XXI ENEQ: Professores defendem construção de pensamento crítico em sala de aula
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A Base Nacional Comum para a Formação Inicial de Professores da Educação Básica (BNC-Formação), implementada pelo Plano Nacional de Educação (PNE) do Ministério da Educação, foi o principal objeto de discussão em mesa de debate durante o XXI Encontro Nacional do Ensino de Química (ENEQ). O evento foi realizado entre os dias 1º e 3 de março, na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), e contou com a participação do Conselho Federal de Química (CFQ).
A programação, anunciada com o tema “Diretrizes Curriculares Nacionais da Formação de Professores: caminhos para (in)subordinação criativa?”, convidou a Profa. Dra. Juliene Vasconcelos (IFTM) e o Prof. Dr. Gerson Mol (UnB) para a mesa.
Os palestrantes discutiram uma insubordinação criativa, entendendo que os professores precisam ser formados para melhorar o cenário atual da sociedade, e não apenas reproduzir o conhecimento e, consequentemente, o sistema atual, sendo essa a subordinação criativa.

Segundo Gerson Mol, o documento propõe questões que não estão de acordo com o que professores e pesquisadores da educação defendem.
“Nós defendemos um professor que leve para a sala de aula uma postura crítica. Reconhecemos que nossa sociedade é muito injusta, e possui uma série de desequilíbrios, e entendemos que a educação tem um papel fundamental na mudança desse cenário”, explicou o professor.
Aprofundando ainda mais a discussão sobre o conteúdo que o professor leva para a sala de aula, Juliene Vasconcelos explicou e criticou a perspectiva da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que diz que os professores apenas reproduzem o reconhecimento.

“Neste entendimento, o professor apenas joga o conhecimento e o aluno irá absorver, mas de acordo com a condição que ele tem. Quem absorveu, ótimo, se torna um número positivo. Quem não absorveu, problema. A partir disso, não consideramos questões sociais, de igualdade e equidade. Não é esse o professor que acreditamos”, disse Juliene.
A professora ainda defendeu que o conteúdo deve ser apresentado, já que a escola pública pode ser o único meio por onde os filhos da classe trabalhadora terão acesso a ele, mas com ciência de que o aluno precisa muito mais do que só o conteúdo.
“Precisamos entender que, por meio desses ensinamentos, o aluno irá aprender a pensar, e se apresentar de forma afetiva e planejada, para que ele possa fazer a transformação da sua aprendizagem. Não só um ensino para aprender a apertar parafuso, mas para entender por que ele precisa apertá-lo.”
O novo ensino médio também foi discutido como um ponto negativo nesta construção, já que, ainda de acordo com Juliene Vasconcelos, há uma falsa retórica de uma formação para o trabalho retirando ou minimizando a base científica, fortalecendo o “saber fazer”, que é a prática.
“Se essa prática não dá certo, o que acontece?”, perguntou Juliene. “As consequências são a longo prazo, e nessa perspectiva nos perguntamos em qual professor acreditamos, e eu acredito no professor que irá fazer uma construção cidadã social, e para isso precisamos ensinar muito mais do que o conteúdo específico. Precisamos saber sobre a vida, democracia e da psicologia do ensino para englobar o sujeito em sua totalidade, e não só em uma perspectiva utilitarista”, concluiu.
Para Juliana Furlani, professora dos cursos de Licenciatura da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), o debate serviu para esclarecer diferentes perspectivas sobre o ensino.
“Estamos lutando contra uma posição de mercado que estabeleceu essas diretrizes educacionais mais recentes, e desde que a maioria dos alunos do ensino superior hoje estão na rede privada, somos minoria na formação de professores. Com isso, será que nossa demanda será atendida?”, questionou Juliana.
Carta aberta
A conselheira federal do CFQ Silvana Calado esteve presente no debate, e ponderou a possibilidade da produção de uma carta aberta para que essas demandas fossem levadas adiante.
“Avalio como importante nos juntarmos ao Conselho Federal de Química e outras partes interessadas para que façamos uma carta aberta à sociedade, descrevendo as intenções desse ensino que a gente precisa”, sugeriu.