Sistema CFQ/CRQs participa da Expocannabis e debate a Química no uso da cannabis

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O conselheiro federal e coordenador do Grupo de Trabalho de Cannabis (GTC) do Conselho Federal de Química (CFQ), Ubiracir Lima, e o conselheiro Luiz Miguel Skrobot Junior estiveram presentes na 2ª edição da Expocannabis Brasil, realizada entre os dias 15 e 17 de novembro em São Paulo (SP). O evento reuniu especialistas e profissionais para discutir o potencial terapêutico e industrial da cannabis, abordando desde seu uso medicinal para humanos e animais até suas aplicações em diferentes produtos de consumo, como papel, celulose, roupas, concreto e cosméticos.

Em sua palestra, Lima destacou que, apesar de ainda existir controvérsias em torno do uso do termo “cannabis”, o crescente interesse por sua utilização medicinal e industrial reflete uma evolução na percepção pública sobre a planta. “Ninguém fica indiferente quando se usa o termo ‘cannabis’. Isso nos leva a um ponto interessante: a evolução no uso medicinal dessa planta nos dias atuais”, afirmou.

O conselheiro também abordou os avanços tecnológicos no cultivo e na extração da cannabis, observados por ele nesta edição do evento. “Embora eu não tenha experiência em nenhum tipo de cultivo, especialistas em agronomia confirmaram que a tecnologia disponível é excelente. Estamos avançando para acessar equipamentos de cultivo em pequena escala, mas precisamos seguir as regras específicas, que ainda limitam o cultivo a algumas finalidades”, explicou.

Em relação à responsabilidade sobre o uso da cannabis, Ubiracir ressaltou que, para uso próprio devidamente autorizado por decisão judicial, o processo produtivo pode ser de responsabilidade pessoal, mas, para distribuição e uso de terceiros, comercialização, é essencial cumprir as regras da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e, em ambos os casos, ter o acompanhamento de um profissional da medicina. “Assim como em outras substâncias, devem ser seguidas regras que garantam a segurança e a eficácia”, complementou.

Ciência e cannabis
O evento também proporcionou um ambiente para discutir a análise química da cannabis. Sobre esse ponto, o conselheiro destacou como as diversas partes da planta podem ser analisadas e como é possível identificar os componentes principais de cada uma delas por meio de métodos científicos avançados. Esta abordagem tornou-se ainda mais importante após a decisão do STJ que valida o cultivo medicinal da cannabis por empresas, após regulamentação.

“Cada parte da planta pode ser analisada quimicamente, e podemos identificar os componentes principais de cada uma delas. Para isso, são necessárias técnicas de extração eficientes, e o que está sendo apresentado aqui é impressionante, com diferentes abordagens para cada parte da planta e tecnologias variadas para a extração”, afirmou.

Dentre as técnicas de extração discutidas, a mais destacada foi a extração por CO₂ (gás carbônico) em fase supercrítica, uma abordagem de difícil acesso, mas com uma sólida explicação científica para seu uso. “Nessa técnica, o (CO₂) se transforma em líquido com polaridades específicas e, dependendo da temperatura e da quantidade de líquido no processo, é possível a extração de substâncias específicas da planta, não todas, mas algumas de forma mais precisa”, explicou Lima.

Desafios e oportunidades
Ele também ressaltou que, embora já existam produtos derivados da cannabis regularizados pela Anvisa, ainda são necessários estudos clínicos para que sejam categorizados como medicamentos e para expandir o uso terapêutico para outros tipos de tratamento. Uma questão bastante discutida é a propriedade psicotrópica atribuída ao metabólito tetrahidrocannabinol, conhecido como THC. Nesta questão, o conselheiro destacou que o único medicamento registrado formalmente na Anvisa, que possui estudos clínicos, é o Mevatil, que possui em sua composição aquela substância química.

“O medicamento de cannabis registrado contém mais THC do que CBD em fração mássica, e pode ser modulado conforme as necessidades do paciente. A composição pode ser ajustada pelo médico prescritor para atender às especificidades de cada caso”, afirmou.

Ainda sobre os usos terapêuticos, Lima e Skrobot destacaram a importância da Ciência Química ao explicar que a composição química das plantas pode variar ao longo do ano e de acordo com a região onde são cultivadas, o que pode impactar a eficácia. “A flutuação dos metabólitos tem implicações na resposta terapêutica. Isso é fundamental para o desenvolvimento de medicamentos”, afirmaram.

Simpósio
O conselheiro federal também compartilhou os planos para o 1º Simpósio de Cannabis e Química, que será realizado na Universidade de Brasília (UnB). O evento contará com o apoio do Conselho Regional de Química da 12ª Região (CRQ XII – Goiás, Tocantins e Distrito Federal) e do CFQ, com a coordenação das pesquisadoras Dra. Ana Cristi e Dra. Fernanda Vasconcelos e do pesquisador Pedro Nicoletti, além do suporte do Grupo de Trabalho de Cannabis do CFQ (GTC).

Capacitação profissional
O Sistema CFQ/CRQs tem promovido iniciativas de capacitação para garantir a orientação e formação de profissionais qualificados para atuarem na cadeia produtiva de derivados da cannabis. “Nosso foco não está no uso final, mas sim nos processos de extração, caracterização e quantificação precisa de substâncias, manipulação e controle de qualidade, essenciais para garantir a segurança do produto”, destacaram os membros do GTC, que conta ainda com a participação do presidente do CRQ IX-PR, Edward Borgo.

Neste sentido, o Sistema tem oferecido, por meio do CRQ IV–SP, uma série de lives e o curso “Química da Cannabis”. Além disso, em parceria com a coordenadora do Grupo de Trabalho de Cannabis do Conselho Regional de Farmácia de São Paulo, Dra. Margareth Akemi Kish, está sendo desenvolvido um curso de pós-graduação que abordará temas relacionados à tecnologia químico-farmacêutica. “Esses são conhecimentos essenciais para tratar a cannabis com o mesmo rigor científico que aplicamos a outros medicamentos”, concluiu Lima.