Mercado de Cannabis Medicinal no Brasil avança com foco em padronização industrial, demanda por insumos e rigor tecnológico

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Impulsionado pela diversificação regulatória e pela expansão do acesso terapêutico, o ecossistema nacional de cannabis medicinal se consolida como um dos mercados de saúde e biotecnologia em ascensão no país. Reunidos no Cannabis Summit Brasil 2026, em Florianópolis (SC), líderes setoriais, pesquisadores e representantes regulatórios apontaram que o avanço do setor depende da industrialização de processos, do rigor analítico na extração de fitocanabinoides e da segurança farmacológica dos fitofármacos.

A pauta ganha relevância econômica em um momento em que o mercado nacional busca reduzir a dependência de importações e estruturar uma cadeia produtiva própria. As discussões do evento reforçaram a necessidade de investimentos em infraestrutura laboratorial, metodologias analíticas e capacitação técnica na cadeia de Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs).

Essa expansão ultrapassa a assistência à saúde e impulsiona um novo ecossistema industrial, científico e tecnológico. O cenário exige especialistas do cultivo e melhoramento vegetal à extração, controle analítico e padronização de fitofármacos. Nesse contexto, a participação de entidades como o Conselho Federal de Química (CFQ) e de associações setoriais coloca a ciência e a conformidade técnica no centro do debate.

A ciência por trás da transformação da planta em medicamento

A transformação da biomassa vegetal em um produto seguro e padronizado exige o domínio de processos físico-químicos complexos. É nesse elo que a atuação do profissional da Química se torna indispensável para assegurar a qualidade dos insumos. Luiz Renato, químico responsável pelo processo de extração da Santa Cannabis, afirma que o profissional da área atua na definição das metodologias adequadas para cada inflorescência e no direcionamento do insumo farmacêutico ativo. Na avaliação do especialista, o químico desempenha o papel de um “maestro” na cadeia produtiva.

O processo envolve diferentes tecnologias. A extração por CO₂ em estado supercrítico oferece alta seletividade, enquanto o processo etanólico com álcool absoluto se destaca pela viabilidade econômica e disponibilidade no mercado brasileiro. A atuação do químico, porém, vai além da extração: os extratos passam por etapas como purificação, descarboxilação e destilação para elevar a pureza, ativar compostos e melhorar a palatabilidade dos tratamentos.

O papel do Sistema CFQ/CRQs

Para além das bancadas laboratoriais, a presença de órgãos reguladores e de classe reforça a segurança jurídica e a credibilidade de um mercado em consolidação. A participação do Conselho Federal de Química em fóruns setoriais simboliza o reconhecimento de que o desenvolvimento da cannabis medicinal deve caminhar ao lado da excelência técnica.

Jonas Comin Nunes, 1º Secretário Executivo do Conselho Federal de Química (CFQ), enfatiza que a participação da entidade no ecossistema da cannabis reforça a importância estratégica da categoria em todas as etapas do setor. “O profissional da Química pode contribuir em todas as etapas da cadeia produtiva”, afirma, citando o envolvimento desde o cultivo e melhoramento da planta até a extração de óleos, o controle de qualidade e a segurança dos produtos ofertados à sociedade.

Segundo Nunes, o avanço também exige atuação integrada e multidisciplinar. “A convergência entre médicos, farmacêuticos, químicos e agrônomos em um mesmo ambiente de diálogo é fundamental para assegurar que a expansão da cannabis medicinal ocorra sob rigorosos padrões científicos e sanitários”, destaca.

Oportunidades econômicas e empregabilidade qualificada

A estruturação dessa nova matriz industrial abre espaço para empregos qualificados e polos tecnológicos regionais. A cadeia demanda competências em agronomia, engenharia química, pesquisa e desenvolvimento, controle de qualidade, regulação sanitária e gestão industrial.

Para Pedro Sabaciauskis, presidente da Associação Santa Cannabis de Santa Catarina, o momento representa uma oportunidade de transformar uma atividade historicamente restrita em vetor de progresso socioeconômico. “Temos uma oportunidade única de transformar uma planta que até ontem era droga em uma oportunidade não só de saúde, de qualidade de vida, mas de um trampolim econômico, de geração de emprego, de geração de renda”, afirma.

Sabaciauskis ressalta que um dos principais desafios é a capacitação técnica. Segundo ele, o avanço regulatório precisa ser acompanhado pela formação de profissionais preparados em áreas como medicina, farmácia, agronomia e química.

Soberania industrial e integração com políticas públicas

Outro ponto debatido foi a necessidade de reduzir a dependência de insumos e tecnologias estrangeiras. A consolidação de um parque fabril e laboratorial voltado à produção de fitofármacos no país pode diminuir custos e aproximar o acesso aos tratamentos das demandas do Sistema Único de Saúde (SUS).

Associações e entidades defendem que o fortalecimento da cadeia produtiva local também pode estimular pesquisa aplicada, desenvolvimento de equipamentos nacionais e aprimoramento das normas regulatórias junto à Anvisa.

Ao unir rigor analítico, valorização profissional e visão estratégica de mercado, o Brasil avança na construção de uma cadeia de cannabis medicinal com potencial científico, industrial e econômico.