Analitica Latin America: Professor debate propriedades e uso terapêutico da cannabis
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O uso medicinal da cannabis foi debatido, na terça-feira (26), durante a Analitica Latin America – principal evento da indústria química analítica da América Latina. O tema despertou interesse dos participantes assim como tem despertado da população brasileira, já que, de acordo com um estudo publicado pela FIOCRUZ, cerca de 50 mil pessoas estavam em tratamento com a planta no Brasil em 2021. Mas de acordo com os dados do estudo, com uma regulação mais ampla, esse número poderia chegar a quase sete milhões de pessoas.
“O Brasil é pioneiro no uso de cannabis medicinal, que, na última década, mostrou ser um mercado multimilionário”, enfatizou José Luiz Costa, professor associado da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade Estadual de Campinas (FCF-Unicamp) e coordenador executivo do Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATOx) de Campinas.
Para ilustrar a dimensão desse mercado, o professor apresentou alguns dados de outros países, como os Estados Unidos. No Colorado, em cinco anos, o uso da planta aumentou 256%, aumentando a arrecadação local em mais de 500%. “E não é só vender a cannabis ou o extrato, é mais que isso. É um mercado porque traz um nicho completo: produtos utilizados para pets, mercado alimentício, apetrechos para o uso recreativo. É um enorme mercado”, destacou.
Porém, na opinião de Costa, o uso da cannabis, ainda que medicinal, é muito estigmatizado e é importante observar como usar a planta. “É preciso tomar cuidado para não virar uma panaceia. Parece que a cannabis serve para tudo, e não é bem assim. Existem patologias em que a gente sabe que o uso é efetivo, como epilepsia e ansiedade, mas não serve para tudo”, alertou.

O Brasil ainda não possui regulamentação sobre o uso da cannabis. O Sistema CFQ/CRQs participa ativamente, desde 2021, de debates sobre o tema, que vem sendo discutido principalmente em sessões no Congresso Nacional, em Brasília (DF). Em uma delas, o conselheiro federal Ubiracir Lima, que também é integrante da Câmara Técnica de Saneantes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), defendeu que a pesquisa sobre cannabis medicinal se transforme em estudo clínico.
“O Conselho apoia totalmente a função química que envolve o tema. A nossa contribuição é olhar os metabólicos presentes na planta e dar suporte ao médico prescritor e a quem mais [faz seu uso terapêutico]”, afirmou o conselheiro em sessão realizada no dia 29 de junho.
Ainda de acordo com José Luiz Costa, o uso da substância no Brasil gera algumas preocupações, especialmente quanto ao cultivo local e principalmente quando esse cultivo é realizado sem autorização. “Muitas vezes, é uma alternativa a preços elevados. Mas se é um medicamento, precisa de um controle de qualidade. É preciso acertar a dose, além de ter um profissional para isso”, destacou.
Ele reforçou que várias substâncias químicas estão presentes na planta, então a ausência de análises e de um cuidadoso controle de qualidade resultam na incerteza da concentração de canabinoides (principal grupo de substâncias químicas de interesse na planta), bem como na incerteza da concentração de terpenos, outro grupo de substâncias presente, que são relacionados ao cheiro, e também apresentam características terapêuticas.
O professor ainda observou que é preciso cautela, pois, dependendo de como foi realizado o cultivo ou a extração da planta, pode haver possíveis contaminações da planta e exposição a substâncias sabidamente tóxicas. “O uso terapêutico é inegável. Mas para ser efetivamente medicinal, é preciso ter regulamentação no mercado, ter acesso a produtos de qualidade para o real benefício”, finalizou Costa.
Nesse aspecto, a professora Virginia Carvalho, da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), completou: “nenhuma autorização judicial vai substituir uma fiscalização sanitária.”
A docente apresentou, durante o 9º Congresso Analitica, os trabalhos que vem conduzindo no sentido da ressignificação do cuidado farmacêutico pelo acesso popular à química analítica. Ela explicou que os termos hemp (cânhamo) ou marijuana (maconha) são dados com base na relação entre THC (tetrahidrocanabidiol) e CBD (canabidiol), sendo que cânhamo tem mais CBD e maconha tem mais THC. O CBD não possui efeito psicoativo; mas o THC, sim. Logo, os efeitos produzidos pelo óleo extraído de plantas de quimiotipos diferentes não serão os mesmos.
Uma das conclusões a que a docente chegou, a partir de suas pesquisas, foi que o método comum da decocção em óleo costuma gerar contaminação microbiana e resulta em baixa concentração de CBD. Sendo assim, o grupo de pesquisa passou a estudar a extração a óleo e percebeu melhores resultados.
Feira
A Analitica Latin America é considerada o principal evento da indústria química analítica da América Latina. Realizada em São Paulo (SP), é considerada um ponto de encontro mundial da indústria química analítica, além de ser o principal elo entre a indústria e a academia. O encontro, realizado entre os dias 26 e 28 de setembro, reúne fornecedores, distribuidores, fabricantes e pesquisadores do setor, além de Profissionais da Química.
Simultaneamente à Feira, ocorre o 9º Congresso Analitica, no qual estão sendo debatidos temas do mercado de alimentos, farmacêutico, controle de combustíveis, energias alternativas e Química Verde. Pelo segundo ano seguido, o Congresso faz parceria com o Encontro Nacional de Química Analítica (ENQA).