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Sistema CFQ/CRQs apresenta a atuação dos profissionais da Química na área ambiental

“A poluição é um desperdício de matéria-prima e insumos”. Esta é uma visão moderna do conceito de poluição, segundo a engenheira química e conselheira do Conselho Regional de Química da 2ª Região (CRQ II) Ana Luiza Dolabela de Amorim Mazzini, uma das painelistas do quarto dia da Semana dos Profissionais da Química. 

O ciclo de painéis digitais foi realizado pelo Sistema CFQ/CRQs em comemoração aos 65 anos da Lei nº 2.800. A mediação do painel “Importância dos profissionais da Química na área ambiental” ficou a cargo do presidente do Conselho Regional de Química da 21ª Região (CRQ XXI), Alexandre Vaz Castro. 

Ana Luiza apresentou o conceito da “Produção Mais Limpa” (P+L) e abordou a atuação do profissional da Química na área ambiental de forma a prevenir a poluição na empresa, com foco nos processos e produtos, visando otimizar o emprego de matérias-primas, de modo a não gerar, ou minimizar a geração de resíduos, reduzindo os riscos ambientais e trazendo benefícios econômicos para a empresa. 

Com um currículo que inclui a docência e o título de especialista em Energia e Fontes Alternativas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e de Avaliação de Impactos Ambientais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, a palestrante destacou que a “Produção Mais Limpa” é uma ferramenta preventiva e de sustentabilidade nos processos físico-químicos e biológicos que visa eliminar ou reduzir a poluição durante o processo de produção – e não somente no final. 

Para ela, a partir de pequenas ações será possível garantir uma rota bem mais limpa ao processo, permitindo, inclusive, a diminuição de custos. No emprego da Produção mais Limpa, a ação mais cara é a implantação de novas tecnologias.

Segundo a painelista, os profissionais da Química têm um papel decisivo na implantação da P+L, que é uma oportunidade de conciliação da proteção ambiental com o desenvolvimento econômico. “A poluição é a demonstração da ineficiência dos processos produtivos”, afirmou.

Ana Luiza também lembra que devem ser adotados princípios de precaução e prevenção, integração e controle dos processos, além da responsabilidade continuada do produtor.

A “Produção Mais Limpa”, segundo exposto no painel, tem como objetivo perseguir ações que visem a redução e reuso da água, além da utilização de energia renovável com eficiência energética e de ações que contemplem inovação tecnológica, competitividade, sustentabilidade econômica, social e ambiental. 

Na opinião da especialista, o profissional da Química deve se perguntar: “de onde vêm as emissões e os resíduos? Por que foram gerados? Como eliminá-los ou reduzi-los?”.

Esse profissional que pretende ou já atua na área ambiental deve estar atento à substituição de matérias-primas tóxicas, à modernização de processos industriais, entre outros assuntos. Essas medidas podem gerar resultados positivos na melhoria da produtividade, assim como podem ser minimizados os riscos à saúde do trabalhador, ao meio ambiente e à imagem da empresa. 

A segunda palestrante do painel foi a química e doutora em Ecologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul Daniela Migliavacca Osório, que abordou o tema “Como a Química pode auxiliar na poluição atmosférica”.

Apaixonada pelo assunto, ela salientou que a poluição atmosférica não respeita as fronteiras entre os países, e que 7 milhões de pessoas morrem por ano por causa da poluição do ar, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Conforme a profissional, os principais poluentes atmosféricos são o dióxido de enxofre, que provém das emissões veiculares e da queima de combustíveis; o nitrogênio, na forma de óxidos; ozônio; e o material particulado (poeira inalável).

Mas há também os poluentes naturais e que o homem não pode controlar. Como exemplo, ela citou as tempestades de areia, a polinização (transferência de grãos de pólen em culturas agrícolas), os aerossóis marinhos e as erupções vulcânicas. “Você encontra a poeira do Saara na Amazônia”, destacou. 

Ela contou que, na década de 1980, houve um esforço muito grande para diminuir a concentração de dióxido de enxofre na atmosfera, que provoca a chamada chuva ácida. Segundo Daniela, a maior concentração de gases poluidores está nos Estados Unidos – oriundas de termelétricas -, na Ásia e em erupções vulcânicas. 

Já a combustão de combustíveis fósseis impactou muito a camada de ozônio. Porém, ele é considerado um poluente quando fica na troposfera. 

Em um trabalho recente de mestrado, a professora e sua orientanda analisaram hidrocarbonetos policíclicos aromáticos, estruturas orgânicas de benzeno com mais de três anéis aromáticos, que podem ser tóxicos e cancerígenos. Em outro estudo realizado na região de Candiota, no Rio Grande do Sul, ela avaliou a água da chuva e verificou nas coletas a presença de amônia. A pesquisa revelou que a amônia era oriunda dos excrementos de animais no campo.

“Os profissionais da Química têm esse papel de pensar e analisar as matrizes do ar. Os químicos possuem uma inserção muito forte na área ambiental”, finalizou a pesquisadora. 

Questionamentos

Respondendo ao mediador do painel, Alexandre Vaz, sobre a atuação do químico na área ambiental, Ana Luiza falou que o profissional guarda uma experiência muito grande com as análises, uma expertise na detecção de toxicidade de produtos e insumos. “Ele tem um potencial muito grande para estabelecer novas rotas tecnológicas”, acrescentou. 

Ana Luiza também considera a implantação da Política Nacional de Resíduos Sólidos um grande avanço. “Mas, infelizmente, com a aproximação do prazo final para os municípios se adequarem, percebemos uma mobilização para o afrouxamento das regras”, avaliou. 

Questionada por um participante, Daniela disse que a compensação de carbono deve contemplar várias matrizes e deve haver uma investigação para cada caso, pois o gás compõem a natureza. 

Antes do encerramento do painel, o mediador reforçou que o tema ambiental “afeta a todos nós, principalmente quem vive nas grandes cidades”. “A Química pode e deve ajudar no enfrentamento dessa questão da qualidade do ar”.