades e resíduos de material orgânico ou oleoso, como poeira, restos de pele e gordura.

De forma resumida, por meio do uso de tensoativos ou surfactantes (sabões e detergentes), a água (substância polar) interage com substâncias apolares (óleos), formando micelas que são carregadas pela água. Além do produto químico, a limpeza exige um movimento mecânico – como esfregar, bater a roupa na máquina de lavar ou usar esponjas – para desprender a sujeira da superfície.

Assim, misturar produtos de limpeza não aumenta sua eficácia. “Se um produto é ácido e o outro é básico, ocorre uma reação entre eles e você tem a perda dos dois princípios ativos, porque um neutraliza a ação do outro. Você pode ter, também, a competição entre produtos. Então, aquilo que deveria ser produzido para que resultasse na ação desejada com o uso do produto, não necessariamente aparece”, explica o 2º vice-presidente do Conselho Federal de Química, Wilson Botter.

Outro problema está nas substâncias químicas envolvidas, que podem reagir entre si formando gases tóxicos, produtos corrosivos e outros, ainda, com liberação de calor, “que podem causar acidentes graves, inclusive levando as pessoas à morte em muitos casos” explica o conselheiro federal Wagner Contrera. De acordo com o profissional, não existe combinação 100% segura; por isso, o ideal é não realizar essas misturas em hipótese alguma. “O que a gente recomenda é que sempre se sigam as instruções nos rótulos das embalagens.”

Uma simples busca na internet sobre misturas para limpeza doméstica apresenta inúmeros resultados. Mas a mais famosa é a de água sanitária e vinagre. Inofensiva à primeira vista, essa combinação pode gerar a liberação de gases tóxicos, como gás cloro e cloraminas, que são extremamente irritantes para as vias respiratórias. Em casos mais graves, quando realizada em locais fechados, pode levar a pessoa a óbito.

“O problema desses conteúdos de internet é que tudo é caseiro, natural, sem química e isso dá uma sensação de segurança, mas é exatamente o oposto. A Química é o que gera segurança nas atividades, nos produtos, na utilização pela sociedade. Produto natural e caseiro é uma expressão que vende bem, mas não entrega o que vende propriamente”, explica o conselheiro federal e coordenador da Comissão de Orientação e Fiscalização Profissional (CFISC) do CFQ, Rodrigo Moura.

Para o profissional, o cuidado principal é não fazer essas combinações. “Fugir de mistura milagrosa, porque não existe milagre, não existe mágica, o que existe é ciência. E onde existe ciência, existe segurança, e é onde está o profissional da Química, atuando com segurança, garantindo segurança para a sociedade na utilização dos produtos químicos e nos serviços relacionados à atividade Química”, ensina.

 

Combate à desinformação

Hoje existem muitas formas de combater a desinformação. Uma delas é por meio de denúncias. “Os Conselhos Federal e Regionais de Química, que podem receber essas denúncias. Outros órgãos de fiscalização, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o Ministério Público, as vigilâncias sanitárias dos municípios e dos estados também recebem denúncias”, orienta o conselheiro.

 

Segurança química começa pela informação

Limpeza eficiente não significa misturar produtos. O uso correto, individual e conforme as instruções do fabricante continua sendo a forma mais segura de higienizar ambientes. Além de não recorrer a misturas caseiras, recomenda-se utilizar equipamentos de proteção, como luvas e máscaras, manter os ambientes ventilados durante a limpeza e evitar seguir receitas compartilhadas sem comprovação científica.

 

Conscientização é a chave para evitar acidentes

Além dos alertas dos especialistas, iniciativas educativas também buscam sensibilizar as pessoas e esclarecer dúvidas sobre os riscos de misturar produtos químicos. Uma delas é o jogo “Mistura Explosiva”, que, com linguagem acessível e dinâmica, mostra, na prática, o perigo dessas combinações feitas em casa.

O jogo, que é fruto da parceria entre o Conselho Federal de Química (CFQ) e Associação Brasileira da Indústrias de Produtos de Higiene, Limpeza e Saneantes (Abipla), também reforça a importância da leitura dos rótulos, do armazenamento correto dos produtos e do uso consciente de substâncias químicas no cotidiano.