Notícias

Estudante de Química descobre composto da tangerina que atua contra a Covid-19

Encontrar uma substância que tenha a capacidade de penetrar em células e, ainda, impedir a replicação celular do Coronavírus e do Zika vírus, presente em uma fruta amplamente conhecida, a tangerina, foi o desafio do estudante de graduação em Química, da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Matheus Nunes da Rocha. O estudo rendeu ao jovem pesquisador a publicação, com direito à capa, na revista Journal of Computational Biophysics and Chemistry.

A descoberta consiste na extração do composto natural tangeritina, da casca da tangerina. A pesquisa foi realizada por meio do trabalho em conjunto dos cursos de Química da Uece em Limoeiro do Norte (FAFIDAM) e em Fortaleza.

O trabalho tem como base estudos teóricos do poder medicamentoso de compostos naturais. Dentro da universidade, a ideia surgiu por meio da integração entre a doutoranda do Programa de Ciências Naturais Daniela Ribeiro Alves e as professoras Márcia Machado Marinho e Selene Maia de Morais, sob a coordenação do professor Emmanuel Silva Marinho, coordenador do grupo de Química Teórica e Eletroquímica (GQTE/FAFIDAM).

Tangeretina e a Covid-19

Os professores do Departamento de Química da Uece, em busca de alternativas para enfrentar os avanços do vírus Zika e da Covid-19, implementaram estudos sobre os produtos naturais, muitos da região, como aliados ao enfrentamento das doenças.

Selene Morais é formada em Química Industrial e com mestrado em Química Orgânica pela Universidade Federal do Ceará, doutorado em Química – University of London, e PHD pela Universidade de Aveiro, Portugal. 

Segundo ela, nesse estudo foram analisados vários aspectos da tangeritina para revelar sua ação antiviral, tanto na inativação de enzimas-chaves de ação dos vírus Covid-19 e Zica, como todos os mecanismos farmacocinéticos que garantem as suas propriedades e transporte no organismo, com o objetivo de atingir o alvo invasor e, assim, poder ser considerada sua ação medicamentosa. “Portanto, o estudo visa credenciar a tangeritina na desativação das proteínas dos vírus da Covid e do Zica, para que sua ação não vá para frente”, explica.

Outro ponto que este grupo avaliou foi a migração da substância no organismo. “Eles avaliaram tudo o que o vírus usa no nosso organismo, e de que forma a tangeritina teria capacidade de proteger o organismo”, detalha.

Matheus Rocha foi o responsável pelo estudo da tangerina. Com a orientação do professor Emmanuel Silva Marinho, por meio da utilização de fundamentos de Química Teórica e de Eletroquímica, o estudante conseguiu realizar com o composto tangeritina estudos computacionais, constatando, matematicamente, probabilidades de sucesso da inibição da replicação das células da Covid-19 e do Zika vírus no corpo humano.

De acordo com Rocha, as simulações consideram todas as possibilidades de interação que podem acontecer no organismo humano, sendo utilizadas, inclusive, bibliografias da bioquímica, da medicina, da Química teórica, e da biologia. “Estas são ferramentas aprimoradas ao longo dos anos para garantir o maior grau de confiabilidade. Fazemos os testes de farmacocinética e farmacodinâmica, estabelecendo padrões de ordem física, Química e matemática, obtendo, assim, um grande percentual de confiabilidade em comparação com demais testes”, afirma.

O professor e coordenador da pesquisa, Emmanuel Marinho, é formado em Química, e possui mestrado e doutorado em Bioquímica pela Universidade Federal do Ceará. Para ele, esse projeto só virou realidade devido à integração entre as áreas e à confiança da professora Selene Morais na Química Teórica. “Somos químicos teóricos. Trabalhamos com simulações matemáticas. Se a professora Selene não tivesse o caminho das plantas medicinais e confiasse nesse sistema computacional, não teríamos chegado nesse resultado”, disse.

Marinho também destacou o espaço que os químicos teóricos têm ganhado. “A simulação em computador nos permite diminuir testes em cobaias. E essa integração entre as áreas nos permitiu um estudo mais objetivo para a sociedade, evidenciando, assim, que a simulação pode dar o retorno esperado”.

Os participantes dessa pesquisa também reforçaram que um dos grandes destaques deste estudo está na forma de ingestão, que, até onde puderam analisar, se dará por via oral, podendo ser utilizada de forma coadjuvante, sem trazer malefícios ao usuário.

Embora, de acordo com os pesquisadores, ainda não seja possível estabelecer um prazo para as próximas fases, eles também afirmam que a produção da informação já é benéfica.