Governança regulatória e biossegurança estruturam consolidação do mercado de controle de pragas

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Setor de defensivos domissanitários e manejo integrado de vetores profissionaliza sua cadeia de suprimentos, transforma exigências sanitárias em drivers de valor empresarial e atrai a atenção de entidades regulatórias da América Latina. 

 

  O mercado de controle de vetores, pragas urbanas e saneantes domissanitários está centrado na governança operacional e no cumprimento de rigorosos protocolos de biossegurança. Reunidos durante a 15ª edição da Expoprag, na capital paulista — evento bienal que celebra 30 anos de trajetória como a principal vitrine técnico-empresarial do segmento na América Latina —, lideranças empresariais, pesquisadores e conselheiros do Sistema CFQ/CRQs debateram a centralidade da responsabilidade técnica nas diretrizes corporativas modernas. 

Ao conduzir o debate sobre a normatização da atividade, o conselheiro federal do CFQ, Wagner Contrera, enfatizou a obrigatoriedade da atuação presencial e ética à frente dos processos operacionais: “A responsabilidade técnica implica o efetivo exercício da atividade profissional. Não é uma mera operação administrativa onde alguém assina um documento para protocolar no órgão e levar à vigilância sanitária para legalizar a empresa. O Conselho procura monitorar para impedir que o profissional atue somente como assinante, já que o papel dele é estar presente em toda a cadeia do serviço que está assumindo. Na empresa, quando há um incidente, o Conselho chama o responsável técnico para prestar depoimento e ele tem que se posicionar como tal. Responsabilidade técnica não é um prêmio por tempo de casa, nem um castigo ou imposição contratual para manter o emprego. Trata-se de uma questão de saúde pública e de salvaguarda da sociedade. Garantir que somente empresas especializadas, regularizadas e com responsabilidade técnica possam atuar é zelar pelo interesse da sociedade. O Conselho não é sindicato; nossa missão como órgão de fiscalização é a proteção da saúde pública”, afirmou. 

Novas exigências ampliam a importância da responsabilidade técnica 

O setor de manejo ambiental e controle de pragas passa por mudanças importantes. Durante muito tempo marcado pela presença de prestadores informais em algumas atividades, o segmento enfrenta hoje exigências maiores de empresas e organizações preocupadas com segurança, qualidade, meio ambiente e cumprimento das normas. 

Grandes companhias, indústrias, fundos de investimento e outros contratantes passaram a observar com mais atenção a forma como esses serviços são prestados. Além da eficiência no controle de pragas, entram nessa avaliação aspectos ambientais, sociais e de governança, conhecidos pela sigla ESG. 

Essa preocupação é ainda maior em locais como hospitais, indústrias farmacêuticas, fábricas de alimentos e bebidas, centros de distribuição e instalações logísticas. Nesses ambientes, falhas no uso de produtos químicos ou nos procedimentos de controle podem provocar contaminações, interrupção das atividades, recolhimento de produtos, multas e prejuízos à imagem das empresas. 

Nesse cenário, contar com responsabilidade técnica qualificada deixa de ser apenas uma obrigação prevista nas normas. A presença de profissionais habilitados ajuda a garantir segurança, qualidade e cumprimento das exigências técnicas. Para as empresas do setor, também representa um diferencial na conquista de contratos e na relação com grandes clientes. 

Da fórmula do laboratório à produção industrial 

A presença do profissional da Química também é essencial nas indústrias que fabricam produtos utilizados no controle de pragas e em outras atividades de desinfecção e higienização. 

Produzir uma fórmula em laboratório e fabricá-la em grande quantidade são etapas diferentes. Durante a produção industrial, fatores como temperatura, umidade, equipamentos utilizados e até o tipo de embalagem podem interferir no resultado final. 

A responsável pela área de Regulamentação e Registro da Quimiway, Jordana Hanaver, detalhou os desafios encontrados diariamente nas linhas de produção e a importância do acompanhamento especializado para evitar perdas: “A formulação na indústria química não é uma receita pronta que funciona sempre sem variáveis. O comportamento do produto na linha de produção difere do teste de laboratório: variações de temperatura, umidade e até da embalagem alteram a estabilidade e o acabamento do lote. Por isso, a presença do profissional da Química é indispensável em tempo integral, desde o maquinário até o período de quarentena e controle de qualidade antes da saída da fábrica”, afirmou. 

O controle continua mesmo depois que o produto é colocado na embalagem. Durante o período de armazenamento antes da liberação, mudanças de temperatura e outras condições do ambiente podem alterar características do produto. A identificação desses problemas antes da distribuição ajuda a evitar o recolhimento de lotes, desperdícios e a comercialização de produtos fora das especificações aprovadas pelos órgãos responsáveis. 

