Semana do Profissional da Química: especialistas debatem a dependência no setor de fertilizantes
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Nesta segunda-feira (20) teve início a Semana do Profissional da Química com painéis com temas atuais e com grande repercussão nacional e internacional. O primeiro painel foi sobre o setor de fertilizantes.
Recentemente, a guerra na Ucrânia colocou em discussão nacional esse tema, bem como, a dependência do Brasil da importação de produtos que, antigamente, eram feitos no País.
Para abordar o assunto, assim como o papel desempenhado pelo profissional da Química nesta área, o CFQ convidou o professor Gil Anderi da Silva, graduado em Engenharia Química pela Escola Politécnica da USP (1964), doutorado em Engenharia Química pela EPUSP (1972) e pós-doutorado pelo Georgia Institute of Technology/EUA (1981); e Ciro Marino, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) e membro do Fórum Nacional da Indústria – FNI. A mediação do evento ficou a cargo da conselheira federal Fátima de Lippo.
Com experiência em Processos Inorgânicos (Tecnologia de Fertilizantes) e criador do Centro de Estudos de Fertilizantes (CEFER), o professor Gil fez, primeiramente, uma contextualização sobre o cenário mundial do setor de fertilizantes e a segurança alimentar que, segundo ele, está sendo afetada em nível global.
“O termo agronegócio foi criado há 50 anos e engloba um conjunto de cadeias produtivas do segmento econômico da agropecuária. São três segmentos: antes da porteira (máquinas e implementos agrícolas, fertilizantes e defensivos), dentro da porteira (atividades agropecuárias) e depois da porteira (distribuição e bens de consumo)”, lembrou o engenheiro químico.
De acordo com o professor Gil Anderi, em 2019 o agronegócio foi responsável por 21% do PIB nacional. “Neste contexto, o fertilizante ocupa papel de destaque. Ele é chamado de alimentos das plantas, fornecendo as necessidades para o desenvolvimento das plantas. Elas bebem fertilizantes”, acrescentou.
Os fertilizantes contêm nutrientes para aumentar a produtividade no campo. E segundo as legislações, elas podem ser substâncias minerais, orgânicas naturais ou sintéticas. “Existem 16 elementos químicos para o desenvolvimento das plantas, sendo os principais o carbono, o hidrogênio e o oxigênio”, afirmou Gil.
Há os macronutrientes: nitrogênio, fósforo e potássio. E os secundários: cálcio, magnésio e o enxofre. E os micronutrientes, utilizados em quantidades pequenas: bório, cloro, cobre, ferro, manganês, molibdênio, zinco, cobalto e silício.
“O ar contém 80% do nitrogênio, mas tem um pequeno problema, ele está numa forma inerte, não reativa. O homem desenvolveu uma cadeia que começa na amônia para poder ter o nitrogênio.”
A indústria de fertilizantes se utiliza de derivados de petróleo ou gás natural para produzir o hidrogênio em reação com a amônia e que, posteriormente, será utilizado na lavoura.
A partir da amônia se obtém várias substâncias químicas para o campo como o nitrato de amônio e nitrocálcio, ureia, fosfato de monoamônio.
Conforme o professor, a rocha fosfática (concentrado fosfático) é outra fonte para obtenção do ácido fosfórico, que com a amônia vai dar origem ao fosfato de diamônio e o superfosfato triplo. Também com o enxofre se chega ao ácido sulfúrico, que será uma substância para a produção de fertilizantes.
“O Brasil não é favorecido nas rochas de potássio. Temos algumas jazidas no estado de Sergipe. A perspectiva de potássio no Brasil seria no estado do Amazonas, mas há dificuldades de extração na região.”
No encerramento da sua exposição, o professor Gil afirmou que o Brasil tem condições de superar a dependência externa, mas não acredita numa condição autossustentável. “Temos condições de superar com políticas públicas, investimentos, pesquisadores e químicos”, comentou.
Para o presidente-executivo da Abiquim, Ciro Marino, o Brasil desmontou, nas últimas décadas, as cadeias produtivas do setor químico, inclusive, no setor de fertilizantes. “Não temos gás natural e energia elétrica competitivas para suprir a produção local. Os impostos também são impeditivos”, justificou.
Para o executivo que atua no setor químico há mais de 34 anos e exerceu posições de liderança em diversas empresas, praticamente em todo o mundo, o setor químico recebe incentivos fiscais dos governos. “Nos Estados Unidos, isso significa algo em torno de US$ 4,6 bilhões.”
Ciro disse que espera a sensibilidade do governo para que o País volte a ter uma produção compatível com a demanda interna e externa. “A Europa já está repensando toda a situação energética.”
Marino apontou um cenário que vem da China, em que, segundo ele, está com a classe média em franco desenvolvimento e alto consumo, o que implica cada vez mais na produção de alimentos.
Assista ao painel completo em https://www.youtube.com/watch?v=gTuVIywvYZA
Hoje (21), a partir das 19 horas (horário de Brasília), o painel será sobre os insumos farmacêuticos, compostos tão importantes na fabricação de medicamentos. Assista em https://www.youtube.com/watch?v=YZF310xFcNU .