Painel virtual do CFQ fala sobre ciência, diversidade e saberes ancestrais
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Com o tema “A Química como ponte entre ancestralidade, inovação e sustentabilidade”, evento on-line celebrou o Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha, incentivando a participação feminina na ciência
O Comitê da Mulher na Química (CMQ), do Conselho Federal de Química (CFQ) realizou, nesta segunda-feira (20) uma edição especial do programa “Falas da Química”. A live, transmitida pelo canal do CFQ no YouTube, integrou as comemorações do Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha, celebrado em 25 de julho, e trouxe para o centro do debate a interseção entre ciência, diversidade e sustentabilidade.
O encontro foi conduzido pela conselheira federal e coordenadora do CMQ, Andréa Piluski, e teve como convidada especial a química Andrea de Souza Moreira, CEO da Amoreira Treinamentos e coordenadora da Comissão Técnica de Serviços Laboratoriais do Conselho Regional de Química da 4ª Região (SP).
Para Piluski, “as contribuições das mulheres negras para a ciência, a tecnologia e o desenvolvimento sustentável precisam ser cada vez mais reconhecidas e valorizadas.” A data, dessa forma, convida à reflexão sobre igualdade de oportunidades e valorização da diversidade. “Nestes 70 anos do CFQ, é importante marcamos posição de que estes também devem ser pilares essenciais para o fortalecimento de nossa profissão”, destacou.

O valor dos saberes tradicionais e sua contribuição para soluções inovadoras diante dos desafios contemporâneos da indústria Química foram a base do conteúdo da live. Nesse sentido, a palestrante ressaltou que a diversidade de experiências e perspectivas fortalece a pesquisa científica e o desenvolvimento de novas tecnologias, criando pontes entre a ciência e as práticas ancestrais, sem perder o rigor técnico.
Com mais de 25 anos de experiência na área, Andrea Moreira compartilhou, além de sua trajetória, reflexões sobre como os conhecimentos tradicionais e científicos podem dialogar para construir um futuro mais sustentável e inclusivo. “Muitas dessas inovações, como a Química verde, que abordam temas como a redução de resíduos e o melhor aproveitamento dos recursos naturais, sempre fizeram parte dos conhecimentos ancestrais”, explicou a palestrante.
A desigualdade brasileira é algo que grita nas estatísticas. Em um país onde 54% da população se autodeclara preta ou parda, apenas 12,8% dos jovens negros chegam ao ensino superior. Nomes como os de Enedina Alves, primeira engenheira negra formada no Brasil, e de Anita Canavarro, fundadora do Grupo de Estudos sobre a Descolonização do Currículo de Ciências (Ciata), foram citados durante o debate como exemplos e fontes de inspiração para as novas gerações de mulheres negras.
“Por mais que tentem apagar, essa ancestralidade é algo muito importante para nós. Eu, por exemplo, tive o apoio dos meus pais, que sempre disseram que eu poderia ser e fazer o que quisesse. Mas, para me destacar, eu teria que ser muito boa, pois, para nós, tudo é mais difícil”, contou Moreira. “Também temos que saber que, mesmo gostando muito do que fazemos, teremos dias difíceis, mas, no final, vai valer a pena.”
Desafios e conquistas
O bate-papo abordou os avanços e os desafios relacionados à participação das mulheres negras na Química. Entre os temas discutidos, destacaram-se a necessidade de políticas de inclusão mais efetivas, a ampliação da divulgação científica desde a infância, o combate ao racismo estrutural nos ambientes acadêmico e corporativo, a adoção de políticas de permanência e projetos de mentoria e o incentivo à liderança de mulheres negras.
Ao final da transmissão, as apresentadoras responderam às perguntas enviadas pelo público, o que ampliou o diálogo sobre como a Química pode ser uma ferramenta para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Em um dos comentários, Maria de Fátima Nascimento falou sobre a importância de fortalecer a identidade e a confiança das meninas negras.
“Eu tenho duas sobrinhas negras e sempre me preocupei em incentivá-las a acreditar no próprio potencial e a entender que podem ocupar qualquer espaço que desejarem”, comentou. “Mas percebo que, ainda hoje, existe uma dificuldade na construção da identidade racial desde a infância. Minha sobrinha de sete anos, por exemplo, ainda não se reconhece como uma menina negra. Precisamos contribuir para fortalecer essa autopercepção e ajudar essa nova geração a crescer com maior consciência de sua identidade e de sua história.”