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Estado com recorde de alunos inscritos na Olimpíada de Química, PE incentiva a descoberta de talentos na área

A Olimpíada Pernambucana de Química (OPEQ), que ocorre anualmente há cerca de 25 anos, teve número recorde de inscritos em 2021 entre as Olimpíadas realizadas por 22 unidades federativas do país, que apresentou um total de 139 mil inscritos. Neste certame, 31.540 estudantes pernambucanos de ensino médio de 569 escolas e 182 municípios se inscreveram. Por conta da pandemia, o exame foi realizado de forma virtual no dia 28 de março. Em 2019, o número de participantes da OPEQ havia ficado em 23 mil inscritos.

No segundo semestre deste ano, os 56 primeiros colocados na OPEQ das modalidades A (1º e 2º anos) e B (3º ano) participarão da Olimpíada Brasileira de Química (OBQ).

O que eles ganham com isso, além do reconhecimento da família, amigos, professoras e colegas, e medalhas? Poderão alcançar as Olimpíadas internacionais, ter acesso facilitado a vagas em algumas das melhores universidades do país. Eles ainda podem ganhar bolsas de estudo do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para realizar pesquisas já no ensino médio – conforme edital lançado em 2020, que concede R$ 100 mensais para cada bolsista.

A OPEQ é promovida pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e Espaço Ciência com o apoio da Secretaria de Educação e Esportes de Pernambuco e do Conselho Regional de Química da 1ª Região (CRQ I).

Segundo a presidente do CRQ I, Ana Paula Paim, as Olimpíadas de Química têm grande importância, “porque, além de revelar grandes talentos em Química, são um instrumento de aprendizagem para os estudantes e podem servir como suporte para futuras escolhas profissionais na área”.

“As Olimpíadas conduzem ao desenvolvimento da educação de qualidade e devem ser estimuladas por professores e pais de alunos. A importância das Olimpíadas também tem sido contemplada em algumas universidades públicas brasileiras, como a Unicamp, USP, Unesp e Unifei. Estas universidades têm oferecido vagas, chamadas de vagas olímpicas, em seus cursos de graduação para estudantes de escolas públicas e privadas, que sejam medalhistas em Olimpíadas científicas. Um grande estímulo para os estudantes participarem de O­limpíadas e terem seu esforço e dedicação reconhecidos”, ressalta.

Força-tarefa para revelar talentos

O grande número de participantes na OPEQ este ano ocorreu graças à força-tarefa conduzida pela organizadora do evento em 2021, a professora do departamento de Química da Universidade Federal Rural de Pernambuco Maria José de Filgueiras.

Ela realizou um trabalho de formiguinha: ligou pessoalmente para cada uma das 16 gerências da Secretaria de Educação estadual para pedir que divulgassem a Olimpíada em todas as escolas públicas. Depois, acompanhou em tempo real as inscrições. “Quando eu notava que algum município estava demorando a se inscrever, eu ligava para incentivar”.

Maria José afirma que a Olimpíada revela talentos escondidos. “Muitos estudantes relatam que fizeram uma prova sem pretensão alguma e se surpreenderam com o quanto se destacaram. É um incentivo para atrair mais alunos para a graduação em Química, uma área carente de profissionais no mercado e com concorrência baixa de candidatos por vaga nas universidades”, esclarece.

A organizadora do evento ressalta o papel múltiplo e fundamental do profissional da Química, especialmente no contexto atual. “Neste momento de pandemia, em que a gente está vendo a importância da Ciência e do desenvolvimento de vacinas, tudo isso envolve a Química. O químico está totalmente inserido no desenvolvimento de medicamentos, novos materiais, na produção de álcool em gel, máscaras e outros equipamentos de proteção, assim como tecnologias direcionadas à manufatura de produtos para melhorar o bem-estar da humanidade.”

O empenho de Maria José na participação das escolas públicas refletiu no resultado das inscrições: 388 escolas públicas estaduais participaram da OPEQ, 11 federais, 15 municipais e 155 particulares.

O desempenho dos estudantes de escolas públicas ainda não é o ideal, mas pode ser melhorado consideravelmente, adotando medidas simples, como mais incentivos por parte dos governos estaduais e municipais, motivando professores, gestores e estudantes a participarem de olimpíadas, além de um maior investimento na infraestrutura das escolas, que, em geral, não possuem laboratórios, sendo importante para a preparação dos estudantes. “Dos 56 classificados para a Olimpíada Brasileira, 31 são de escolas particulares, 15 de escolas públicas federais e 10 de escolas públicas estaduais, o que demonstra que precisamos mudar essa realidade, incentivando cada vez mais os estudantes de escolas públicas a participarem”, relata Maria José.

Gosto mesmo é de estudar”

Artur Neves Maia, de 16 anos, foi um dos 400 alunos do ensino médio do Colégio Madre de Deus, uma escola particular de Recife, inscritos na OPEQ de 2021. Aluno do 2º ano, ele foi o primeiro colocado da OPEQ. Dois anos antes, já havia ganhado medalha de ouro na Olimpíada Brasileira de Química Júnior (OBQJr), voltada a alunos dos 8º e 9º anos do ensino médio. Qual o segredo de Artur para se dar tão bem? “Eu não me apego à competição de uma prova. O que eu gosto mesmo é de estudar. E não só Química, gosto de estudar de tudo. A prova é uma consequência”, entrega.

