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Semana dos Profissionais da Química inicia com debate sobre o ensino

O cenário do ensino em Química, desde o ensino básico até a formação universitária, foi o tema escolhido para abrir a Semana dos Profissionais da Química, uma iniciativa do Sistema CFQ/CRQs.

A ação é uma promoção do Sistema CFQ/CRQs, em homenagem à Lei nº 2.800/56 – responsável pela criação do Sistema e da profissão, dando origem à celebração do Dia do Químico que, neste ano, comemora 65 anos.

O painel Importância dos profissionais da Química no ensino da Química”, realizado na segunda-feira (14), teve como mediadora a presidente do Conselho Regional de Química da 16ª Região (CRQ XVI), Suzana Aparecida da Silva, e como palestrantes o conselheiro do CRQ V (RS) e diretor secretário da ABQ/RS, Leandro Rosa Camacho, e o Prof. Dr. em Engenharia Química e Conselheiro Suplente do CFQ Marcos Roberto Teixeira Halasz.

Leandro Camacho, que também é professor do ensino médio, foi o primeiro a falar. Durante a sua apresentação, ele reforçou a importância dos professores de Química nos anos iniciais, nos níveis fundamental e médio, período em que o educador pode estimular e incutir a formação de novos químicos.

Para contextualizar seu argumento, propôs uma dinâmica que construiu uma nuvem de palavras referentes às lembranças dos participantes sobre a escola, com destaque para palavras como “inspiradora”.

 

Mas, mesmo que o exercício tenha levado a constatações positivas, ele também evidenciou falhas que podem ser provenientes de dados não muito atrativos ao cenário da educação, entre eles o fato de que, de acordo com o INEP/MEC, em torno de 63,3% dos professores possuem formação específica na área em que lecionam.

Como está a formação do professor do ensino fundamental e médio no Brasil hoje? Às vezes, não temos noção da problemática do ensino no país. No site INEP, pelo Censo Escolar de 2019, temos 63,3% (média nacional) com formação adequada, ou seja, com graduação e licenciatura na disciplina que ensinam aos alunos. Se vocês esperavam encontrar 100% dos professores com a graduação em licenciatura na sua área de atuação, se enganaram! 25% dos professores que estão no ensino básico têm licenciatura em uma área diferente das que ensinam. Não que o professor não tenha qualificação, mas se tenho uma disciplina tão complexa quanto à Química, ela deve ser ensinada por quem tenha formação adequada”, completou.

O professor ainda explicou que, de acordo com o Ministério da Educação e a Lei de Diretrizes Bases (LDB), a disciplina de Química deveria ser ensinada por profissionais com formação específica.

Para fechar sua fala, Camacho lembrou da importância de fazer parte do Sistema CFQ/CRQs, narrando a história da Associação Brasileira de Química no Rio Grande do Sul, quando um colegiado de professores se uniu em defesa da categoria. Segundo ele, no momento em que há união e participação no Conselho, a profissão cresce e todos ganham.

O segundo palestrante da noite foi o professor doutor em Engenharia Química Marcos Roberto Teixeira Halasz que também é avaliador institucional do INEP/MEC. Novamente dados estatísticos referentes à educação brasileira foram apresentados, dessa vez com enfoque ao nível superior e a relação entre a oferta de vagas, números de concluintes e evasão.

De acordo com Halasz, um dado bastante interessante surgiu com a propagação do ensino a distância. Segundo ele, enquanto os cursos presenciais apresentam limite de vagas, geralmente da ordem de dezenas, os cursos virtuais oferecem centenas de vagas por turma. Essa discrepância tem incidido em um número muito grande de vagas ociosas. “Óbvio que essas vagas não serão preenchidas. Ficaremos com esse gap bem grande”.

Para Halasz, também merece consideração a perspectiva do cenário econômico brasileiro, que evidencia oscilações no número de ingressantes em cursos de graduação. 

Ele apontou, por exemplo, para a situação dos cursos de Engenharia Química que, atualmente, têm apresentado menor procura, e consequentemente, diminuição de formandos. Em contraponto, os cursos de licenciatura em Química, impulsionados, em parte pelo EaD, registram estabilidade. 

O perfil das instituições de ensino também teve alterações nos últimos anos. Antes, os cursos eram majoritariamente ofertados por universidades de pequeno porte e, agora, são disponibilizados por grandes grupos educacionais.

Halasz falou ainda sobre a educação básica, levando em consideração dados extraídos no Censo Escolar 2020. Segundo ele, no ensino médio, 92% dos professores são licenciados. Outro ponto relevante refere-se à forma de contratação na rede pública, que apresenta, atualmente, um elevado número de temporários. “Existe a possibilidade de ter mais vagas abertas na rede pública para profissionais capacitados, principalmente na área de Química”, ressaltou.

O professor Marcos Halasz, que também foi vice-presidente do Conselho Regional de Química da 21ª Região (CRQ XXI), também ressaltou a respeito de seu estado.  “Temos hoje, no Espírito Santo, 77 municípios. Temos apenas 21 municípios com licenciados químicos. Se eu tenho escolas em todos os municípios, como vamos dar conta? Outro dado relevante é que 23 municípios não têm sequer um profissional da área da Química”, ponderou, ainda em referência ao potencial do mercado e também em relação à qualidade do ensino.

As repercussões do ensino a distância também permearam as falas dos painelistas. Camacho ponderou sobre a importância da tecnologia, até mesmo com perspectivas futuras do que teria pela frente. 

Ele relatou ainda que a imersão dos professores do ensino básico foi abrupta, de uma hora para outra, fazendo com a forma ensino precisasse ser repensada, para que fosse possível alcançar o objetivo final, ou seja, o de ensinar Química aos alunos. “A pandemia trouxe muitas conquistas para o ensino. Uma delas é demonstrar que o professor e a professora são fundamentais para a qualidade do ensino no nosso país”, completou.

Para encerrar a noite, os palestrantes responderam algumas perguntas, entre elas, a importância de ter registro profissional no CRQ, ao que Camacho enfatizou: “Um profissional registrado no CRQ existe para os seus pares”.

Por fim, para encerrar, Suzana reforçou que a noite foi inspiradora. “Os senhores trouxeram temas e dados para uma discussão muito relevante, e também para uma reflexão imprescindível e urgente. Se eu não tivesse feito Química, depois dessas palestras, eu faria.”

Assista o painel em: https://www.youtube.com/watch?v=1cEVD4xXOZw