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CRQ III promove resgate histórico dos desafios da produção de IFAs no Brasil

Os especialistas afirmam que o Estado deve atuar no fortalecimento do setor de farmoquímicos

Em debate promovido pelo Clube de Engenharia e o Conselho Regional de Química da Terceira Região (CRQ III), que abrange o Rio de Janeiro, especialistas falaram sobre a capacidade do Brasil de dar respostas rápidas às urgências médicas, como no caso dos Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs). Pouco conhecido do público em geral antes da pandemia de Covid-19, o item é essencial à produção de medicamentos e vacinas. O encontro virtual aconteceu no dia 15 de abril e pode ser assistido aqui.

A palestrante Eloan dos Santos Pinheiro, Química especialista em Tecnologia Farmacêutica, foi bastante didática ao categorizar esse produto.

“Um IFA, em linguagem simples, é o coração do remédio, da vacina, do comprimido etc”.

Pinheiro afirma que um ponto importante para o entendimento dos desafios de produção de IFAs no país é a obtenção da patente.

“Nada mais é do que um monopólio concedido a um produtor, um desenvolvedor de uma tecnologia, tornando este o detentor daquele produto/conhecimento/tecnologia, e proíbe qualquer outra pessoa de fazer um item similar, genérico, ao patenteado por um período de 20 anos. A argumentação da indústria é o lucro. Eles precisam “repor” os investimentos. Enquanto isso, pessoas podem morrer por não conseguir pagar por um produto muito caro”, destaca.

Segundo os dados apresentados, em 2019, a indústria farmacêutica mundial faturou 1,3 trilhão de dólares, sendo que as 10 maiores indústrias do setor, faturaram USD $ 392,5 bilhões. No mesmo ano, o Brasil importou USD $ 2,26 bilhões de IFAs.

Para a pesquisadora, “um povo com saúde movimenta a economia, mas um povo sem saúde paralisa a economia e a pandemia de Covid-19 comprova isso”.

Os debatedores convidados fizeram um resgate histórico do setor de farmoquímicos para o desenvolvimento nacional.

O Engenheiro Químico Marcus Soalheiro Cruz, vice-presidente da Nortec Quimica S.A, com mais de 40 anos de vivência no desenvolvimento e produção de IFAs, lembrou que houve uma época em que empresas multinacionais também produziam IFAs no Brasil.

“Faço uma analogia ao xadrez, no tabuleiro, a indústria farmoquímica é o cavalo, ela não consegue dar três passos para frente, o terceiro é para o lado, quando ela dá dois passos para o lado, o terceiro pode ser para trás. Isso porque, as políticas públicas que embasam o seguimento de saúde mudam com muita frequência e, às vezes, em direções drasticamente opostas”.

Soalheiro lembrou que o Brasil passou por um período de proteção tarifária e desenvolvimento da indústria, mas com a abertura do mercado no final dos anos 1980, mais de mil unidades de produção de química fina fecharam no país. Para o engenheiro, a prevalência de um processo regulatório isonômico ajudaria muito as indústrias nacionais.

“Até porque, nos ensina a competir lá fora”.

A presença do Estado foi muito citada pelos participantes como fator crucial para romper os desafios da indústria de farmoquímicos no país.

“O governo indiano, durante a pandemia, emitiu um decreto garantindo subsídio para empresas locais que verticalizarem a produção de mais de cinquenta IFAs em território indiano. Ou seja, preocupada com a dependência da China, decidiu fazer um pacote muito forte de investimentos nas IFAs selecionadas de acordo com o seu sistema de saúde e injetou dinheiro nessa verticalização”, exemplificou Soalheiro.

O doutor em Processos Químicos e Bioquímicos Pedro Palmeira explicou que a cadeia farmacêutica é um conjunto de três indústrias com capacidades e características muito distintas.

“No elo mais à esquerda temos os intermediários químicos, que é, com a licença do termo, uma ‘indústria suja’, uma indústria que você entra dentro da fábrica e se suja, não é uma indústria limpinha, que tem ar-condicionado, como é o elo adiante, onde são produzidos os IFAs. Depois, temos a indústria farmoquímica propriamente dita, que formula os IFAs, misturando-os com outras substâncias coadjuvantes que permitem que o medicamento tenha o comportamento X, Y e Z quando administrado no nosso corpo”, explicou.

David Tabak, Químico Industrial pela UFRJ, Ph.D. em Polímeros, reforçou a necessidade de políticas públicas de Estado que fortaleçam o setor. Para isso, destacou que, apesar de o termo ter sido relacionado às vacinas, os IFAs são muito usados na produção de medicamentos.

“Hoje, quando se fala em IFA, só se fala em vacina. Na verdade, não existe muito essa diferença entre o IFA e a própria vacina, a gente só soma alguns aditivos e pronto, temos a vacina. Esses são os biofármacos”.

O especialista explica que o Brasil não explora um grande potencial de produção de fitofármacos.

“São aqueles medicamentos provenientes de plantas. Podem ser originais da planta ou ser modificados a partir de moléculas isoladas de plantas. Essa é uma área em que o Brasil, pela sua biodiversidade, tem uma vantagem competitiva em relação a qualquer país do mundo. E nós fabricamos muito pouco. Por falta de uma política industrial de Estado. O que temos visto são políticas de governo. E aí entra um e sai outro, começa tudo do zero”.

Assim como Marcus Soalheiro, Tabak retomou a década de 80 para elucidar a atual dependência do Brasil no setor.

“Tínhamos várias indústrias farmoquímicas funcionando no Brasil, todas elas estavam tentando verticalizar a sua produção e estavam recebendo algum incentivo governamental. Quando as coisas pareciam entrar nos eixos, houve a abertura das fronteiras do Brasil para importação de intermediários, de farmoquímicos e a indústria nacional, que ainda não era competitiva deu com os burros n’água. Sobraram muito poucas indústrias. O que acontece é que hoje, nós (Brasil) dependemos quase que totalmente de intermediários importados. Se todas as fronteiras comerciais do Brasil fossem fechadas, nós sobreviveríamos em todas as áreas, menos no setor de medicamentos porque somos totalmente dependentes”.