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Vida de fiscal: uma volta ao mundo na direção, onças, sucuris e orgulho de defender a Química

A atividade-fim do Sistema CFQ/CRQs é fiscalizar a atividade da Química no país e verificar a capacitação dos profissionais que prestam serviços e elaboram produtos que são utilizados no cotidiano de todos os brasileiros.

Se você compra algo no supermercado, como um xampu por exemplo, você tem a tranquilidade de saber que há um responsável, habilitado e registrado, por trás da fabricação daquele produto. E assim se dá em relação a quase todos os artigos que entram em sua casa e são utilizados por você e por sua família. Mas quem garante que os produtos são realmente seguros? O Sistema CFQ/CRQs. Mas como é possível dar essa garantia? Pelo trabalho dos agentes fiscais.

Aos agentes fiscais cabe visitar todas as empresas que atuam no ramo da Química e verificar, in loco, se os responsáveis técnicos têm capacitação para exercer suas funções – entre outras questões relevantes para a sociedade. Mas quem são essas pessoas? De perfis variados, realidades diferentes, eles estão distribuídos ao longo das 27 unidades da federação, nos 21 Conselhos Regionais de Química (CRQs).

Um Estado do tamanho de um país, com três biomas diferentes

Cumprir a missão muitas vezes exige grandes esforços. Um exemplo ilustrativo das dificuldades é o cotidiano do agente fiscal Marcos Zanchet, que desde 1994 atua na fiscalização do Estado do Mato Grosso. O Mato Grosso é um Estado com características muito próprias, a começar pela extensão: com seus mais de 900 mil km2 , tem quase o dobro da área territorial de países como a Espanha. Isso tudo sem contar as condições climáticas nem sempre favoráveis, distribuídas em três vegetações diferentes: o pantanal, o cerrado e a Floresta Amazônica.

Quando Zanchet ingressou no Sistema CFQ/CRQs, a química do Mato Grosso se reportava ainda a São Paulo. Não havia um Conselho Regional de Química com sede em Cuiabá – O CRQ XVI só seria criado em 1997. A seleção em que ele foi admitido, relembra, ficou a cargo do hoje conselheiro federal suplente Wagner Contrera Lopes e superintendente do CRQ IV (São Paulo).

“Com a criação do CRQ IV, me perguntaram se eu queria atuar em São Paulo ou se preferia me ligar ao novo Conselho, mas preferi ficar em Cuiabá”, lembra Zanchet.

Arma apontada para o rosto, vontade de desistir e idas a São Paulo

Até então, ele atuava em Cuiabá e, a cada três meses, se dirigia a São Paulo para despachar com a chefia. O restante do tempo era atuar prioritariamente sozinho, com seu carro, visitando empresas e profissionais – o que é bem mais difícil do que parece.

“Nesse tempo todo de atuação, de tudo já aconteceu comigo. Até arma apontada pra cara já tive…”, relembra Zanchet.

Ele recorda que as dificuldades eram tantas que ele chegou ao ponto de ligar para Contrera Lopes avisando que pediria demissão.

“Mas aí, vinha o Wagner e me dizia… Calma, calma.. Tira uma semana de licença e vem aqui pra gente conversar. Eu fazia isso, e ele sempre me demovia. Estou aqui até hoje”.

 Muitos problemas no cotidiano de fiscalizar o Mato Grosso provinham da presença incipiente do próprio Sistema no Centro-oeste e no Norte do Brasil. O agente fiscal relata que as empresas não reconheciam a fiscalização e desconheciam a existência do CRQ. Diante da atuação, não raro havia hostilidades que resultavam em boletins de ocorrência e desestímulo.

Com a estruturação do CRQ XVI, ao longo dos anos, a condição melhorou consideravelmente. Em 2019, a partir de uma iniciativa de apoio do Conselho Federal de Química, foi possível fazer um plano ousado de fiscalização: visitar ao longo de um ano todos os 141 municípios do Mato Grosso. Há casos extremos de distâncias rodoviárias, como Colniza, a 1.030 km de Cuiabá, ou Vila Rica, a 1.120 km da capital. Gaúcho de Porto Alegre, Zanchet, radicado no Mato Grosso há muitos anos, aprendeu a construir seus roteiros de visita respeitando as muitas variáveis regionais: determinados municípios são acessíveis apenas na época de seca, por contra das estradas de chão batido, outros possuem acessos mais fáceis… A regra, porém, é que os roteiros se estendam por até 3 semanas e incluam sempre que possível o maior número de municípios e vistorias.

