Cobbind 2026 mostra como a Química e a biotecnologia transformam conhecimento em soluções para a indústria
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Com participação do CFQ, congresso reuniu cerca de 1,2 mil estudantes, pesquisadores e profissionais e discutiu aplicações da biotecnologia em áreas como sustentabilidade, indústria e tratamento de resíduos

Transformar resíduos em produtos, desenvolver processos menos agressivos ao meio ambiente e criar novas alternativas para setores como alimentos, combustíveis e saúde são alguns dos desafios que aproximam a Química da biotecnologia. Essa integração esteve entre os temas do II Congresso Brasileiro de Biotecnologia Industrial (COBBIND), realizado de 16 a 19 de agosto, em Campos do Jordão (SP).
Representando o Conselho Federal de Química (CFQ) no evento, o 1º secretário Jonas Comin destacou que a Química está presente em diferentes etapas da cadeia da biotecnologia. O conhecimento sobre as reações químicas envolvidas nos organismos, segundo ele, permite desenvolver biomoléculas, enzimas e microrganismos para aplicações de interesse da sociedade, além de contribuir para o desenvolvimento e o controle de processos industriais. “Entender a química envolvida na biotecnologia é fundamental para a inovação e a sustentabilidade em várias indústrias”, afirmou.
Essa atuação também se estende ao tratamento e o aproveitamento de resíduos. No caso de água e efluentes, por exemplo, é necessário conhecer as características dos resíduos, definir o tratamento adequado e acompanhar os resultados antes que o material tratado possa ser devolvido ao meio ambiente. Profissionais da Química podem atuar em diferentes etapas desse processo, contribuindo para que o tratamento seja realizado com segurança e eficiência.
O conhecimento científico também pode ajudar a indústria a ampliar o aproveitamento de materiais e reduzir a quantidade de resíduos que precisa ser descartada. Para Jonas, a biotecnologia abre espaço para que diferentes conhecimentos sejam utilizados na busca por soluções mais sustentáveis.
“A atuação dos profissionais da Química na biotecnologia, trazendo conhecimento científico, faz com que a gente possa reutilizar os resíduos o máximo possível e realmente seja descartado somente aquilo que é rejeito.”
A biotecnologia ambiental, uma das áreas oficiais do congresso, reuniu justamente temas relacionados a esse desafio, como tratamento e valorização de resíduos sólidos, líquidos e gasosos, recuperação de nutrientes, biorremediação e biomonitoramento.
A participação do CFQ no Cobbind também abordou iniciativas voltadas à formação e à inserção dos profissionais da Química no ambiente científico e tecnológico. Durante o evento, Jonas apresentou ações do Sistema CFQ/CRQs, como a parceria com a ABNT e o retorno do Sistema à IUPAC, a União Internacional de Química Pura e Aplicada.
O convênio com a ABNT permite aos profissionais da Química regularmente registrados acesso a normas técnicas e a descontos em cursos da entidade. Já a participação na IUPAC amplia a possibilidade de inserção da Química brasileira em comissões técnicas, grupos de trabalho, publicações e projetos internacionais.
Para Jonas, essas iniciativas estão relacionadas a um mesmo objetivo: “Valorizar os profissionais da área da Química é investir em soluções mais eficientes, seguras e sustentáveis para a sociedade.”
Biotecnologia na prática
A relação entre conhecimento científico, inovação e sustentabilidade também esteve presente nos diferentes conteúdos apresentados durante o congresso. O evento reuniu cerca de 1,2 mil participantes, entre estudantes, pesquisadores e profissionais de diferentes áreas, e teve mais de 1.000 trabalhos aprovados.
A programação abordou temas como enzimologia, microbiologia, sustentabilidade, economia circular, bioquímica, biologia molecular e engenharia de bioprocessos e bioprodutos. Também foram discutidos temas como bioeconomia, biorrefinarias e biotecnologia ambiental.
Para a presidente do Cobbind 2026, Rosana Goldbeck Coelho, a segunda edição do congresso consolidou a proposta de reunir eventos que antes aconteciam separadamente e aproximar diferentes setores ligados à biotecnologia. “A junção deles foi muito importante. O nosso grande ganho nesses congressos é o network, é a nossa conectividade, é aproximar os diferentes setores.”
