Fogos de artifício e segurança: como a Química contribui para evitar acidentes

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Festas de fim de ano, comemorações populares e grandes eventos costumam ser marcados pelo brilho e pelas cores dos fogos de artifício. Por trás do espetáculo, no entanto, existe uma combinação complexa de substâncias químicas que, quando mal utilizadas, armazenadas ou manuseadas, pode transformar momentos de celebração em tragédias. O Conselho Federal de Química (CFQ) alerta que os riscos associados aos artefatos pirotécnicos são reais, graves e, em grande parte, evitáveis quando há controle técnico e responsabilidade profissional.

O alerta ganha ainda mais relevância tendo em vista a explosão de um depósito clandestino de fogos de artifício no bairro do Tatuapé, em São Paulo, que resultou em uma morte e ao menos dez pessoas feridas. A tragédia ocorreu no mês de novembro e demonstra as consequências da ausência de fiscalização, do comércio ilegal e, sobretudo, da falta de acompanhamento técnico especializado.

A química que encanta também oferece perigo

O espetáculo visual dos fogos de artifício é resultado direto de reações químicas cuidadosamente controladas. A base da maioria desses artefatos é a pólvora negra, composta por um agente oxidante, como o nitrato de potássio, e combustíveis, como carvão e enxofre. A ela se somam sais metálicos responsáveis pelas cores: o vermelho vem do estrôncio, o verde do bário, o azul do cobre, o amarelo do sódio e o branco intenso de metais como magnésio e
alumínio.

De acordo com o conselheiro federal de Química Sérgio Machado, o risco está justamente no fato dessas substâncias serem altamente reativas, instáveis e, muitas vezes, tóxicas. “Estamos lidando com oxidantes, combustíveis e metais em pó que podem reagir violentamente ao calor, ao atrito, ao impacto ou até à eletricidade estática. Sem controle técnico rigoroso, o risco de explosões, incêndios e intoxicações é altíssimo”, explica.

Além dos acidentes imediatos, a queima dos fogos libera partículas finas e aerossóis metálicos na atmosfera, contribuindo para a poluição do ar e agravando problemas respiratórios, especialmente em pessoas mais sensíveis.

Responsabilidade técnica: o papel decisivo do químico

Por se tratar de uma atividade de alto risco, a legislação brasileira determina que a fabricação de fogos de artifício ocorra sob a responsabilidade técnica de um profissional da Química. Esse especialista atua em todas as etapas do processo: desde a formulação das misturas, passando pela escolha e análise das matérias-primas, até a definição de procedimentos seguros de produção, armazenamento, transporte e controle de qualidade.

“O químico é o profissional que transforma substâncias perigosas em um produto estável e previsível. Ele evita combinações incompatíveis, controla a pureza dos reagentes e estabelece processos que reduzem drasticamente o risco de acidentes”, destaca Sérgio Machado. Segundo o CFQ, a ausência desse profissional caracteriza a atividade como clandestina do ponto de vista técnico e expõe trabalhadores, consumidores e comunidades inteiras a riscos inaceitáveis.

Os perigos não se restringem ao ambiente industrial. O armazenamento e o manuseio inadequados em residências também são fatores decisivos para a ocorrência de acidentes. Guardar fogos de artifício em locais quentes, úmidos, sem ventilação ou próximos a materiais inflamáveis pode levar à degradação das substâncias químicas e até à autoignição dos artefatos.

Erros como empilhamento inadequado, acesso de crianças aos produtos e tentativas de reacender fogos que falharam são recorrentes e frequentemente resultam em queimaduras graves, mutilações e incêndios. O CFQ reforça que crianças e adolescentes não devem, em hipótese alguma, manusear fogos de artifício. Mesmo para adultos, é fundamental seguir rigorosamente as instruções dos rótulos, respeitar a classificação de risco e jamais utilizar esses produtos sob efeito de álcool.

Ruído, sofrimento e alternativas mais seguras

Além das explosões e queimaduras, o ruído intenso dos fogos, que pode atingir até 160 decibéis, provoca estresse, distúrbios do sono e crises de ansiedade em humanos, afetando principalmente idosos, bebês, pessoas com transtorno do espectro autista e pacientes hospitalizados. Para os animais, o impacto é ainda mais severo: o barulho é interpretado como ameaça, causando pânico, fugas e até acidentes fatais.

Diante desse cenário, o CFQ defende o uso de fogos com menor potencial de ruído, que representam uma evolução técnica da pirotecnia. “Esses produtos direcionam a energia da reação para a luz e as cores, não para o som. São mais inclusivos, mais seguros e socialmente responsáveis”, afirma Sérgio Machado.

Consciência, fiscalização e responsabilidade

O Conselho Federal de Química reforça que a compra de fogos de artifício deve ser feita exclusivamente em estabelecimentos certificados pelo Corpo de Bombeiros. E que o comércio clandestino, além de ilegal, alimenta uma cadeia de risco que frequentemente culmina em acidentes graves e perdas irreparáveis.

“O Sistema CFQ/CRQs atua para proteger a sociedade, fiscalizando, orientando e garantindo que essa atividade seja sempre supervisionada por um profissional habilitado. A presença do químico é a primeira e mais importante barreira contra acidentes”, conclui o conselheiro.

Para que as celebrações continuem encantando sem colocar vidas em risco, a conscientização da população, o fortalecimento da fiscalização e o respeito à ciência e à responsabilidade técnica são caminhos indispensáveis.

 

Fonte da foto de capa: Freepik