Aplicação correta reduz riscos à saúde e ao meio ambiente 

A atuação dos profissionais qualificados também é fundamental na etapa de aplicação dos produtos utilizados em serviços de desinsetização, desratização e desinfecção. 

A escolha do produto, a quantidade utilizada e a forma de aplicação precisam ser definidas de acordo com cada situação. Erros nesse processo podem diminuir a eficiência do tratamento, aumentar a resistência das pragas, causar intoxicações e provocar contaminação do solo, da água ou do ar. 

O químico e empresário do setor ligado ao CRQ-IV, Antonio Carlos Bocamino, destacou a importância do conhecimento sobre os produtos e do treinamento dos profissionais responsáveis pela aplicação: “A utilização das moléculas certas e o tratamento correto não trazem problemas ao meio ambiente. São produtos registrados pelo Ministério da Saúde que precisam do acompanhamento de um profissional habilitado. O profissional da Química traz um diferencial decisivo ao controle de pragas porque é uma atividade diretamente ligada a produtos químicos. Essa presença técnica, somada ao treinamento rigoroso dos operadores, garante maior qualidade na execução do serviço e assegura a proteção sanitária da população e dos ambientes atendidos”. 

Fiscalização também tem papel de orientação 

A fiscalização realizada pelo Sistema CFQ/CRQs não se limita à identificação de irregularidades. O trabalho também tem caráter preventivo e educativo, orientando profissionais e empresas sobre as boas práticas e as exigências necessárias para a prestação segura dos serviços. 

A conselheira federal suplente e integrante da Comissão de Apoio Institucional (CAPI) do CFQ, Patrícia Guimarães, reforçou que os cuidados relacionados aos produtos químicos estão diretamente ligados à proteção da população: “Na área de imunização e controle de pragas, a participação do profissional da Química é fundamental. Trata-se de saúde pública. O profissional da Química tem que avaliar a toxicidade, os riscos químicos, o tipo de produto que está sendo aplicado em cada situação, o armazenamento, a distribuição, o transporte do produto, inclusive o descarte. A atuação tem que ser de forma segura para a população e também para o meio ambiente”, disse Patrícia. 

A fiscalização busca ainda assegurar que as empresas contem com profissionais habilitados para acompanhar as atividades que envolvem produtos químicos, desde o preparo até a aplicação. 

“O profissional da Química é fundamental nesse setor para garantir que os aspectos técnicos e científicos sejam respeitados pela empresa em sua atuação. O Conselho assegura que o profissional esteja devidamente inserido, exigindo que as empresas contem com responsáveis técnicos habilitados para responder por todas as questões relativas à utilização de produtos perigosos — desde a diluição até a aplicação final em campo”, ressaltou o conselheiro federal e coordenador do Comitê de Fiscalização (CFISC) do CFQ, Rodrigo Alan de Moura Rodrigues. 

Modelo brasileiro chama atenção na América Latina 

A forma como o Brasil organiza a responsabilidade técnica e a fiscalização profissional no setor também tem despertado interesse de representantes de outros países da América Latina. 

No país, profissionais da Química responsáveis por essas atividades devem estar devidamente habilitados e registrados no Sistema CFQ/CRQs. Em outras nações da região, a fiscalização pode estar dividida entre diferentes instituições, sem uma estrutura específica voltada para as atividades que envolvem produtos químicos utilizados no controle de pragas. 

O presidente do Instituto de Capacitações da Associação Chilena de Controle de Pragas, Hernán Felipe Higuera, ressaltou o modelo brasileiro durante sua participação na feira: “A existência de um Conselho de Química atuante na fiscalização ética e na formulação de políticas de longo prazo eleva o nível técnico do setor. É um padrão que buscamos replicar na América Latina para estruturar o mercado com base em conhecimento e conformidade”. 

A troca de experiências entre os países pode contribuir para o aperfeiçoamento das regras, da capacitação profissional e dos padrões de segurança adotados no setor. 

Capacitação e fiscalização são próximos passos 

O crescimento e a profissionalização do mercado de controle de pragas aumentam a necessidade de empresas e profissionais acompanharem as normas e investirem continuamente em qualificação. 

Nos próximos meses, o Sistema CFQ/CRQs seguirá oferecendo capacitações técnicas gratuitas sobre responsabilidade técnica para profissionais e empresas registradas em todo o país. Também serão fortalecidas as ações integradas de fiscalização voltadas ao combate à atuação irregular e à promoção de serviços realizados de acordo com os princípios e conhecimentos da ciência química.