A Amazônia como laboratório vivo: ciência, biorremediação e o papel estratégico da Química na recuperação ambiental

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Durante a participação do CFQ na COP30, debate destacou a floresta como espaço real de aplicação científica, integração de saberes e recuperação ambiental

Durante a participação do Conselho Federal de Química (CFQ) na COP30, foi realizado o painel “A Amazônia como Laboratório Vivo da Biorremediação”, promovido pelo CRQ 17ª Região (AL), reforçando que a maior floresta tropical do planeta não é apenas objeto de estudo, mas um campo real de aplicação para técnicas de recuperação ambiental. O debate mostrou que restaurar a Amazônia exige muito mais do que tecnologia: requer ciência aplicada, regulação séria e integração com o conhecimento tradicional que nasce do território.

A discussão ganhou profundidade quando o moderador, presidente do CRQ 2ª Região (MG) e membro do Comitê de Relações Institucionais e Governamentais do Conselho Federal de Química (CRIG/CFQ), Wagner Pederzoli, trouxe a pergunta que norteou toda a mesa: “Quando falamos em Amazônia como laboratório vivo da biorremediação, estamos falando de quê exatamente? Da pesquisa, das políticas públicas ou da questão como um todo?”

Ele defendeu que a resposta está justamente na interseção desses três eixos. Pederzoli explicou que a biorremediação — técnica que utiliza microrganismos, fungos e plantas para degradar ou neutralizar poluentes — pode ser uma das soluções mais promissoras para a descontaminação de áreas impactadas por petróleo, metais pesados e resíduos agrícolas. Mas, segundo ele, nenhuma inovação científica se sustenta sem governança, fiscalização e a capacidade de transformar pesquisa em prática.

A fala abriu espaço para um dos pontos mais contundentes do painel: a necessidade de desmistificar a química. Pederzoli lembrou que, muitas vezes, a área é associada apenas a riscos ou impactos negativos, quando, na verdade, é o conhecimento químico que permite mapear contaminantes, desenvolver metodologias seguras e garantir que cada agente utilizado na biorremediação seja monitorado com precisão. “Nós precisamos desmistificar a química”, reforçou, apontando o uso distorcido do termo “dependentes químicos” como exemplo de como a percepção pública ainda é equivocada.

A dimensão prática e regulatória do tema foi aprofundada quando Demetrius Pereira Morilla, conselheiro e tesoureiro do CRQ 17ª Região (AL), destacou que a biorremediação, embora natural, exige rigor técnico e normas claras. Para ele, o sucesso de qualquer intervenção depende da capacidade de controlar e acompanhar o uso dos microrganismos aplicados, um trabalho que recai diretamente sobre os profissionais da química. “É preciso ter o controle para não perder a proporção do uso deles”, alertou.

Ao longo do painel, Morilla também destacou que grande parte das comunidades amazônicas, especialmente as ribeirinhas, enfrenta dificuldades para acionar órgãos técnicos durante acidentes ambientais, revelando a urgência de políticas públicas mais acessíveis e de uma comunicação técnica mais efetiva.

O debate ganhou camadas importantes quando os participantes ressaltaram que a ciência moderna precisa dialogar com saberes indígenas e tradicionais, que acumulam há séculos conhecimento profundo sobre plantas, fungos e dinâmicas ecológicas essenciais à fitorremediação. Essa integração, afirmaram, não é complementar, é determinante. Projetos que ignoram o conhecimento local têm menos precisão, menos impacto e menor aderência ao território.