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Projeto inovador promete transformar CO₂ em combustível limpo

Imagine retirar gás carbônico (CO₂) de locais com alta concentração e transformar em um combustível verde – não poluidor – e que pode abastecer veículos automotores, entre outras aplicabilidades. Esta é a proposta de um projeto que está sendo desenvolvido dentro do Centro de Tecnologia da Indústria Química e Têxtil do Senai (CETIQT), instalado na cidade do Rio de Janeiro.

“O projeto tem como objetivo desenvolver um processo que converte dióxido de carbono em um óleo bruto que consiste basicamente em uma mistura de hidrocarbonetos de diversos tamanhos de cadeia e que pode ser comparado a um tipo de petróleo que, por sua vez, pode ser fracionado em vários produtos”, conta o coordenador do projeto, o engenheiro químico e mestre em Engenharia de Processos Químicos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, João Bruno Valentim Bastos.

Para Valentim, lidar com os desafios de reagir o CO₂ em condições viáveis é um campo vasto de desenvolvimento e oportunidades para a Química de forma geral.

Chamado de “CO₂ to chemicals”, o projeto é resultado de uma parceria entre a petroleira REPSOL SINOPEC Brasil, Hytron (empresa de tecnologia localizada em Campinas), SENAI CETIQT e Universidade de São Paulo, com o apoio financeiro da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (EMBRAPII) e da Agência Nacional do Petróleo (ANP).

O pesquisador explica que o projeto é inédito no Brasil, e a técnica é oriunda exclusivamente da Química. “O conceito geral do processo não é inédito a nível mundial dada à necessidade de se encontrar caminhos que levem a uma economia de baixo carbono. A questão é a viabilidade das potenciais tecnologias dada à baixa reatividade do CO₂”, afirma Valentim.

De acordo com o engenheiro do CETIQT, o projeto deverá utilizar três insumos principais: eletricidade de fonte renovável, CO₂ e água, e que, após pelo menos duas etapas reacionais, deverão ser convertidos em gases leves (metano, etano e propano) e em um óleo composto por hidrocarbonetos de variados tamanhos de cadeia molecular. “Este óleo será similar a um petróleo e poderá então ser processado em infraestrutura existente para obtenção de combustíveis (gasolina, querosene de aviação, etc.) e insumos petroquímicos para obtenção de outros produtos químicos e materiais”, assegura.

A primeira fase do projeto deve ficar pronta em 24 meses quando será entregue uma unidade piloto, montada modularmente em container e produzindo um óleo cru, um hidrocarboneto verde.

“O conceito de plantas químicas modulares, unidades industriais transportáveis, está ganhando força em todo mundo. Um hidrocarboneto verde é um hidrocarboneto idêntico ao que conhecemos, porém, obtido de uma matéria prima renovável através de um processo sustentável. Por exemplo, a gasolina que poderá ser obtida a partir do óleo produzido neste projeto será idêntica à gasolina que já utilizamos em nossos carros, entretanto, sua origem não será o petróleo, e sim, o próprio dióxido de carbono”, esclarece.

O desempenho do combustível verde a ser obtido por meio da nova tecnologia em desenvolvimento será idêntico ao dos produtos atuais de origem fóssil.

“A Química é fundamental na viabilização de uma economia de baixo carbono, que seja sustentável, e que ao mesmo tempo garanta os níveis de bem-estar atual para todas as pessoas. Pensar nos resíduos como potenciais matérias-primas talvez seja o próximo grande marco de contribuição da Química para a sociedade”, pontua o pesquisador.