 

2019, o ano para Zanchet dar uma volta ao mundo sem sair do MT

Assim foi traçado o desafio de 2019: 141 municípios, com direito a 1.500 vistorias e 40.000 km rodados, o que equivale a uma volta inteira no planeta Terra. Em 2020, por conta da pandemia, a façanha não pode ser repetida.

Ao longo desses quase 30 anos, não faltaram histórias pra contar. Barro na estrada, carros atolados, mas também muitas amizades e a experiência de, como poucos, conhecer cada palmo do Estado.

“Até hoje, em cada canto do Mato Grosso que eu passo, recebo convites de amigos para jantares, churrascos…”, afirma o agente fiscal, com o sotaque gaúcho ainda presente e reforçado pela convivência com a larga colônia sulista espalhada pelo Oeste brasileiro.

Na lista de momentos difíceis e curiosos, os animais silvestres ganham destaque.

“Eu vi uma onça uma vez, perto de Colniza, quase na divisa com o Pará. Estava meio que chovendo, já era outubro, eu tinha que ir lá fazer um trabalho junto à prefeitura e algumas agroindústrias de lá… Aconteceu que a estrada era estreita, aberta pelos fazendeiros da região. Quando um carro vai e um caminhão vem no sentido contrário, tem que esperar porque os dois não passam. Numa daquelas, meio escuro, vejo ela bebendo água. Engraçado é que ela nem correu, saiu devagar…”, ri, complementando que “esse tipo de coisa só acontece no Mato Grosso”.

“Tem ainda o caso da sucuri. Quando você anda na estrada e aparece uma sucuri, não há o que fazer. Pare o carro e espere ela passar”, caçoa.

Em uma espécie de balanço da carreira de agente fiscal, ele recorda que uma certa imprudência da juventude não existe mais, o que não o impede de rir de certas situações.

“Hoje, isso tudo é aventura. Mas na época era perrengue”, comenta.

A morte passou por perto: as estradas e seus perigos

Dirigir 40.000 km em um ano, em estradas brasileiras, implica correr riscos. Zanchet lembra muito bem de uma viagem que fazia de Itaúba para Sinope. Era uma estrada de pista simples e ele ultrapassava uma carreta bitrem, caminhões cujo conjunto muitas vezes chega aos 30 metros de comprimento. Zanchet dirigia um Gol 1.6 e havia iniciado uma ultrapassagem. O caminhoneiro, por sua vez, iniciou ao mesmo tempo ele uma ultrapassagem sobre o veículo da frente, sem ver o carro dirigido pelo agente fiscal do CRQ XVI – possivelmente em função do que se conhece como “ponto cego”, quando um carro fica oculto, fora do ângulo de observação dos espelhos.

“Vi a morte, e não foi apenas nessas situações em que me apontaram revólver. É a mão de Deus…  Eu estava “embalado” para ultrapassar, só buzinei e tirei o carro para o acostamento. Só que o acostamento infelizmente sempre tem desnível, restos de terra… Senti os galhos pegando no retrovisor esquerdo, pertinho do rosto. Ele não fez por querer, freou a carreta. Eu tirei o pé do acelerador e me perguntei se era a minha hora. Pisei no freio e consegui estabilizar. Andei mais um pouco e dali a pouco vi uma entrada de uma fazenda. Minhas pernas tremiam tanto que eu mal conseguia ficar de pé”, relembra.

Zanchet: fiscalizar exige dedicação e cobra preço na vida familiar

Tanto tempo longe de casa nas vistorias cobram um preço: a vida familiar sempre foi difícil.

“Tive três casamentos”, afirma, destacando que no momento vive só. Os dois filhos, do primeiro casamento, já são adultos. Um vive em Los Angeles (EUA) e outro atua na área do Direito, em Cuiabá. O próprio Zanchet, que é técnico em Química, também é formado em Direito – profissão muito pouco exercida. Dos filhos, muito orgulho. Apesar da ausência prolongada.

“Graças a Deus a jaboticaba não cai longe do pé. Longe de mim dizer que fui o melhor pai do mundo, mas quando pude estar próximo sempre procurei dar o melhor exemplo”, assinala.

A aposentadoria ainda não está no horizonte, até porque Zanchet é um apaixonado pelo que faz.

“Em novembro eu completo 60 anos de idade, mas sou sincero. Não tenho pressa de me aposentar. Tenho saúde e me sinto bem, gosto do que eu faço. Moro sozinho, viajo e não tenho preocupação com nada. Gosto dessa vida!”