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O poder da Química: da arte ao crime

Conselheira do CRQ V contou em live como uma pesquisa sobre restauração de papéis criou um material utilizado na perícia criminal

Como a Química pode ir da arte ao crime? Esta foi a questão levantada por Elsa Nhuch, conselheira do Conselho Regional de Química da 5ª Região (CRQ V), durante uma live transmitida no Instagram, na noite de quinta-feira (8).

Nhuch, que também é diretora da Regional Sul da Associação Brasileira de Química (ABQRS), é pós-doutora em Análises Ambientais, doutora em Tecnologia de Alimentos e mestre em Química. Ela conta que tudo começou em 2017 em um seminário chamado Nanorestart, na Universidade de Florença, na Itália.

Segundo a pesquisadora, o papel que se utiliza hoje, feito a base de celulose, é muito diferente dos materiais da antiguidade (1500/1600). “O papel que conhecemos se degrada muito mais rapidamente que os papéis antigos que eles chamam de trapo de algodão ou que os papiros, por exemplo. Isso porque o pH do material feito com celulose é muito baixo, o que o deixa amarelado com muita facilidade”, disse. Por isso, os pesquisadores da Nanorestart desenvolvem métodos para tratar documentos a partir de nanotecnologia.

Ela explica que, no Brasil, o processo é feito com uma solução de hidróxido de cálcio. “Você mergulha o papel, molha, depois precisa secar e prensar o papel. Nesse método, se o papel for muito fino ou antigo, pode rasgar ou até a tinta pode borrar”. Já os solventes desenvolvidos na Itália exigem apenas pinceladas sobre o papel. “Ele evapora rapidamente porque é feito com isopropanol, um álcool, o que faz com que o pH aumente”.

Durante os dois dias de seminário, a professora se interessou pela área de recuperação de papel e solicitou um estágio no local para aprender as técnicas desenvolvidas e, depois, continuar as pesquisas aqui no Brasil.

“Lá [no seminário] eu conheci o professor Henri Schrekker, do Instituto de Química da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que faz parte do projeto Nanorestart, e os pesquisadores italianos que desenvolvem solventes para recuperação de papel, limpeza de quadros/telas e estátuas de bronze”. Nhuck embarcou em outubro de 2018 para iniciar seu estágio. Na época, a pesquisa que começou na restauração de documentos e obras de arte tomou outro rumo.

Ela conta que, em um certo dia, estava no laboratório fazendo alguns testes e um pesquisador pediu auxílio. “Ele queria testar uma resina que havia desenvolvido em certos líquidos iônicos que eu estava usando naquele momento. A questão era saber quanto daquele líquido a resina absorveria. Fiquei com algumas amostras. Quando peguei o material, percebi que ele era adesivo, possuía uma colinha. Logo pensei: isso pode servir para outras coisas”.

E assim foi. Nhuck conta que, tempos antes, outro pesquisador da área de Química Forense, da Flórida (EUA), relatou que precisava determinar quantidades mínimas de pólvora em cenas de crime. “Entrei em contato com ele e logo solicitei alguns materiais (solventes) à universidade para iniciar alguns testes lá mesmo na Itália”. Segundo ela, a necessidade era específica, “ele precisava identificar quantidades muito pequenas, da ordem de 20 ppms”.

Os testes se mostraram promissores e, quando retornou ao Brasil, Nhuck trouxe algumas amostras consigo.

“Em 2019, fui à Virgínia, onde esse pesquisador da área forense está até hoje e levei a resina. Testamos o material em laboratórios de primeiro mundo, e ficou comprovado que este era muito mais eficaz do que os dois adesivos utilizados pela equipe até o momento”.

Em 2020, o professor Henri sugeriu que eles participassem da maratona do empreendedorismo promovida pela UFRGS. E assim surgiu a Resilift, um negócio criado a partir da resina inicialmente produzida para restauração de papéis.

O ResiLift é um hidrogel para coletar resíduos de disparos de armas de fogo, o que possibilita a identificação de suspeitos em ocorrências criminais. Desta maneira, a polícia  tem um método eficiente para ajudar nas investigações, o que pode facilitar relacionar o suspeito com a arma de fogo.

Até o momento, a resina foi feita em escala laboratorial, o que possibilitou a qualificação do material produzido, tendo um empenho superior aos produtos disponíveis no mercado e utilizados pelos peritos de investigações criminais.

Nhuch pondera que alguns dos desafios da startup são a produção em escala maior e o desenvolvimento de uma embalagem adequada.

Oportunidades

A conselheira destaca que os profissionais da Química, e de qualquer área, devem se atentar para a educação continuada. “Nunca pare de estudar. Nossa caminhada é como dirigir um carro. Ao longo do caminho, existem vários sinais. Esteja atento. Acredite nas suas ideias e fique atento aos sinais”.