Grupo de Trabalho para cannabis tem reunião inaugural e discute usos medicinal e industrial
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Foi realizada na última semana a primeira reunião do recém criado Grupo de Trabalho da Cannabis, estabelecido para aludir às possibilidades de uso medicinal e industrial da planta e oferecer subsídios técnicos para a eventual regulamentação e exploração de cultivares.
O grupo de trabalho, formalizado na Portaria n º 218, de 11 de outubro de 2023, conta com os conselheiros federais Ubiracir Lima, e Luiz Miguel Skrobot Junior, além do presidente do Conselho Regional de Química da 9ª Região (CRQ IX – Paraná), Edward Borgo. Na reunião inaugural, os conselheiros federais fizeram uma apresentação virtual para outros integrantes do Sistema CFQ/CRQs interessados na temática em todo o país, apresentando o atual estágio dos debates em torno da cannabis e explicando melhor o que esperam a partir da criação do grupo de trabalho.
Lima tem participado de uma série de audiências públicas e reuniões em que explana sobre os conceitos químicos envolvidos nos estudos da cannabis. Ele lembra que já há algum tipo de regulação para o uso dos medicamentos à base dessa planta.
“Aqui no Brasil iniciaram-se as permissões legais justamente por uma ação da sociedade, porque já se verificava ao redor do mundo que alguns derivados dessa planta tinham respostas terapêuticas positivas, principalmente para epilepsia infantil”, rememorou.
O conselheiro federal disse ainda que um dos objetivos do trabalho no curto prazo é desmistificar o uso da planta, estigmatizada pelas suas propriedades entorpecentes atribuídas ao metabólito Tetrahidrocanabinol – THC, permitindo o cultivo diante da eliminação dessas características em favor de suas capacidades de combater moléstias como a própria epilepsia. Dessa forma, a expectativa é de que uma produção em escala maior permita redução de custos e tornar os remédios obtidos dos canabinóides acessíveis a um número maior de pacientes – um frasco pequeno, de 30 mililitros custaria mais de R$ 2 mil, dependendo da dosagem. Em outro front, ainda de acordo com Lima, está estabelecido um diálogo com o Conselho Federal de Medicina (CFM): o objetivo é oferecer os subsídios técnicos para que os médicos possam prescrever esses medicamentos com segurança.
“Existe um desafio da política pública, principalmente para conseguir ter a entrega via SUS, ou seja, você ter acesso, dependendo da dose mais indicada, da posologia recomendada pelo médico prescritor. Hoje fica complicado de fazer esse investimento para aquelas famílias de baixíssima renda. A nossa contribuição é justamente, se conseguirmos trabalhar e pesquisar, de dizer que nós os Profissionais da Química podemos auxiliar a otimização do processo de extração e de produção dos medicamentos. Assim, a gente consegue também reduzir o custo”, afirmou.
O grupo de trabalho está conversando com instituições parceiras e estudiosos da área de saúde e mesmo da indústria para contribuir com o debate. Outras aplicações da cannabis como a fibra do cânhamo, que tem várias aplicações industriais possíveis, também serão objeto de atenção do colegiado, bem como algumas outras substâncias que já são insumos em cosméticos e até suplementos alimentares em outros países. No longo prazo, uma das metas é estabelecer técnicas seguras para garantir a qualidade dos insumos e rastrear os cultivares.
A possibilidade de identificar a origem de determinada planta pela rastreabilidade, garantindo que seja viável identificá-la entre aquelas que se prestam à produção de medicamentos e não a outro fim, seria fundamental para derrubar resistências ao plantio nos círculos mais conservadores.
“A partir do momento que eu certifico determinada fazenda, determinado tipo de planta que tem esse quimiotipo, ou seja, que tem essa impressão digital, eu certifico que essa planta tem essa característica única. Aí essa planta gera um extrato, desse extrato se produz um medicamento, um cosmético ou outro produto qualquer. Eu consigo quimicamente saber qual a origem, até o cultivo”, concluiu.