Ele, entretanto, reconhece a importância do estímulo da escola e de bons professores. “Minha escola estimula todos os alunos a fazerem Olimpíada e oferece aulas específicas voltadas para este tipo de prova”.

Apaixonado pela Química, ele sempre foi do tipo que lê bula de medicamento e rótulo de alimentos, e fica tentando decifrar. Mas atribui a uma professora o seu maior estímulo. “A Elane é diferenciada. Ela promove aulas lúdicas, inventa projeto de Ciências, nos leva para expor na universidade e tem sensibilidade para perceber quando a turma está saturada de conteúdos pesados”, explica.

O aluno se refere à Elane Oliveira, professora de Química da escola Madre de Deus há nove anos. Com 20 anos de carreira, ela já deu aula em escolas públicas e particulares, e é uma das orientadoras da OPEQ na escola onde leciona atualmente. “Há uma enorme diferença da estrutura para aulas de Química existente no ensino público e no particular. No público, não existem recursos bons, faltam equipamentos e reagentes no laboratório. Não te permite trabalhar de forma segura”, lamenta.

Ela atribui seu sucesso com os alunos ao amor que tem pelo trabalho e também ao reconhecimento da diretoria da escola. “O colégio reconhece o meu diferencial, soma com todo o processo. Em 2020, recebi uma premiação em cash. Isso porque a escola tem este interesse de se colocar em um patamar que chame a atenção do público externo, e então se inserir no mercado cada vez com mais força. Nós, enquanto equipe, podemos contribuir para isso. A Olimpíada serve como um termômetro de como anda o nosso trabalho, porque é uma prova que não foi elaborada por você, te leva a se autoavaliar, se questionar ‘será que posso oportunizar para este meu aluno uma outra visão do que é esta Química?’”, analisa.

“As escolas particulares assumiram a Olimpíada como mais uma forma de propaganda e autopromoção para atrair mais alunos, elas investem no treinamento dos estudantes, com aulas específicas com foco nas Olimpíadas”, opina Robson Americo de Barros, professor de Química do Instituto Federal de Pernambuco (IFPE), uma escola federal pública que, por conta do esforço dele, não ficou para trás na preparação de seus alunos para o evento.

Doutor em Química pela Universidade Federal de Pernambuco e com 15 anos de carreira, ele montou uma comissão de Olimpíada no IFPE, da qual é coordenador. “Com o intuito de nos tornarmos competitivos, realizei uma Olimpíada interna entre os alunos, e selecionamos os 15 primeiros colocados para nos representar na OPEQ. Pegamos estes alunos com melhores desempenhos e montamos aulas uma vez por semana para prepará-los. O resultado foi notório: pela primeira vez, uma aluna nossa, Ana Letícia, ganhou medalha de bronze na Olimpíada Brasileira em 2019”, conta. Para Barros, as Olimpíadas contribuem para o melhoramento da educação brasileira, englobando toda rede de ensino, desde as escolas particulares até as públicas.

Paixão antiga pela Química

Este ano, Caio Moura, de 16 anos, e outros dois estudantes do IFPE, Gustavo Damasceno e Renato Moureira, foram classificados para a Olimpíada nacional. “Sinceramente, nunca achei que eu fosse alguém extraordinário, não esperava que fosse ser classificado, achava que existiam pessoas muito mais preparadas do que eu. Fiz pela oportunidade. Foi uma surpresa”, conta Caio, que está no 2º ano do ensino médio e foi classificado na modalidade A, voltada para alunos dos dois primeiros anos do ensino médio. Dois anos atrás, ele já havia ganhado menção honrosa na OBQJr.

Caio atribui o bom desempenho à paixão pela Química (que é coisa antiga), à qualidade do colégio e dos professores do IFPE, e aos pais, que sempre estimularam sua curiosidade e senso crítico. “A Química explica o mundo na escala micro, o que eu acho fascinante”, explica.

Maduro, o estudante já sabe o que quer profissionalmente e enxerga boas oportunidades de trabalho no próprio estado onde nasceu. “Quero trabalhar pelo Brasil, mesmo que aqui não seja um dos melhores países para se trabalhar. Minha intenção é trabalhar com Química, pra mim é natural, prazeroso. Não tem tanto mercado comparado a profissões como Medicina e Tecnologia da informação, mas aqui tem indústrias de bebidas e de alimentos, por exemplo. Eu gostaria de contribuir para descobrir maneiras de produzir alimentos industrializados que fizessem menos mal à saúde. Mas também gosto de Química ambiental, ramo interessante para diminuir a poluição”.

O estudante lamenta o desinteresse da maioria de seus colegas pela área e pela Olimpíada. “Preferem jogar videogame ou fazer uma atividade física. Além disso, quando veem o edital da prova, desistem. Acho que têm medo de se arriscar. A escola também divulga pouco os benefícios que uma boa classificação na Olimpíada pode trazer para o aluno, tipo conseguir uma vaga numa boa universidade e a possibilidade de viajar para outro país para fazer a Olimpíada internacional”, analisa ele, que está esperançoso em relação à sua colocação na OBQ. “Creio que possa atingir uma classificação satisfatória. Ficar feliz comigo mesmo é o mais importante”.