XXII ENEQ destaca inovação em sala de aula, desafios da evasão e ensino de Química na Amazônia

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No segundo dia do XXII Encontro Nacional de Ensino de Química (ENEQ), realizado na Universidade Federal do Pará (UFPA), duas apresentações marcaram a manhã com discussões sobre o futuro do ensino de Química e Ciências no Brasil.

A programação começou com a palestra intitulada “Escape room: jogos de fuga e suas potencialidades para o ensino da Química, pensando em ações e propostas para o contexto brasileiro”, conduzida pelo professor Eduardo Luiz Dias Cavalcanti, do Instituto de Química da Universidade de Brasília (UnB), e pela professora Maria das Graças Cleophas, da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Durante sua apresentação, Maria das Graças destacou a importância da ludicidade no ensino. “A ludicidade pode estimular o pensamento criativo. Os jogos de escape oferecem uma abordagem interativa e envolvente, que pode tornar o aprendizado da Química mais atraente para os alunos”, afirmou.

Cavalcanti complementou a discussão ressaltando a necessidade de uma abordagem integrada. “Devemos considerar tanto o ensino quanto a aprendizagem. Esses métodos lúdicos podem ser adaptados para diferentes contextos, oferecendo novas possibilidades para o aprendizado. Precisamos encontrar maneiras de envolver os alunos”, disse.

Evasão acadêmica
Na sequência, as professoras Dra. Andréia Francisco Afonso, do Programa de Pós-Graduação em Química da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), e Gahelyka Aghta Pantano Souza, professora do curso de Licenciatura em Química da Universidade Federal do Acre (UFAC), abordaram o tema “Os cursos de licenciatura em Química: desafios frente à evasão”.

Para a professora Andréia Afonso, a evasão nos cursos de licenciatura em Química é um desafio que requer a implementação de estratégias específicas para apoiar a retenção dos alunos. Já a professora Gahelyka Souza afirmou que é necessário “identificar as razões por trás da evasão e desenvolver soluções para garantir que mais estudantes completem suas formações”.

Ensino de Química na Amazônia
À tarde, o destaque foi a palestra de Terezinha Valim O. Gonçalves, do Instituto de Educação Matemática e Científica da UFPA, sobre “A constituição da área de ensino de Ciências e Química na Amazônia”. A professora apresentou um panorama detalhado sobre a evolução da educação científica na região, refletindo sobre os desafios e avanços no campo.

Terezinha começou sua fala abordando a necessidade de coerência entre métodos de ensino e avaliação. Ela compartilhou um episódio de 1979, quando seus alunos expressaram a falta de experiência prática no ensino e a ausência de orientações detalhadas sobre como melhorar sua atuação. Esse relato levou à criação do Clube de Ciências, uma iniciativa voltada a oferecer experiências práticas e promover a formação de professores com foco na educação para a cidadania.

“Eu estava a caminho de um evento em Teresina e propus aos alunos a ideia de criar um espaço com estudantes no campus onde pudéssemos preparar atividades. Durante a viagem, eles deveriam elaborar o projeto, e ao retornar, finalizá-lo para apresentar ao diretor da universidade. Ele aprovou a ideia e ficou responsável pela tramitação”, lembrou.

Inicialmente, o projeto funcionou fora do campus da UFPA, na Escola Municipal Padre Leandro Pinheiro. Posteriormente, o grupo conseguiu aprovação de financiamento pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o que possibilitou a implementação de cursos e eventos para a formação continuada de professores de ciências e matemática. Com esse apoio, o projeto transferiu-se para um prédio no campus da universidade, que antes abrigava uma antena de rádio local.

“O primeiro financiamento veio do CNPq em 1980, porque a instituição percebeu a necessidade de apoiar a educação básica, além da iniciação científica em níveis superiores”, explicou Terezinha. Ela detalhou como o apoio financeiro do CNPq e da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) foi importante para criar e manter o Clube de Ciências, além de permitir a reforma de um prédio que hoje abriga a biblioteca da instituição. “Recebemos um financiamento da Sudam para reformar um prédio que estava em condições precárias e que agora faz parte da nossa biblioteca”, destacou.

Clube de Ciências
O grupo fortaleceu-se ao aprovar financiamentos de agências de fomento (CAPES, CNPq e FINEP) e firmar parcerias com outras instituições (MEC, MPEG, UEPA, SEDUC, SEMEC/Belém, Escola de Emaús) para realizar cursos de aperfeiçoamento de professores e eventos de educação e divulgação científica. O fortalecimento culminou com a criação, em 1996, do Núcleo Pedagógico de Apoio ao Desenvolvimento Científico (NPADC), que em 2009 se transformou no Instituto de Educação Matemática e Científica (IEMCI). Atualmente, o IEMCI possui diversos programas de ensino, pesquisa e extensão voltados para o aperfeiçoamento de professores de todos os níveis de ensino.

O Clube de Ciências, que deu origem ao IEMCI, continuou suas atividades como um projeto vinculado ao Instituto. A essência do projeto permanece a mesma desde o início: professores-estagiários planejam e executam atividades para turmas de sócios-mirins, com aulas realizadas nas manhãs de sábado.

Desafios na Pós-Graduação
Sobre os desafios enfrentados pelos programas de pós-graduação, Terezinha destacou a questão das bolsas para professores. “Os desafios dos programas de pós-graduação estão relacionados à disponibilidade de bolsas para professores, que atualmente não recebem mais esse benefício”, explicou. Ela mencionou que a ausência delas dificulta a dedicação exclusiva à pesquisa e afeta a qualidade de vida e a produção acadêmica dos docentes. “Muitos professores conseguem produzir resultados relevantes mesmo sob essa pressão, mas frequentemente isso vem à custa de sua própria saúde”, ressaltou.

Ao final do debate, o professor Wilton Rabelo Pessoa, diretor-adjunto do Instituto de Educação Matemática e Científica (IEMCI) da UFPA, fez um agradecimento especial à palestrante.

“Apesar do avanço da área e da comunidade de ensino de Química nos últimos 24 anos, ainda enfrentamos essas questões na área da Ciência. Muitas vezes, a pesquisa que os estudantes realizam não está voltada para a docência. Quero parabenizar a professora Terezinha por todo o trabalho realizado. O próprio ENEQ foi organizado por um grupo que vem do Clube de Ciências. Então, a senhora também faz parte deste evento, e nosso agradecimento é muito especial”, ponderou.

Honraria
O impacto do trabalho de Terezinha foi reconhecido no início do ano com a medalha Francisco Caldeira Castelo Branco, a maior honraria concedida pela Prefeitura de Belém, destinada a agraciar pessoas e instituições por relevantes serviços prestados à capital paraense. A comenda recebida pela professora reconhece seus 45 anos dedicados ao ensino, pesquisa e extensão na UFPA e toda a contribuição para o desenvolvimento da área de ensino de ciências e matemática no estado do Pará e na Amazônia.

XXII ENEQ
Voltado para docentes de Química e Ciências da educação básica, do ensino superior e estudantes de licenciatura e pós-graduação, o XXII Encontro Nacional de Ensino de Química ocorreu de 9 a 12 de setembro em Belém (PA). O evento teve o objetivo de debater o cenário atual de defesa e resgate de direitos na esfera social, ambiental e no campo da educação pública.

Paralelamente ao evento, também foram promovidas a primeira edição do Encontro Regional de Ensino de Química – Norte (EREQUI – Norte) e a 8ª edição da Mostra de Materiais Didáticos de Química (VIII MOMADIQ).