XXI ENEQ: Presença de diferentes vozes e representantes em espaços é caminho certo para democratização do ensino

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“Ser eu mesma está impactando uma pessoa em outro estado sem que eu faça nenhum esforço”. Essa foi uma das primeiras falas da professora doutora Alice Pagan, da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), em mesa redonda durante o XXI Encontro Nacional do Ensino de Química (ENEQ). O evento foi realizado entre os dias 1º e 3 de março, na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), e contou com a participação do Conselho Federal de Química (CFQ).

A mesa redonda, anunciada com o tema “Democratização no Ensino de Química: para que, para quem e como?”, contou ainda com a participação da professora doutora Bárbara Pinheiro, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), da professora doutora Maria Inês Petrucci Rosa (Unicamp) e mediação do professor doutor Paulo Vitor Teodoro, da UFU.

O momento foi voltado à discussão de representatividades e democratização no ensino da Química e de outras áreas, com relatos de professores sobre suas histórias pessoais e alguns exemplos de superação, além do impacto que isso causa no cenário em que atuam.

Alice Pagan avaliou sua trajetória na Ciência não só com suas contribuições acadêmicas, mas pelo que sua identidade como transgênero representa.

“A educação tem sido um espaço transformador de vidas de pessoas trans. Vejo relatos de homens e mulheres trans, pessoas não-binárias que têm descoberto a si próprias no espaço educacional como pessoas de direito e de dignidade. Quando nossas vozes ganham espaço para ecoarem, transformamos um corpo social, e não só nosso corpo pessoal. Queremos espaços e corpos que contemplem essa diversidade”, refletiu.

A professora também afirmou que o espaço do ensino da Química pode ser considerado muito mais democrático do que os mesmos espaços da Química enquanto Ciência. “Aqui no espaço acadêmico, podemos ter uma preocupação maior com os alunos que aprendem essa Ciência, e essa diversidade humana faz com que vejamos o mundo de maneira mais diversa”, concluiu Pagan.

O debate deu seguimento com fala de Bárbara Pinheiro, que possui extenso currículo na pesquisa e no ensino da Química, e hoje acredita que a Ciência e a educação científica são importantes espaços de poder dentro da sociedade.

“Nossa sociedade, infelizmente, é estruturada de sistemas de opressão. As opressões de gênero gesticulam intersexualmente com aquelas de raça, de sexualidade, e tudo isso atravessado no nosso processo constitutivo. Avalio o ENEQ, que é um evento de potencialização da Ciência, mas também vias de socialização dessa nos espaços escolares, como um espaço muito importante para olharmos para mulheres como figuras fundamentais no processo de produção e socialização da Ciência, para que possamos humanizar mais ainda. Assim mostramos que a Ciência não é feita de uma ótica androcêntrica, racista, patriarcal, e que ela é plural. Todas e quaisquer pessoas podem ingressar na carreira científica”, avaliou sobre sua participação.

Bárbara publicou diversos artigos e livros durante sua carreira, e alguns deles, como ela contou durante palestra, foram dedicados a refletir sobre o racismo no contexto da história humana na Ciência.

“Pensar na participação de pessoas negras no desenvolvimento científico é importante para fazermos um deslocamento de uma centralidade da noção de humano que o ocidente produziu, desumanizando corpos que não eram semelhantes àqueles que a Ciência, dentro de uma noção eurocentrada, produziu”, disse Bárbara.

Ela ainda continuou avaliando um deslocamento da linha do tempo da história da Ciência. “Não faz sentido acreditarmos que existimos, e que desaparecemos no mundo para voltarmos no século XVI como escravos. Pessoas negras também produziram Ciência pioneiramente, como a Química, Matemática, Medicina e muitos outros conhecimentos que foram incorporados nos círculos culturais diversos da humanidade, e que são retroalimentados por nossas produções. Não queremos uma parte na Ciência, e sim reconhecimento da nossa participação em um lugar que é nosso de origem”, finalizou.