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Químico cria método que simplifica monitoramento de remédios no organismo

Um novo método promete simplificar o processo que detecta a presença e determina a concentração de medicamentos no organismo de uma pessoa. A técnica foi desenvolvida por Edvaldo Vasconcelos, doutorando pelo Instituto de Química de São Carlos (IQSC) da USP. Além de ser mais rápido e barato, o método exige uma quantidade menor de amostras de urina, sangue ou saliva de alguém que precisa ser submetido a exames médicos.

A observação de Vasconcelos partiu de problemas psicológicos e transtornos mentais, algo que, atualmente, tem grande incidência na sociedade.  Assim, surgiu a ideia de abordar o tema, que se deu por meio da análise de medicamentos para depressão e ansiedade, só que utilizando um método mais simples.

O doutorando explica que a análise de medicamentos em urina e em outras matrizes, como saliva e sangue, já é aplicada na indústria farmacêutica, seja com medicamentos disponíveis para comercialização ou com os que ainda estão em desenvolvimento. Mas, na quase totalidade das vezes, os métodos são baseados em cromatografia líquida em escala convencional. De acordo com ele,  o que é aplicado atualmente pode ser considerado mais tradicional, um tipo de cromatografia que é utilizada há muito tempo pela indústria e por laboratórios de pesquisa, e que apresenta alguns pontos negativos.

“Dentro deste contexto de análise de medicamentos em urina, há um gasto de reagente, de solvente, necessidade de volume de amostra do paciente (sangue, urina) que podemos considerar alto. E qualquer tipo de análise para aplicação gera um resíduo, que precisa ser descartado em algum lugar. Isso acaba sendo prejudicial ao meio ambiente se não tiver o descarte adequado. E para isso tem o custo, porque precisa pagar uma empresa para fazer isso”, explica.

A técnica desenvolvida por Vasconcelos alia a necessidade de tratamentos psicoterapêuticos a alternativas mais sustentáveis, que também são financeiramente mais viáveis.  “A maioria das cromatografias líquidas são feitas com solventes na escala de mililitro. No final de um mês serão, aproximadamente,  5 litros de resíduo químico. Neste sentido é que propusemos a cromatografia líquida miniaturizada. O processo é o mesmo, mas como se fizesse uma redução para algo bem menor”.

Vasconcelos ressalta que não se trata de uma cromatografia nova, mas, sim, a utilização dos equipamentos já disponíveis em laboratório. O diferencial, no entanto, é a aplicação de um instrumento mais tecnológico, moderno e que ainda não está disponível no Brasil. “Justamente por ele não estar sendo usado no nosso país, eu acredito que o meu papel é fazer estudos para que, quando as pessoas tiverem a oportunidade de usar um equipamento destes, entendam e saibam que já estávamos trabalhando com isso”.

Crédito: Henrique Fontes – IQSC

Um segundo ponto do projeto é a redução do tempo de análise. Isso acontece porque qualquer análise cromatográfica necessita de uma etapa prévia, chamada “preparo da amostra”. Para isso, é usada uma amostra de urina com o intuito de analisar se a pessoa fez uso de algum antidepressivo, por exemplo. Esta urina não pode ser injetada diretamente no cromatógrafo, é preciso,  primeiro, filtrar a amostra. Um processo que, de acordo com ele,  é demorado e caro. “É necessário ter uma pessoa que fique o dia inteiro filtrando, centrifugando, usando sal, ácido e base, para no final do dia ter uma pequena amostra que possa ser inserida no equipamento”, explica.

A nova técnica, apresentada por Vasconcellos, reduziu essa primeira etapa em apenas uma. “Pegamos a urina do paciente, filtramos com uma seringa e já colocamos no equipamento para fazer a análise”. Isso ocorre por meio de uma coluna de cromatografia inventada pela equipe do pesquisador, feita de óxido de grafeno.

Essa descoberta é o que gera economia no processo. As análises realizadas com óxido de grafeno são feitas no laboratório, a partir do grafite, o que torna o custo da análise muito menor.

“A gente consegue fazer tudo isso em um espaço de tempo menor, requerendo menos solventes e amostras, e contribuindo em duas frentes diferentes: simplificamos a análise e geramos menos resíduos tóxicos. O que é bom do ponto vista financeiro e ambiental”, comemora.

O projeto está pronto e o método já foi validado. O procedimento pode ser um importante aliado dos profissionais da saúde no tratamento de pacientes acometidos por diversos tipos de doenças. Podendo, inclusive, ser utilizado em perícias nos casos de intoxicações por uso abusivo de fármacos, ou, até mesmo, em mortes por overdose.

Vasconcelos afirma não ter interesse em vender a técnica desenvolvida para empresas. Segundo ele, seu intuito é divulgar o método como uma ferramenta útil e moderna, disponível para aprimorar resultados no âmbito da Química Analítica. Ele se coloca à disposição para trocar experiências e informações com outros profissionais da área que se interessarem em adotar a técnica. “O meu primeiro objetivo é melhorar a Química Analítica como ferramenta para que possa auxiliar outros profissionais, inclusive médicos. Isso é usar a Ciência em prol da saúde e do conhecimento”.