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História da Farmoquímica foi tema de live do CRQ IV

O Conselho Regional de Química da 4ª Região (CRQ IV) estreou, na última terça-feira (27), o “Projeto Inspiração” durante uma live. Para inaugurá-lo, o Conselho escolheu o tema  “A história da Farmoquímica no Brasil e o papel da Química neste futuro”. O projeto envolve uma série de debates entre profissionais da Química nas diversas áreas que atuam. A intenção é abordar a evolução da carreira e perspectivas da área, além de possibilitar a troca de experiências.

Transmitida pelo canal do CRQ IV no YouTube, a live contou com a participação do químico Antônio Carlos F. Teixeira, formado pelo Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e do engenheiro químico Wilson Zeferino Franco Filho, graduado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e membro da Comissão de Química Farmacêutica do CRQ IV. 

Franco Filho iniciou falando sobre os Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs) e da importância do país ser independente na fabricação. “Comecei a me interessar por Química por causa de um bom professor. Uma notícia dizia que o Brasil iria precisar de engenheiros petroquímicos. Você junta o que gosta com essa perspectiva e se desenvolve. Nós dependemos que você se qualifique, que aprenda mais e continue se preparando e se interessando pela Química para ajudar o país a ser suficiente na área da saúde”, afirmou ele numa mensagem para os estudantes participantes da live. 

“Boa parte da nossa história começa com causalidades. Em cima disso, vamos construindo as consequências e os efeitos”, destacou o químico Antônio Carlos F. Teixeira na sua palestra sobre a História da Farmoquímica no Brasil.

Apresentando uma linha do tempo, o químico abordou a evolução da indústria farmoquímica e o início da produção dos IFAs. 

Segundo o profissional, a Farmoquímica já existia nas décadas de 1950/60, a partir da produção dos primeiros insumos. Porém, foi a partir da criação, em 1971, da Central de Medicamentos (CEME) que o Brasil deu a sua largada para a produção nacional de IFAs.

“O Decreto 71.205/1972 definiu as prerrogativas da CEME. Deu conectividade às coisas e incentivou as atividades de pesquisa para a descoberta de novas matérias-primas e o aperfeiçoamento de técnicas e processos de fabricação de medicamentos”, afirmou. 

Teixeira ressaltou ainda que, com a criação do Instituto Nacional de Previdência Social, em 1971, foi dado o pontapé inicial para o desenvolvimento do Sistema Único de Saúde, o SUS. 

Na sua apresentação, ele chamou a atenção para uma matéria publicada no Jornal do Brasil, em junho de 1974, com o título “Os medicamentos – Produção no país depende de matéria-prima que vem de fora”.

Neste mesmo ano, o governo publicou o Decreto 72.552, que estabelece mecanismos de apoio à indústria química e de transformação farmacêutica, associando recursos públicos e privados, e visando o aproveitamento industrial no desenvolvimento de pesquisas para obtenção de matérias-primas e princípios ativos farmacológicos e a substituição de importação de matérias-primas.

Ainda no ano de 1974, o Brasil passava por uma crise cambial e petrolífera e ficou latente uma necessidade de ter uma produção interna de insumos farmacêuticos. 

“Na década de 1980, tínhamos 70 empresas nacionais e 63 empresas estrangeiras que eram responsáveis pela produção de 421 fármacos no Brasil ou cerca de 61% do mercado nacional”, esclareceu o químico. 

De acordo com ele, uma portaria interministerial publicada em 1984 foi um marco para incentivar a produção de medicamentos no Brasil. “Entre os anos de 1971 até 1990, a indústria farmoquímica recebeu incentivos como um setor próspero”.

Para Teixeira, as décadas seguintes desestimularam o setor com a aprovação da Lei de Patentes e a Lei dos Genéricos. “Hoje, somente 6 a 10% dos medicamentos são fabricados no Brasil”.

Entre as décadas de 1970 e 1980, o Brasil viveu uma carência de técnicos, pesquisadores, profissionais capacitados, de infraestrutura industrial e analítica. 

Nos anos seguintes, o país obteve um grande desenvolvimento fabril. Atualmente, possui um alto nível de formação profissional, porém houve uma redução no número de empresas e de capacidade produtiva nacional.

O papel da Química no futuro

“Em 2020, vem a Covid e nos traz a realidade de que o mundo pode sofrer outras crises (cambiais, guerras, problemas de abastecimento), que nos levam a refletir a estratégia de ter ou não ter este segmento [farmoquímico] no país e quanto é necessário investir em produção de vacinas. O Brasil, por exemplo, é atualmente um dos maiores produtores e consumidores de vacinas veterinárias do mundo”, analisou ele, para um cenário em 2030.

“Cabe à indústria entregar o resultado de estudos e pesquisas acadêmicas. Ela [indústria] tem esse dom”.

O grande desafio e diferencial da indústria farmoquímica é produzir um insumo farmacêutico ativo com rendimento de 99,5%, e apenas 0,5% de impureza total e 0,1% de impureza individual.

“O futuro requer novas técnicas analíticas para limitar o potencial de riscos carcinogênicos e de mutagenicidades”, ressaltou. 

Conforme Teixeira, o IFA é essencialmente um produto de variáveis, como estrutura e caracterização, propriedades físico-químicas, desenvolvimento de metodologia analítica, controles, impurezas, padrões, validações de limpeza dos equipamentos, manufatura, embalagem e armazenagem, entre outros. 

No encerramento da palestra, ele disse que produzir IFA no Brasil não é uma consequência de uma ponta, um ato isolado. Ele é fruto de toda uma cadeia de processos, interação direta de diversos profissionais e Ciência que leva ao insumo. “Vamos demorar uns 10 ou 15 anos para retomar o que foi iniciado na década de 1971”, alertou. 

 

Confira como foi a live .