Notícias

Vida de fiscal: jeito carioca e conhecimento da “área” para garantir a segurança da população

A missão do Sistema CFQ/CRQs é zelar por todos os brasileiros: fazer com que, através da fiscalização, seja possível assegurar à população que os serviços e produtos da área Química que chegam para o consumo e uso de suas famílias é fabricado ou disponibilizado por profissionais capacitados para essa tarefa.

Todos nós, todo o tempo, consumimos produtos da área Química. Alimentos, produtos de limpeza, higiene… Mas como ter certeza que cada produto disponível na gôndola do supermercado é seguro para seu consumo? Como saber se as especificações técnicas, as quantidades de cada elemento presente nos rótulos dos produtos, são respeitadas? Simples: você pode confiar porque o Sistema CFQ/CRQs fiscaliza e orienta os fabricantes, exigindo deles a contratação de profissionais qualificados para atestar o que você adquire.

Na “ponta da linha”, visitando cada estabelecimento comercial ou industrial que lida com áreas afins da Química, está um personagem desconhecido da maioria das pessoas: o agente fiscal do Sistema CFQ/CRQs ou, simplesmente, o fiscal. Mas quem são esses profissionais?

Na série “Vida de fiscal”, o Conselho Federal de Química (CFQ) convida a população a um mergulho nesse universo. É uma forma de ter contato com esses profissionais que cruzam o país de norte a sul para proteger a todos nós.

Amor pela Química e a autodescoberta do fiscal

Na nossa história de hoje, o personagem é um agente fiscal do Conselho Regional de Química da 3ª Região (CRQ III), responsável pelo estado do Rio de Janeiro. Jesiel Alves, de 51 anos, atua desde 1996 no setor de fiscalização do CRQ fluminense. Metade de sua vida. Morador da zona oeste carioca, do bairro de Campo Grande, tem o humor fácil – e um certo “bairrismo” com a sua área, reconhecidamente distante da Cinelândia, no centro do Rio, onde fica a sede do CRQ.

“Campo Grande não fica longe do centro do Rio… O centro do Rio é que fica longe de Campo Grande”, afirma, entre risos, para fazer piada com os 55 km diários que tem de fazer entre o bairro que reside e o local de trabalho.

Jesiel entrou pela primeira vez no CRQ-III para atuar como estagiário. Pretensões? Não havia muitas. Seria um trabalho passageiro, em tempos de faculdade, um ponto de parada no impulso a outros destinos.

“Havia um programa de estágios no CRQ-III e foram até minha faculdade. Não sabia muito bem o que era, mas aí acabei me interessando e ficando. Estou lá esse tempo todo!”, afirma.

Jesiel integra a equipe de cinco fiscais do conselho. Em alguns dias, ele deixará as ruas para atuar na coordenação do serviço – atividade que já exerceu, brevemente, no passado.

A rotina de fiscal no conselho fluminense é diferente de outros estados, onde as distâncias geográficas são consideráveis. No Rio de Janeiro, grande parte dos estabelecimentos a vistoriar ficam ou dentro da Cidade do Rio ou na Região Metropolitana, o “Grande Rio”. Deslocamentos maiores são previamente programados.

“Mas a gente perde mais tempo em engarrafamentos no Rio do que exatamente fazendo as viagens”, compara.

Profissional da Química e fiscal tem visão ampla da atividade

Há, porém, atrativos que fazem da função de fiscal algo instigante: poucos profissionais da Química têm a oportunidade de conhecer tão a fundo, de maneira tão diversificada, os horizontes e a variedade de atividades que se pode executar dentro da Química.

“Isso ainda é empolgante, mas era ainda mais quando me formei. Como fiscal, eu tinha acesso a todo tipo de empresa da área, de tecnologia… Para mim era bem interessante esse contato variado”, afirma.

A vida de fiscal nem sempre é fácil. A maioria das empresas, e mesmo das pessoas, certamente não gosta de ser fiscalizada. A situação já foi pior, revela Jesiel: de um tempo para cá o Sistema CFQ/CRQs se tornou mais conhecido da sociedade e a visita de um fiscal não é mais vista como uma coisa de outro mundo – ou uma tentativa de golpe como tantas que existem por aí.

“Sempre existe um certo desconhecimento das atividades da Química e mesmo da atuação do Conselho”, atesta.  “Mas hoje eu acredito que essa questão de ter de mostrar do que se trata o CRQ, isso diminuiu bastante. Outros órgãos locais de vigilância, as prefeituras, acabam orientando as empresas que iniciam suas atividades na área da Química ”.

No estado do Rio de Janeiro, como se poderia supor, existe um elemento complicador adicional: o poder público tem dificuldades para se estabelecer em algumas áreas. Jesiel consulta sua experiência para atestar que essa realidade sempre existiu: mas que a gravidade aumentou de uns anos para cá, o que é fato.

“Isso já existia, mas com certeza não havia uma postura tão agressiva, de fechar os territórios. Quando entrei no Conselho, os episódios mais marcantes eram aqueles em que parávamos dentro de comunidades. No máximo os caras falavam pra gente sair de lá, com tranquilidade”.

Atuação no Rio exige conhecimento do território

Esse cenário indica que o agente fiscal do CRQ III precisa necessariamente conhecer a área em que atua. Esse cálculo de risco, de saber onde e em que momento é mais indicado transitar, pertencem ao cotidiano do trabalho.

“No ano passado, tive uma situação de maior tensão, quando fui parado por homens armados e consegui explicar o que estava fazendo ali. Antigamente não sei se a diferença era que eu era mais jovem, talvez sem noção dos perigos, mas dessa vez realmente foi diferente”, relembra.

No CRQ III, a segurança dos servidores é vista como prioridade máxima. Os roteiros dos fiscais levam em conta todos esses fatores. Com o tempo, soluções para mitigar riscos foram desenvolvidas: a fiscalização ocorre de todo jeito. Mas o propósito é garantir aos moradores do Rio de Janeiro a qualidade de serviços e produtos da Química sem expor a equipe à violência urbana.

Rotina da fiscalização seduz: “não conseguiria fazer outra coisa”

A partir de agora, na nova posição de coordenador da equipe, Jesiel pretende passar sua experiência para os fiscais mais novos.

Mas nem só de riscos e de limitações se faz o cotidiano dos fiscais cariocas e fluminenses. Outro ensinamento que Jesiel promete levar a quem chega é que existe uma tarefa nobre a cumprir e que a satisfação em servir bem à população se sobressai no final. E isso é mais importante que tudo.

“A função do conselho é muito nobre. Trabalhamos para proteger a sociedade contra a má atuação de empresas e profissionais da Química. Acho fundamental e é o que me empolga até hoje”, orgulha-se.

No caso de Jesiel, mais uma vez o que era pra ser efêmero se tornou duradouro. Como acontece com muitos profissionais, ingressar no Sistema CFQ/CRQs virou uma escolha de vida.

“Hoje não consigo me ver fazendo outra coisa. Gosto muito e me identifiquei com essa atividade, não conseguiria me desvencilhar do conselho nem que quisesse”, comenta.