Equilíbrio entre inovação e sustentabilidade

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O desafio de integrar a tecnologia de inteligência artificial ao uso responsável de recursos naturais marcou o debate virtual promovido pelo CFQ

O impacto ambiental da inteligência artificial (IA) e o paradoxo da gestão da escassez foi o tema do primeiro painel da programação especial em alusão ao Dia Mundial da Água, promovida pelo Comitê de Meio Ambiente do CFQ (COMAM/CFQ). O evento, transmitido no Youtube, trouxe para a discussão o contraste entre os avanços tecnológicos e suas oportunidades frente ao desafio representado pelo uso sustentável dos recursos naturais que possibilitam essas inovações.

A presidente do CRQ-XV e membro do Comitê de Meio Ambiente (COMAM/CFQ), Emily Tossi, explicou como se forma o paradoxo da escassez relacionada à inteligência artificial. De acordo com a bacharel em Química, hoje as IAs são usadas na indústria, na ciência e na gestão. “Apesar da presença nesses ambientes, para treinar modelos cada vez mais avançados, é preciso dispor de infraestrutura computacional e de data centers gigantescos, que consomem quantidades muito altas de eletricidade e de água, usada para o resfriamento dos equipamentos.”

Nesse sentido, a palestrante Viviane Montebello reforçou que não se pode apenas tratar as IAs como inimigas. Essas ferramentas têm papel importante na busca de soluções para a preservação e gerenciamento de recursos naturais. Atualmente, esses mecanismos são usados na previsão de secas, na detecção de vazamentos e na otimização do uso de recursos hídricos no campo agrícola. Seu uso ainda possibilita prever a qualidade da água com 85% de precisão e identificar áreas prioritárias para reflorestamento e recuperação de nascentes.

“A IA consome recursos hídricos escassos para sua operação, mas, ao mesmo tempo, oferece as ferramentas mais avançadas para preservar e gerenciar esses recursos”, destacou Viviane. Em sua fala, a engenheira química traçou um histórico da criação e dos novos usos da inteligência artificial, deixando claras as consequências provocadas por sua rápida evolução.

“Esse avanço tecnológico esconde um custo ambiental significativo, necessário para manter a infraestrutura e os modelos de IA generativa, que consomem recursos energéticos e hídricos em grande quantidade”, explicou. “O avanço e o custo ambiental são sentidos na expansão dos data centers para IAs que, além de exigir muita água em seu funcionamento, precisam que este recurso seja de qualidade, não podendo haver resíduos que comprometam os equipamentos usados.”

Para ilustrar a situação, a palestrante apresentou dados alarmantes. De acordo com a pesquisadora, existem mais de 12 mil data centers de IAs no mundo e para sustentar esse ecossistema até 2030, estima-se que será necessário o consumo de 945 TWh (terawatts/ hora). Outros dados importantes referem-se ao consumo hídrico. Apenas o Chat GPT, por exemplo, soma mais de 1 bilhão de interações por dia, o que representa um consumo de 10 a 25 milhões de litros de água diariamente. No caso das imagens geradas pela IA a situação é ainda pior, pois exigem 30 vezes mais água se comparada à geração exclusivamente de texto.

O Brasil ainda não conta com esse tipo de infraestrutura, mas o território tem chamado a atenção de empresas estrangeiras por sua grande reserva hídrica, o acesso a energias renováveis e limpas, além da posição geográfica estratégica dentro da América Latina. Por isso, já se tem previsão para a construção de data centers de IA nos estados do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais e Ceará. Juntas, essas estruturas terão o potencial de consumir energia equivalente a 16 milhões de casas.

Diante desse cenário, o trabalho dos profissionais da Química é cada vez mais essencial, seja no desenvolvimento de novos materiais, seja na identificação de sínteses mais eficientes para minimizar os rejeitos gerados nos processos produtivos, entre outros. “Nós temos que entender e utilizar as ferramentas de IA a nosso favor. As oportunidades estão aí. Em todo campo em que a gente for atuar na área da Química é importante saber onde e como usar a inteligência artificial de forma positiva”, concluiu Viviane.

O presidente do CRQ-III e coordenador do Comitê de Meio Ambiente do CFQ, Harley Martins, afirmou que o evento promovido “serviu para ampliar a reflexão e a discussão sobre o uso dos recursos hídricos”, assunto que se reveste de importância especial diante do Dia Mundial da Água.

O debate sobre o tema está disponível no canal do CFQ no Youtube.