Fórum: Futuro dos Combustíveis no Brasil e no Mundo

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O Conselho Regional de Química da 4ª Região (CRQ-IV), por meio da Comissão Técnica de Energia, promoveu no dia 27 deste mês, o fórum “Futuro dos Combustíveis no Brasil e no Mundo”. O encontro online abordou diversos assuntos da atualidade e contou com a visão de especialistas do setor para aprimorar a discussão.

O técnico em Química, Gestão Ambiental e especialista em Petróleo e Gás e integrante da Comissão Técnica de Energia e Comissão Técnica de Serviços de Laboratório do CRQ-IV, Maurício Cardoso Alves, apresentou uma síntese da história do petróleo e a importância da matriz energética no Brasil e no mundo.

O petróleo é uma mistura de hidrocarbonetos, de ocorrência natural, geralmente no estado líquido, contendo compostos de enxofre, nitrogênio, oxigênio, metais e outros elementos. “O petróleo recebeu esse nome (em latim: petra+oleum) devido às aflorações em rochas”, comentou.

Maurício explicou que tanto a composição química quanto a aparência do petróleo podem variar muito. Seu aspecto pode ser viscoso, com tonalidades desde o castanho-escuro até o preto, passando pelo verde. “Quando muito escuros, viscosos e densos, possuem grandes proporções de derivados pesados como o asfalto. Já quando ocorre com óleos de baixa densidade, apresentam um alto potencial de produção de derivados de combustíveis leves, como a gasolina”, acrescentou Maurício Cardoso. 

História

Povos da Babilônia, Fenícia, Egito, Grécia e Roma já registravam o uso do petróleo. No Novo Mundo, o petróleo era conhecido pelos índios pré-colombianos que o utilizavam para decorar e impermeabilizar seus potes de cerâmica, assim como os incas e os maias. O petróleo era retirado de exsudações naturais encontradas em todos os continentes.

Em 1859, foi iniciada a exploração comercial nos Estados Unidos. A destilação do petróleo substituiu o querosene, obtido a partir do carvão e o óleo de baleia, utilizados para a iluminação. 

“O petróleo já foi utilizado pela indústria farmacêutica. Talvez seja de conhecimento de poucos, mas foi utilizado como tônico cardíaco e remédio para cálculos renais e combater câimbras”, pontuou Cardoso. 

No Brasil, as primeiras pesquisas diretamente relacionadas ao petróleo ocorreram em Alagoas, no ano de 1891, em função da existência de sedimentos argilosos betuminosos no litoral. 

O primeiro poço brasileiro, perfurado para encontrar petróleo, aconteceu em 1897 na cidade de Bofete, no estado de São Paulo.

Cardoso contou que os primeiros automóveis chegaram no Brasil logo no início do século XX e a distribuição de petróleo teve início em 1912, com a chegada da americana Standard Oil. O produto era comercializado em latas de 20 litros. 

“A década de 1930 viveu alguns avanços da indústria do petróleo, com a fundação da Companhia Brasileira de Petróleo, pelo escritor Monteiro Lobato. E em 1938, a criação do Conselho Nacional do Petróleo”, afirmou o especialista.

A partir de 1953, no governo do presidente Getúlio Vargas, foi instituído o monopólio estatal do petróleo com a criação da Petrobras, e que deu partida decisiva nas pesquisas do petróleo brasileiro.

“Atualmente, o parque de refino no Brasil é formado por 18 refinarias, com capacidade total de produção de 2,41 milhões de barris por dia de derivados. Dessas, 13 são de propriedade da Petrobras e cinco são de controle privado.”

Porém, Cardoso ponderou que a produção de derivados caiu nos últimos nove anos para cerca de 30%.

“Não podemos deixar de considerar a grande importância e contribuição do petróleo como matriz energética. E ainda é matéria-prima essencial para a continuidade e a manutenção do desenvolvimento da vida em sociedade e na produção industrial”, refletiu o técnico em Química.

Novas tecnologias

A engenheira química Suani Coelho apresentou a situação atual das tecnologias mais avançadas no setor de biocombustíveis como hidrogênio verde, biogás e biometano, bioenergia, captura e estocagem de carbono (BECCS).

“O que caracteriza a bioenergia é que ela pode trabalhar com diferentes fontes, matérias-primas, recursos e tecnologias de conversão adequadas. Podemos trabalhar com biomassa florestal, bagaço de cana-de-açúcar, resíduos da agroindústria e urbanos”, garantiu Coelho, também professora dos programas de pós-graduação em Educação e Bioenergia da USP e pesquisadora no RCG2I (Research Center for Greenhouse Gas Innovation).

Segundo ela, os Estados Unidos lideram mundialmente a produção de biocombustíveis com uma fatia que chega a 36%. Em segundo lugar, o Brasil contribui com 26%, com a produção do etanol de cana-de-açúcar. 

“Junto com os biocombustíveis, temos a bioeconomia, que é o uso da biomassa para a produção de garrafas de água mineral e refrigerantes, plástico produzidos a partir da cana-de-açúcar. É uma área que merece mais atenção e pesquisas”, ressaltou.

No Brasil, o transporte rodoviário participa com 26% na utilização dos biocombustíveis. E o setor sucroenergético brasileiro reserva 10 milhões de hectares para a produção de açúcar, etanol, geração de energia elétrica e, mais recentemente, o biogás. 

“Para incentivar ainda mais os biocombustíveis e permitir que o Brasil atinja suas metas definidas no Acordo de Paris, foi aprovado, em 2017, a Lei RenovaBio, que é o programa de comercialização de créditos de carbono”, declarou a pesquisadora. 

Segundo a engenheira química, já há um interesse do Brasil por essas novas tecnologias, principalmente, captura de carbono e estocagem, células de combustível a etanol, hidrogênio para o transporte marítimo, entre outras.

Cenário atual brasileiro

Por último, o engenheiro químico Mauricio Mascolo, especialista em óleo e gás, falou sobre o refino brasileiro atual; o balanço econômico do setor; o papel das refinarias privadas; e a produção de combustíveis alternativos. 

Atualmente, o Brasil é o 8º maior produtor de petróleo e condensado, o 9º país com a maior capacidade instalada de refino, o 7º maior consumidor de derivados e, também, o 7º maior exportador de petróleo. 

Portanto, para Mascolo, o país é importante e vital para o mercado mundial. “O refino brasileiro está estagnado há muitos anos, mas o Brasil é autossuficiente na extração. O reflexo disso é que 26% do diesel, 8,4% da gasolina A, 30% do GLP e 8,5% do querosene de aviação são importados”, afirmou.

Nos projetos nacionais, na área de óleo e gás, 80% estão atrasados e 62% têm sobrecustos, em uma análise de 136 projetos nos últimos 12 anos. “O Brasil é um país continental e necessita de unidades ao longo do seu território, visto que há sensível falta de infraestrutura logística, terminais, estradas e gasodutos. A região Centro-Oeste, por exemplo, não possui nenhuma refinaria e sua dimensão territorial é maior que muitos países europeus”, argumentou.

Para encerrar, o consultor afirmou que as pequenas refinarias podem ser uma boa alternativa para processos de reciclagem e fonte de geração de emprego e renda. 

Assista o debate em https://www.youtube.com/watch?v=bjgCSeDbP9Q&t=6609s