Química a serviço do mel: pesquisas em Alagoas unem estudantes, apicultores e inovação

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Estudos desenvolvidos ajudam a identificar a origem botânica do mel, avaliar a qualidade da própolis e ampliar o conhecimento sobre os produtos apícolas da região, aproximando a ciência das demandas dos produtores

Uma mudança na coloração do mel produzido em Penedo, no interior de Alagoas, despertou a curiosidade de apicultores e abriu caminho para uma investigação científica. Em determinadas épocas do ano, o produto apresentava tonalidades mais escuras, levantando dúvidas sobre sua origem e características. A resposta começou a ser buscada nos laboratórios do Instituto Federal de Alagoas (IFAL), onde a Química Analítica passou a investigar um fenômeno observado diretamente no campo. 

A partir dessa demanda, surgiram três pesquisas que ajudam a compreender melhor o mel e a própolis produzidos na região. Os trabalhos investigam a origem botânica, a qualidade e a conformidade dos produtos comercializados com os padrões estabelecidos pela legislação brasileira.  

Os projetos são coordenados pela conselheira do Conselho Regional de Química da 17ª Região (AL), Elisangela Costa Santos, e desenvolvidos por estudantes do IFAL Campus Penedo. Até o momento, a equipe já coletou cerca de 22 amostras de mel e dez de própolis tanto na cidade e em municípios vizinhos. “Nosso objetivo é que os estudantes possam conhecer onde a Química está inserida e como ela pode ajudar o setor produtivo local. É uma formação técnica, mas também uma aproximação com a realidade do campo”, destaca a pesquisadora. 

Para Elisangela, os estudos mostram como a Química pode contribuir para a valorização dos produtos naturais e para a segurança do consumidor. “Mel e própolis são produtos naturais de alta complexidade Química e valor comercial elevado. Por isso, são alvos frequentes de adulteração. A análise Química rigorosa é a única forma de garantir que o consumidor receba um produto puro e seguro”, afirma. 

 

Da origem botânica à qualidade do produto


Um dos trabalhos desenvolvidos usa a Cromatografia Líquida de Alta Eficiência (HPLC) para identificar a origem botânica do mel por meio de marcadores químicos, especialmente flavonoides. A técnica permite comparar o perfil químico das amostras com as características associadas a determinadas espécies vegetais, oferecendo aos produtores uma forma científica de investigar a origem do produto. 

“Muitos apicultores acreditam que o mel vem de determinada planta, mas nem sempre conseguem comprovar isso. Com os flavonoides característicos, conseguimos apontar se existe ou não a possibilidade daquela origem botânica”, explica Elisangela. A identificação da planta de origem pode agregar valor ao mel, já que diferentes espécies vegetais influenciam características químicas, sensoriais e comerciais do produto. 

A pesquisa envolve visitas aos apiários, coleta periódica de amostras e análises laboratoriais capazes de indicar, por meio dos marcadores químicos, a provável origem vegetal do mel. Esse é o trabalho acompanhado pelo estudante de Química Industrial (bacharelado), Doriedson Silva Santos Junior. Ele participa desde o início dos trabalhados e relata que “o contato com a apicultura me mostrou como a Química está presente em todo o processo da produção do mel, seja em questões climáticas, como a necessidade de chuvas para abrir ou fechar a florada, seja nas técnicas adequadas para fazer as análises”.  

 

Própolis alagoana também é estudada


Outra frente de pesquisa concentra-se na própolis e seu objetivo é aperfeiçoar a extração de compostos bioativos usando um delineamento simplex-centroide, uma metodologia estatística aplicada ao planejamento experimental. Já foram analisados compostos fenólicos, flavonoides, teor de cinzas e umidade das amostras. Além disso, o trabalho amplia o conhecimento sobre variedades de própolis ainda pouco estudadas em Alagoas. 

A estudante de Química Industrial (bacharelado), Juci Alana Santos Silva, participou desse projeto cujos resultados indicaram diferenças no desempenho dos solventes usados na extração dos compostos bioativos, com destaque para a acetona em comparação com o etanol. Para Juci, porém, o principal retorno da pesquisa está na capacidade de transformar dados laboratoriais em informações úteis para os produtores. “Não queremos apenas entregar números, mas explicar o que esses resultados significam e como podem ajudar o produtor”, afirma. 

 

Garantia da qualidade do mel comercializado 

O terceiro estudo acompanha os parâmetros físico-químicos do mel comercializado na região, avaliando características como acidez, umidade, condutividade elétrica, teor de sólidos solúveis e hidroximetilfurfural (HMF), indicador relacionado ao superaquecimento ou armazenamento inadequado do produto. Os resultados obtidos até agora mostram que a maior parte das amostras analisadas atende aos padrões estabelecidos pelo Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade do Mel.  

O estudante do curso Técnico em Química, Anthony Samuel Silva dos Santos, integra a equipe responsável por esse monitoramento. “Foi uma experiência única e muito enriquecedora. Confesso que fiquei um pouco perdido no início devido à quantidade de parâmetros, muitos que eu ainda não havia visto. Mas fui aprendendo e aperfeiçoando”, conta. Segundo Anthony, as análises também revelaram como fatores ambientais e a diversidade das abelhas influenciam as características do mel. A experiência despertou seu interesse pela pesquisa e pelo controle de qualidade de alimentos.