Trio leva Nobel de Química por desenvolver ferramenta para acoplar moléculas com um “clique”
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Morten Meldal, K. Barry Sharpless e Carolyn Bertozzi foram os vencedores do Prêmio Nobel de Química de 2022. Com o estudo e desenvolvimento da “Química do Clique”, os químicos Meldal e Sharpless desenvolveram as bases para uma Química de elevada funcionalidade, na qual blocos de construção molecular se encaixam de forma rápida e eficiente, inclusive em organismos vivos. E foi isso que Carolyn Bertozzi, oitava mulher a conquistar o Nobel na categoria, fez. Ela levou a “Química do Clique” para níveis celulares e mapeou biomoléculas nas superfícies de células.
De acordo com nota oficial do Prêmio Nobel de Química, transmitido nesta quarta-feira (5), às 6h45 (horário de Brasília/DF), “os químicos há muito tempo são movidos pelo desejo de construir moléculas cada vez mais complicadas. Na pesquisa farmacêutica, isso geralmente envolve a recriação artificial de moléculas naturais com propriedades medicinais. Isto levou a muitas construções moleculares admiráveis, mas estas são geralmente demoradas e muito caras para produzir.”
Barry Sharpless, que está recebendo seu segundo Prêmio Nobel de Química, começou a trabalhar neste estudo por volta do ano 2000, quando cunhou o conceito de “Química do Clique”, que é uma simples e confiável forma de promover uma ligação química, de forma rápida e sem subprodutos indesejáveis.
Pouco depois, Morten Meldal e Barry Sharpless, de formas independentes, apresentaram o que é hoje a joia da coroa da “Química do Clique”: a cicloadição azida-alcino catalisada por cobre. Esta é uma reação química elegante e eficiente que atualmente é utilizada por diversos cientistas ao redor do mundo. Entre outros usos, é usada no desenvolvimento de produtos farmacêuticos e para mapeamento de DNA.
Carolyn Bertozzi utilizou a “Química do Clique” para mapear biomoléculas importantes, mas evasivas, na superfície das células – glicanos –. Para isso ela desenvolveu reações de clique que funcionam dentro de organismos vivos. Suas reações bio-ortogonais ocorrem sem interromper a química normal da célula.
Essas reações agora são usadas globalmente para explorar células e rastrear processos biológicos. Usando reações bio-ortogonais, os pesquisadores melhoraram o direcionamento do desenvolvimento de medicamentos contra o câncer, que agora estão sendo testados em ensaios clínicos. A “Química do Clique” e as reações bio-ortogonais levaram a Química para a era da funcionalidade. Essas reações têm potencial para trazer diversos benefícios para a humanidade.
“O Prêmio de Química deste ano trata de não complicar demais as coisas, mas trabalhar com o que é fácil e simples. Moléculas funcionais podem ser construídas mesmo seguindo uma rota direta”, diz Johan Åqvist, presidente do Comitê Nobel de Química.
No ano passado, Benjamin List e David MacMillan levaram o prêmio pelo desenvolvimento de uma ferramenta de construção de moléculas, a organocatálise, útil para pesquisa de novos produtos farmacêuticos, e que ajudou a tornar a Química mais verde, segundo o comitê do Nobel.
Os prêmios envolvem uma quantia de cerca de 10 milhões de coroas suecas – o equivalente a US$ 900 mil e quase R$ 5 milhões – e serão entregues em dezembro deste ano. Além do dinheiro, os vencedores recebem um diploma e uma medalha de ouro.
Prêmio Nobel
O Prêmio Nobel teve início após a morte do químico sueco Albert Nobel, aos 63 anos, em 1896. Ele inventou a dinamite e foi responsável pelo desenvolvimento da borracha e do couro sintético.
O primeiro Prêmio só foi entregue em 1901. A pessoa mais jovem a receber um Nobel até hoje foi a estudante paquistanesa Malala Yousafzai, em 2014, aos 17 anos. Malala recebeu o Nobel da Paz em reconhecimento a sua luta para que meninas e mulheres tivessem acesso à educação no Paquistão. Já a pessoa mais velha foi o químico John B. Goodenough, aos 97 anos, em 2019. Até o momento, nenhum brasileiro ou brasileira ganhou o Prêmio Nobel.
Até 2021, das 947 pessoas e 28 organizações premiadas, apenas 58 eram mulheres. Antes de Carolyn Bertozzi, outras sete mulheres levaram, até hoje, o Nobel de Química – Marie Curie, em 1911; Irène Joliot-Curie, em 1935; Dorothy Hodgkin, em 1964; Ada E. Yonath, em 2009; Frances H. Arnold, em 2018; Emmanuelle Charpentier, em 2020; e Jennifer A. Doudna, também em 2020.
A seleção dos vencedores é feita por comissões científicas da Suécia (com exceção do Nobel da Paz) e é tradição não revelar os indicados antes da premiação. Além da Química, o Prêmio possui outras cinco categorias, como Medicina, Física, Literatura, Economia e Paz.