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A Eletroquímica Medicinal pode auxiliar no tratamento do câncer e outras doenças tropicais

A Eletroquímica Medicinal tem sido uma ferramenta útil no combate ao câncer  e doenças tropicais negligenciadas, e  também no estudo e planejamento de protótipos e fármacos potencialmente ativos contra essas enfermidades. A professora titular do Instituto de Química e Biotecnologia da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Marilia Oliveira Fonseca Goulart, vem pesquisando o tema há mais de 30 anos. De acordo com a docente, com pós-doutorado em Londres, no Queen Mary and Westfield College, e ganhadora do “Prêmio Marie Curie” (2011), da Sociedade Brasileira de Química, a ciência da Eletroquímica relaciona-se à investigação de processo de transferência de elétrons, um dos eventos mais importantes para a sustentação da vida e compreensão de fenômenos biológicos como a respiração celular, a fotossíntese e a neurotransmissão. 

“Essas reações garantem funções vitais e a integridade celular”, acrescenta a estudiosa. 

A professora explica que a Eletroquímica Medicinal e suas interfaces são orientadas para resolver problemas nas ciências da vida e integram novas técnicas para monitorar, detectar e orientar moléculas ou um conjunto delas in vivo para alvos adequados, para fins medicamentosos ou para destruir células cancerosas, parasitadas e doentes.

Os primeiros estudos da professora Marília Goulart, na área da Eletroquímica Medicinal, iniciaram-se na década de 1980, relacionados às quinonas e suas atividades em Doença de Chagas, em testes in vitro. 

Conforme a pesquisadora, a eletroquímica molecular encontra-se em investigação há centenas de anos, mas a compreensão dos fenômenos em nível molecular é mais recente, resultando na Teoria de Marcus. Em 1992,o canadense Rudolph Arthur Marcus foi agraciado com o Prêmio Nobel em Química, por suas contribuições para a teoria das reações de transferência de elétrons em sistemas químicos. O avanço na área dependeu também do desenvolvimento de equipamentos mais sofisticados.

No Brasil, a ciência Eletroquímica é mais recente, com cerca de 50 anos e muito produtiva e reconhecida internacionalmente.  

Os estudos mais avançados na área tentam comparar as investigações eletroquímicas no laboratório com estudos in vivo. São usados nanoeletrodos para investigar o status redox (definido como o equilíbrio entre oxidantes ou pró-oxidantes e antioxidantes), diretamente nas células, em cérebros e outros órgãos. Dessa forma, é também investigada, por meio de estratégias biotecnológicas, com a liberação controlada de fármacos, entre outras pesquisas. 

A professora detalha que a Eletroquímica é útil no planejamento dos fármacos, na mimetização do metabolismo e no estabelecimento do mecanismo de ação molecular de uma série de substâncias eletroativas.

“Os fármacos, quando entram no organismo, sofrem uma série de transformações, que podem ativá-los ou destruir sua atividade. É necessário conhecer a fundo o processo, para a liberação do fármaco, pelos órgãos de vigilância sanitária, para o mercado. A Eletroquímica Medicinal está intimamente ligada à medicina redox (terapia baseada em estratégias relacionadas ao aumento do estresse oxidativo)  que faz uso do conhecimento do comportamento redox de fármacos em diferentes situações clínicas, com o objetivo de curar, mitigar e fazer diagnósticos”, argumenta.  

Palestra para o CRQ IV

Recentemente, a professora Marília fez uma palestra para o Conselho Regional da 4ª Região (CRQ IV), pelo seu canal do Youtube.

“Neste evento, falamos de pró-fármacos, substâncias que não são ativas na forma original, mas, que ativadas por processos de transferência de elétrons, se tornam medicamentos. Seria como se fossem mascaradas e retirassem a máscara para serem ativas”, diz. 

Marília trabalha com a classe das quinonas, representadas pela beta-lapachona, substância natural retirada das cascas de vários ipês (família Bignoniaceae), a doxorrubicina e a mitomicina, anticancerígenos de ampla utilização, além dos compostos nitroaomáticos, como o metronidazol, o nifurtimox e o benznidazol, úteis como antimicrobianos e antiparasitários.

“No entanto, estas substâncias são também perigosas: tóxicas. São chamadas de moléculas de dupla face, tipo médico e monstro. Há necessidade de modular suas atividades, para que os aspectos benéficos prevaleçam. Em resumo, a Eletroquímica Medicinal e suas ferramentas, certamente, já têm e continuarão tendo papel crucial para melhorar o bem-estar da população global em um cenário que, tudo indica, seguirá marcado pelas mais diversas mazelas que exigirão cada vez mais da pesquisa de ponta nessa área multidisciplinar”, finaliza a pesquisadora.