Segundo Rosana, a integração entre diferentes áreas permite transformar resíduos e matérias-primas em produtos de interesse industrial. “A gente está aqui para transformar os resíduos em produtos, em bioprodutos, usar a engenharia e os conhecimentos da química, da bioquímica, da microbiologia e transformar eles em produtos industriais.”
Um dos exemplos citados por Rosana é o bioetanol de segunda geração, produzido a partir de resíduos e materiais lignocelulósicos. Segundo ela, uma tecnologia que ainda estava em desenvolvimento quando concluiu seu doutorado passou a contar, poucos anos depois, com plantas industriais no Brasil.
Na área de alimentos, ela também destaca o avanço de proteínas alternativas, microproteínas e processos de fermentação de precisão. A mesma tecnologia pode ser aplicada à produção de moléculas de interesse para diferentes setores, incluindo alimentos e fármacos. “A biotecnologia é muito multidisciplinar”, resume.
A aplicação prática do conhecimento científico também foi destacada por Maria Isabel Rodrigues, engenheira de alimentos e autora do livro Planejamento de Experimentos na Prática. A publicação reúne casos de diferentes áreas de aplicação e busca mostrar como metodologias científicas podem ser utilizadas na resolução de problemas concretos.
“Depois desses 21 anos trabalhando com diversos tipos de empresas, eu via a necessidade de deixar esse legado. Então eu escolho casos bem diferentes, bem práticos, em diversas áreas de aplicações. O livro é dividido por área de aplicações, onde as pessoas, independentemente da área em que atuam, possam ler o caso e fazer a analogia para o caso delas”, explicou.
Para Maria Isabel, o uso de ferramentas científicas também está relacionado à responsabilidade dos profissionais diante dos desafios ambientais.
“Para os químicos e para todas as outras profissões, essa ferramenta é fundamental nos dias de hoje, em que a gente quer ver um mundo mais sustentável. Nós, como cientistas, eu acho que temos o dever, a responsabilidade de usar a ciência a nosso favor e usar as metodologias que mais vão nos ajudar a preservar o planeta.”
Conexão entre academia, indústria e profissionais
A aproximação entre diferentes formações foi outro destaque do Cobbind 2026. Para Édler Lins de Albuquerque, diretor vice-presidente da Associação Brasileira de Engenharia Química (ABEQ), o evento possibilitou a interlocução entre profissionais da Engenharia Química, alimentos, Química, Biologia e Biotecnologia.
“É muito gratificante a gente ter a presença de muitos profissionais e poder estar ajudando nessa interlocução, nessa conversa entre diversas áreas.”
Já Márcio Martins, diretor-presidente da ABEQ, ressaltou o caráter multidisciplinar do congresso e a relação da biotecnologia com temas como transição energética, bioeconomia e economia circular.
Para ele, a parceria com o CFQ pode avançar em diferentes frentes, incluindo o acesso a normas e a qualificação profissional. O dirigente também destacou a importância de aproximar as diferentes linguagens profissionais e científicas que convivem na biotecnologia.
O congresso contou ainda com o lançamento do Dicionário de Biotecnologia Industrial e Bioprocessos, iniciativa que contribui justamente para essa aproximação. Na avaliação de Martins, a padronização da nomenclatura ajuda profissionais de diferentes áreas, como Química, Biologia e Engenharia Química, a “falar a mesma língua”.
Formação e novas oportunidades
Para além das tecnologias apresentadas, o congresso também funcionou como espaço de formação e conexão para estudantes e jovens pesquisadores. A programação reuniu apresentações orais e pôsteres e contou com mais de 1.000 trabalhos aprovados, ampliando o espaço para divulgação da produção científica. Rosana destacou que aproximar os estudantes da academia, da indústria e das entidades profissionais é um dos ganhos do congresso.
A segunda edição do Cobbind mostrou, assim, que a biotecnologia industrial não se limita a uma área específica do conhecimento. Ao aproximar Química, Engenharia, Biologia, pesquisa e indústria, o congresso reforçou um caminho para transformar ciência em tecnologia, resíduos em novos produtos e conhecimento em soluções para desafios concretos da sociedade.