Vazamento de estireno e incêndio em indústria reforçam importância da atuação dos profissionais da Química
Publicado em:
Especialistas destacam os riscos associados a substâncias químicas e explicam como a atuação dos profissionais da Química contribui para prevenir acidentes e proteger trabalhadores, população e meio ambiente

O vazamento de estireno registrado em uma fábrica no Distrito Industrial de Manaus (AM) e o incêndio em uma indústria química em Itaquaquecetuba (SP), em meados de julho, reforçam a importância dos protocolos de segurança e da atuação dos profissionais da Química na prevenção e no gerenciamento de acidentes envolvendo substâncias químicas.
Amplamente utilizado pela indústria, o estireno é matéria-prima para produtos como copos descartáveis, bandejas, embalagens, componentes plásticos e poliestireno expandido (EPS), popularmente conhecido como isopor.
Segundo o conselheiro do Conselho Federal de Química (CFQ), Ubiracir Fernandes Lima, o estireno é um monômero que dá origem a diferentes polímeros. Apesar de seu uso consolidado, a manipulação exige controles rigorosos.
“A toxicidade dele depende da quantidade da substância à qual o cidadão está exposto. Os efeitos mais comuns são irritações nos olhos, no nariz e na garganta. Quanto maior o período de exposição, mais intensas podem ser as dores de cabeça e as tonturas”, explica.
Em casos de maior exposição, a intoxicação pode provocar complicações e exigir atendimento médico. Após vazamentos, a orientação é seguir as determinações das autoridades e não retornar às áreas atingidas antes da liberação técnica. Alimentos que tenham ficado expostos também devem ser cuidadosamente higienizados antes do consumo.
Segurança começa antes do acidente
A prevenção de acidentes começa antes das emergências. Os profissionais da Química são responsáveis por estabelecer condições seguras de armazenamento e manipulação, considerando as características físico-químicas das substâncias.
O conselheiro federal do CFQ e superintendente do Conselho Regional de Química da 4ª Região (SP), Wagner Contrera, explica que cabe ao profissional definir critérios relacionados à compatibilidade entre substâncias, temperatura, ventilação, sistemas de contenção e procedimentos operacionais.
A indústria também deve adotar análise de riscos, manutenção preventiva e preditiva de equipamentos, sistemas de detecção e combate a incêndios, equipamentos de proteção individual e coletiva, planos de emergência, treinamentos e inspeções periódicas. O cumprimento das Normas Regulamentadoras, das normas técnicas da ABNT e das exigências ambientais e de segurança é igualmente fundamental.
Cada substância exige uma resposta específica
Incêndios envolvendo produtos químicos não podem ser combatidos como ocorrências convencionais. Algumas substâncias podem liberar gases tóxicos, inflamáveis ou corrosivos, enquanto outras apresentam risco de explosões ou reações violentas.
Por isso, conhecer as propriedades dos produtos envolvidos é essencial para definir o agente extintor adequado, estabelecer áreas de isolamento, proteger as equipes e reduzir impactos ambientais.
O incêndio em Itaquaquecetuba demonstra essa complexidade. Segundo Contrera, uma fonte de ignição pode ter provocado uma reação em cadeia entre tanques de armazenamento próximos. “Uma faísca, um ponto de ignição qualquer, pode provocar um incêndio e, consequentemente, uma reação em cadeia. Os tanques são próximos e, por isso, essas explosões acabaram ocorrendo.”
O conselheiro informou que o CRQ da 4ª Região havia fiscalizado a empresa no mês anterior ao acidente e constatado a presença de profissionais da Química legalmente habilitados. A fiscalização do Sistema CFQ/CRQs verifica o exercício profissional e não substitui as inspeções de segurança operacional dos órgãos competentes.
Atuação durante e após a emergência
Para o 2º vice-presidente do CFQ, Wilson Botter, profissionais habilitados têm papel fundamental desde os primeiros momentos de um acidente químico. Os protocolos incluem isolamento da área, acionamento do Corpo de Bombeiros e dos órgãos competentes, além de orientação técnica para recolhimento, tratamento e contenção das substâncias. Após a emergência, os profissionais monitoram possíveis impactos ambientais por meio da coleta e análise de amostras de ar, água, solo e vegetação.
“Após um acidente envolvendo substâncias químicas, o monitoramento da qualidade do ar e a avaliação do impacto ambiental são fundamentais. O profissional da Química é responsável por realizar análises que identificam a presença do contaminante e orientam as medidas necessárias para minimizar ou neutralizar esse risco”, destaca Botter.
Quando identificada contaminação, podem ser necessárias ações de contenção, monitoramento periódico e técnicas de remediação ambiental. No caso do estireno, Botter ressalta que os vapores tendem a permanecer próximos ao solo por serem mais densos que o ar, reforçando a importância do isolamento das áreas atingidas.
Aprendizado para evitar novos acidentes
Acidentes químicos também são investigados para identificar causas e aperfeiçoar os mecanismos de prevenção. Segundo Contrera, são avaliados fatores humanos, operacionais e estruturais. Os resultados podem levar à revisão de procedimentos, melhorias nos sistemas de segurança e novas capacitações. “Mais do que responder a emergências, a atuação dos profissionais da Química é decisiva para prevenir acidentes, garantir o uso seguro de substâncias químicas e assegurar que processos industriais sejam conduzidos de acordo com critérios técnicos, ambientais e de segurança, protegendo trabalhadores, a população e o meio ambiente”, finaliza.