CLAQ 2022: Professora defende que Profissional da Química contribua com decolonização social

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Enfatizar a participação das mulheres dentro do conceito de conhecimento científico e entender como isso ocorreu no contexto histórico foi o foco do minicurso ministrado por dois dias (15 e 16/11) pela Química e professora da Universidade Federal Fluminense Márcia Narcizo Borges no Congresso Latino-Americano de Química (CLAQ 2022), no Rio de Janeiro (RJ). Ela apresentou propostas para o ensino de Química enfatizando as contribuições das mulheres numa perspectiva não colonial.

Segundo Márcia, a comunidade científica brasileira é carente da presença de mulheres e apresentou dados que mostram que dos 77,8 mil pesquisadores brasileiros com doutorado, 59,69% são homens e 40,3% são mulheres. Dessas mulheres, 85% estão nas regiões Sudeste e Sul, 15% Norte e Nordeste. E deste percentual feminino, 0,3% são indígenas, 2% amarelas, 2,4% pretas, 12,7% pardas e 82,7% brancas. Ou seja, em uma perspectiva histórica, é preciso pensar além da igualdade de gênero, mas também na questão racial. “A gente pode pensar no ensino de Química atento a essa preocupação. Não são todas as mulheres que têm oportunidades iguais de fazer Ciência, o componente racial também conta”, explicou.

No primeiro dia do minicurso, a professora trouxe informações que, apesar de não serem considerados oficialmente conhecimento científico, são relatos históricos que contribuíram com o avanço da Ciência, como a participação das mulheres no avanço da medicina e o desenvolvimento de remédios naturais. “Mas o fato é que, ao longo da História, essas mulheres foram consideradas bruxas ou feiticeiras, além das mulheres indígenas e negras, que possuíam conhecimento rudimentar sobre Ciência, e foram colonizadas por brancos”.

A professora relatou que o que acabou acontecendo é que algumas dessas práticas foram consideradas científicas e outras não, ou sofreram uma releitura por homens brancos que se apoderaram desse conhecimento baseado no trabalho desenvolvido por quem foi colonizado. “O tratamento dado a essas mulheres ao longo da História foi de misoginia e, assim como o racismo, são frutos da colonização”, afirmou.

No segundo dia do curso, a professora apresentou algumas propostas de ensino da Química que estimulassem o debate social. Um deles foi o de uma aluna de graduação voltado para cabelos crespos e cacheados e que isso ilustra a importância do papel do profissional da Química no processo de desconstrução da colonização.

A proposta questiona sobre os diferentes tipos de cabelo, os fatos sociais e históricos; as relações socioculturais; apresenta os aspectos tecnológicos nos alisamentos no passar dos anos; inserção do conteúdo químico; e retomada da discussão social.

“Hoje nós vemos uma valorização da questão étnica que é tão importante para as mulheres, mas nem sempre foi assim. Isso não é somente uma questão social, mas também da Química. e
Entender a composição do cabelo, quais as substâncias que são produzidas pela indústria para modificar os cachos, como isso interfere na sociedade e em como a gente se vê”, disse.

Segundo Márcia, é grande a pressão para que as meninas e mulheres sigam determinados modelos e padrões. “A proposta é dar oportunidade a essas meninas de entenderem todo esse processo. Que elas não se sintam pressionadas a seguirem nenhum tipo de padrão, mas que também tenham conhecimento científico sobre o assunto”, explicou.

A professora explicou que o papel do profissional da Química nesse universo é também de aprendizado e de responsabilidade. “No exemplo dos cabelos crespos e cacheados, a indústria Química pesquisou e hoje oferece produtos que atendem essa parcela da população. O aprendizado é diário. É preciso decolonizar o ensino de Ciências. Hoje em dia o profissional não pode ser aquele que aprende somente as fórmulas Químicas, mas deve participar do debate no aspecto social, nas interferências tecnológicas envolvidas, e também por ser uma questão de mercado. O Profissional da Química não pode dissociar a Ciência das necessidades da sociedade”.

E essa mudança, segundo Márcia, vem ocorrendo mesmo aos poucos. “Já vemos mudanças nos livros didáticos, na legislação, na formação do professor para que seja um profissional melhor preparado para esse debate. Decolonizar o pensamento é perceber que temos valores, conhecimento e isso tem que ser usado em prol da melhoria do nosso país, da nossa ciência, da nossa produção tecnológica, ou sempre seremos um país de terceiro mundo”.