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Vencedora do Nobel de Química: “A ciência é uma maneira maravilhosa de usar a criatividade”

Frances Arnold, uma simpática engenheira química americana de 63 anos, poderia passar despercebida em diversos ambientes. Mas, em 2018, ela entrou pro grupo seleto de ganhadores do Nobel de Química – foi apenas a 5ª mulher laureada, ao se juntar a um panteão da Ciência mundial ao lado de outros 172 homens.

Frances esteve em Brasília na terça-feira (21/1) para uma série de eventos e apresentou as bases de seu trabalho científico, a condução do que ficou conhecido como “evolução dirigida” (a alteração química de enzimas para que atendam a aplicações em benefício da sociedade, como a produção de medicamentos ou de combustíveis menos poluentes) para cientistas brasileiros na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

À reportagem, em uma rápida conversa, ela defendeu que a Química deve se aproximar de outras ciências, em especial a Biologia, e destacou que a sustentabilidade deve nortear a Química do futuro. Leia a entrevista:

Conselho Federal de Química (CFQ) – Sua história pessoal, a originalidade de suas pesquisas, tudo isso a torna uma mulher inspiradora. Que conselho você daria a um jovem cientista?

Frances Arnold – A ciência é uma maneira maravilhosa de usar sua criatividade. É a melhor maneira de resolver problemas importantes e garantir um mundo melhor para o futuro. Pensem nisso!

Conselho Federal de Química (CFQ) – Considerando a Química como campo de atuação profissional, visando o mercado de trabalho, é possível projetar como será o futuro da atividade?

Frances Arnold – No meu ponto de vista, um dos grandes desafios que recaem sobre os profissionais de Química é seguir o caminho já traçado por outras áreas do conhecimento. É desenvolver um olhar especial sobre como a vida, a natureza, funciona. É um esforço diário para ampliar a eficiência, trabalhar com fontes renováveis e, em resumo, fazer ciência de uma maneira “verde” e sustentável. Essa postura nos levaria a invenções completamente inovadoras. Creio que a biologia tem um papel importante ao nos conduzir nesse caminho.

Conselho Federal de Química (CFQ) – Em países em desenvolvimento como o Brasil, muitas vezes os investimentos em ciência ficam comprometidos por problemas de financiamento. Como é possível produzir ciência de qualidade com essas limitações?

Frances Arnold – É importante que os líderes de países como o Brasil entendam que investir em Ciência significa investir no futuro. E é o papel de todos investir no futuro, temos que fazê-lo. Ninguém desconhece que a Educação e a Ciência são a nossa maior chance de um futuro melhor.

 

Conselho Federal de Química (CFQ) – Na última década, em várias partes do mundo estão ocorrendo questionamentos à Ciência. Movimentos antivacina, impensáveis há alguns anos, proliferam. Existem outros, que opõem até o conhecimento científico e a religião. O que isso representa para o futuro da civilização?

Frances Arnold – Eu não chego a ver esse embate como um confronto. Eu integro a Pontifícia Academia de Ciências, fui indicada pelo Papa Francisco em outubro… Não há confronto entre Ciência e Religião. Existem fatos concretos que as pessoas têm de aceitar e os líderes religiosos têm consciência disso… Nos Estados Unidos nós temos movimentos pela Terra plana, mas é importante ter em mente que se trata de um movimento apartado, à margem.

Conselho Federal de Química (CFQ) – A Química tem avançado para novas áreas do conhecimento talvez inimagináveis há 40 ou 50 anos. Quais são os limites da Química?

Frances Arnold – Sinceramente não sei! Nós estamos sempre explorando esses limites da Química e ainda não sabemos quais são eles. Eu acho que é algo que se aproxima dos limites do universo!