Mulheres na Ciência: simpósio na RASBQ reúne professoras e evidencia desigualdade na academia

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Hoje as mulheres estão cada vez mais presentes na Ciência e em instituições acadêmicas. Mas será que as condições e as oportunidades nesse e em tantos outros meios são as mesmas para homens e mulheres? Essas e outras questões foram levantadas durante o simpósio “Populações femininas desassistidas: diagnóstico, ações reparadoras e inspirações”, realizado na terça-feira (30), durante a 46ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Química (RASBQ), em Águas de Lindoia (SP).

O debate foi coordenado pelo Núcleo Mulheres SBQ, criado em janeiro de 2019 e lançado oficialmente em maio do mesmo ano, na 42ª Reunião Anual da SBQ, em Joinville (SC). O objetivo do Núcleo é fornecer dados e destacar a grande contribuição feminina no cenário da Química no país, estimular o debate e diminuir a desigualdade de gênero na área, em todos os níveis, além de contribuir para a formação de lideranças femininas.

A geóloga Adriana Alves, da Universidade de São Paulo (USP), abriu o debate colocando alguns títulos importantes em sua vida: além de tantos graus acadêmicos, ela é ativista na luta antirracista e mãe. Antes de começar seu discurso, ela relatou o que parece ser a realidade de uma grande parcela de mulheres que também estão no mercado de trabalho e na academia.

“Antes de eu vir para esse simpósio, tive que prestar toda assistência para meus filhos, como dar comida, pentear os cabelos, vesti-los, levá-los para a escola para só depois conseguir vir para cá. Normalmente o homem, quando é convidado para esses eventos, ele só vai”, afirmou.

A partir da temática “A importância de conhecer para transformar: movimento censitário nas diferentes áreas STEM (sigla em inglês para Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática)”, a professora alegou que “é preciso quantificar o problema para propor soluções eficientes”. Com um estudo, Adriana e a equipe mapearam indicadores, propuseram políticas e parcerias para diminuir a desigualdade de gênero e promover ações que levassem a mudanças culturais no âmbito institucional. “Além de incorporar a diversidade de gênero e racial, é preciso pensar também em um conceito de justiça econômica para inserir mulheres nesse meio”, destacou.

Segundo Adriana, a USP já vem desenvolvendo mudança cultural por meio de campanhas e, em especial, na nomeação das violências sofridas. “Existem outros tipos de violência contra as mulheres além da moral e sexual, e essas violências desestimulam mulheres a galgarem lugares de destaque na Ciência”, lamentou. “É preciso nomear as violências para combatê-las, muitas não sabem fazer isso e muitos homens não sabem que a praticam”, completou.

Adriana apresentou alguns dados, como os de que, até 2015, o número de ingressantes em cursos de Engenharia, por exemplo, eram majoritariamente homens e 97% eram brancos. Nos cursos de Química na USP, também até 2015, 70% eram homens. “Agora a proporção de mulheres tem crescido, mas precisamos rever essa cultura porque é na Engenharia que estão cursos que pensam as grandes inovações tecnológicas. Precisamos ter uma diversidade maior nesse meio, que reflita a nossa atualidade. Quanto maior a igualdade de gênero, maior o crescimento econômico de um país”, disse.

“Mimimi”
A professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Sabrina Baptista Ferreira começou indagando “Equidade de gênero na Universidade: será ‘mimimi’?”. De acordo com um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU), o ODS 5, é preciso promover a igualdade de gênero. “Nós somos 50% da população mundial, então trazer esses acessos, promover essa igualdade é extremamente importante”, opinou.

Números da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) mostram que as mulheres ainda são sub-representadas na Ciência – são apenas 30% em todo o mundo. E quando se fala em igualdade de gênero, Sabrina ressalta que é preciso dar um passo atrás. “O ODS 5 prevê igualdade de gênero, mas para alcançá-la é preciso equidade. Parecem a mesma coisa, mas são completamente diferentes. A equidade é o caminho para se chegar à igualdade”, resumiu.

Outro dado conhecido entre as mulheres é o de cuidados. Majoritariamente, recai sobre elas a função de cuidar de crianças e idosos. “É cultural, o homem se dedica ao trabalho e a mulher, à casa. Durante muito tempo, isso ocasionou em um número menor de mulheres no ensino superior. Hoje, elas representam 57% nas universidades”, comemorou.

Mas não há muito o que celebrar. As mulheres, segundo dados apresentados por Sabrina, deixam progressivamente suas carreiras em algum momento da vida. Alguns fatores, como maternidade, assédio e discriminação, impedem a mulher de chegar ao mais alto escalão dentro da academia. “Na produção de artigos científicos, a média cai drasticamente quando a mulher se torna mãe. Ela volta a produzir, em média, quando a criança está com cinco anos”, constatou.

Para a professora, a pandemia escancarou essa realidade, que estava escondida das academias. “Esse período ajudou a dar visibilidade ao problema; porque ele existe desde muito antes. A pandemia mudou a dinâmica dentro da academia, porque muitas mulheres perderam rede de apoio. E entendam, a maternidade não é ruim, porque quem tem filho vira PhD de habilidades interpessoais: como resiliência, habilidades de comunicação, negociação, capacidade de resolver problemas em tempo recorde, gestão de tempo, e criatividade, tudo que a gente precisa usar dentro da pesquisa”, elencou.

Ela relatou algumas ações que já são desenvolvidas na UFRJ, como reconhecimento de pausas para discentes; resolução para cuidadores e de ações afirmativas (com fator de correção para mães com filhos até cinco anos de idade); regulamento aprovado para alunos que necessitam faltar por urgência médica da criança, e Projeto Mães na Universidade: acesso, permanência e progressão de mulheres. “O que nós pedimos não é ajuda, não é privilégio, é equidade. O que a pessoa chama de mimimi é uma dor que não é dela”, finalizou.

Química no empreendedorismo
Do Instituto de Química da Universidade Federal do Ceará (UFC), a professora Conceição Oliveira contou a iniciativa desenvolvida com outras três mulheres. Juntas, elas criaram uma startup, a 4W Biotech, que tem como objetivo promover saúde e bem-estar, com soluções inovadoras, inspiradas na biodiversidade brasileira – e o principal: desenvolvida por mulheres.

Conceição trouxe números do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), que mostram que pouco mais de 30 milhões de pessoas empreendem no Brasil, mas que somente 34,4% são mulheres. “São muitos os obstáculos. As mulheres fazem jornada tripla de trabalho, então se dedicam pelo menos 17% a menos de horas nas empresas. Mas são elas que empregam mais”, alertou. Ainda segundo o SEBRAE, 73% dos empreendimentos liderados por mulheres são majoritariamente femininos.

A professora apresentou algumas ações desenvolvidas dentro da universidade cearense voltadas para o empreendedorismo, que atingem desde pós-graduações a estudantes que querem ingressar na Química nas universidades. Segundo ela, “pequenas ações podem gerar grandes impactos”.

“Eu sempre falo para os meus alunos que eles têm que ter, sim, a autoestima muito elevada, porque para onde a gente olha a gente enxerga a Química, é como se fôssemos os donos do mundo”, brincou.

SBQ
O tema da 46ª Reunião Anual da SBQ, “Química: Ligando ciências e neutralizando desigualdades”, propõe aos participantes várias reflexões sobre as desigualdades observadas, em diferentes níveis, de como as ciências e principalmente a Química podem contribuir para a sua mitigação. A escolha do tema foi pensada na celebração dos 100 anos das principais teorias ácido-base.