Notícias

“Vamos sair dessa pandemia com outro olhar para as coisas, que a gente não tinha antes”

Com o objetivo de aliar a experiência acumulada em mais de 40 anos na iniciativa privada à capacidade de realização do serviço público, Antônio César de Macedo Silva preside desde 2015 o Conselho Regional de Química da 7ª Região (CRQ VII), que atua no Estado da Bahia. O CRQ tem 8.745 profissionais e 3.197 empresas registrados e uma das preocupações desse baiano criado em Jacobina (BA) é melhorar o atendimento aos profissionais da Química e à sociedade. Macedo Silva relembra os tempos áureos e de emprego farto no Pólo de Camaçari, fala da interiorização do CRQ VII e comenta o enfrentamento da Covid-19 na Bahia. A síntese da entrevista:

1) Como o senhor caracterizaria a química em seu Estado? Quais setores são os mais representativos?

A Bahia tem uma grande diversidade. É um Estado territorialmente grande… Em primeiro lugar, temos um polo petroquímico aqui na Região Metropolitana de Salvador. São várias indústrias petroquímicas, mas hoje não se chama mais Polo Petroquímico e sim Polo Industrial. Lá temos indústrias petroquímicas, indústrias químicas e automobilísticas, na cidade de Camaçari.

Temos ainda o Centro Industrial de Aratu, no município de Simões Filho, também na Região Metropolitana. Existem vários segmentos, de indústrias alimentícias, metalúrgicas. Existe ainda uma refinaria da Petrobras, na região de Candeias e São Francisco do Conde. Temos também o Terminal Químico Marítimo de Aratu através do qual é escoada toda a produção que é exportada, veja que isso tudo existe apenas no entorno de Salvador.

No Interior, temos Feira de Santana, que tem uma área industrial muito grande, com diversas indústrias alimentícias, de pneus e metalúrgicas. Feira de Santana é uma cidade que liga o Nordeste e o Norte ao Sul e ao Sudeste e todo transporte logístico que sai do Sul para essas regiões passa por Feira de Santana. A gente tem depois a região do Oeste, com a produção de grãos, nas cidades de Barreiras, Luiz Eduardo Magalhães e cidades próximas. No norte da Bahia, temos o vale do São Francisco, com muitas empresas na área da agropecuária, além da vitivinicultura e da produção de frutas para exportação. Já no extremo sul baiano, temos empresas na área de celulose além das usinas de açúcar e de álcool. No sudeste do nosso Estado, na região de Vitória da Conquista e cidades circunvizinhas, tem a produção de café, bebidas, calçados e, no sul, temos a produção de cacau na região de Ilhéus e Itabuna.

A Bahia, como você pode ver, é um mercado bem promissor para o profissional da Química, tem ainda as mineradoras de ouro, de cromo, de chumbo, ferro e cobre… Isso tudo sem contar as pequenas empresas, de fabricação de detergentes, de cosméticos… Uma infinidade de possibilidades.

2) E a atuação do seu CRQ? Qual tem sido o foco e qual o maior desafio?

O CRQ VII tem uma demanda grande por atuar e, infelizmente, uma estrutura pequena. Mesmo com esse Estado tão grande e de grande potencial temos menos fiscais do que gostaríamos para atender a Bahia toda. E o CRQ não tem uma capilaridade pelo interior muito grande a exemplo de delegacias regionais. Pela Bahia ser tão grande, o esquema de delegacias se justificaria, outros regionais até têm essa estrutura. Assumi a presidência em 2015 e a gente tem isso em mente, a interiorização. Isso, claro, demanda um custo razoável. A gente já tentou instituir representantes do CRQ, por meio de parcerias com alguns professores de universidades. Mas não sabemos juridicamente como se pode viabilizar isso. Por outro lado, temos feito muitas palestras pelo interior, mostrando a importância do Conselho Regional de Química tanto para o exercício profissional como para Sociedade.

Mas uma interiorização efetiva nós ainda não alcançamos. O que conseguimos fazer foi informatizar os processos ao máximo. Pedi ao pessoal que trabalhasse muito no nosso site e facilitasse a vida de quem mora no interior. Hoje não é necessário vir a Salvador para emitir uma ART, para trazer uma série de documentações. A gente trabalha junto ao Conselho Federal para a modernização, a implantação da assinatura digital, a criação de um novo modelo de carteira tipo cartão com chip, algo que libere o profissional inclusive de vir até aqui assinar. Hoje nossas carteiras estão defasadas. Quanto à fiscalização, temos o projeto de ampliar o quadro de fiscais, mas tudo isso ficou parcialmente prejudicado pela pandemia.

3) No seu entendimento, como se deu o enfrentamento da pandemia de Covid-19 no setor químico em seu Estado?

Os polos industriais continuaram funcionando, ainda que com algumas restrições. No Oeste, temos informação de que a agricultura seguiu produzindo. No Norte, com as frutas, a gente teve informação de uma redução de demanda e mercado. Assim, reduziram a colheita e tiveram perdas. Aqui no Conselho, não temos ainda o número exato de pedidos de cancelamentos porque o prazo de pagamento das anuidades foi estendido até o fim de junho. Percebemos nos primeiros meses uma queda de receita no CRQ VII, da ordem de 27%. Isso é um reflexo da queda no mercado de trabalho.

4) Como descreveria a sua experiência pessoal na Química? E dentro do CRQ? Como se deu sua trajetória?

A minha primeira formação foi na antiga Escola Técnica Federal da Bahia – ETFBA, hoje o Instituto Federal de Educação – IFBA. Fiz o curso técnico de Química Industrial. Coincidentemente, ao terminar o curso foi exatamente o início da operação do Polo Petroquímico de Camaçari. A gente tinha empregos à vontade! Até escolhia a empresa em que queria trabalhar. Nessa época, mesmo com nível médio, se tinha salários excelentes e a aprendizagem no curso técnico era muito boa. A gente tinha laboratórios na Escola e se empolgava com a área… Quando terminei o curso eu estava completando 18 anos. Já entrei em uma indústria sem ter nunca imaginado o que seria isso na vida, menino vindo do interior (risos), de Jacobina… Chegando na indústria, montamos o laboratório do jeito que a gente achou que tinha aprendido na ETFBA, com controle de qualidade e tal. Nessa empresa, passei 20 anos. Fiz um curso superior em Química Industrial nesse meio tempo, na UFBA, tive uma ascensão na empresa, pelo tempo de trabalho e pela formação. Depois desse tempo, recebi um convite no setor têxtil e em seguida passei pelo setor de tecnologia do Senai, na área de Meio Ambiente. Fiz uma pós-graduação na área de Meio Ambiente, depois na área de Higiene Ocupacional e comecei a fazer um trabalho ainda na área Química, mas ligado à saúde do trabalhador. Eu estou registrado no CRQ VII desde 1977 e em 2014 eu entrei como Conselheiro Regional e em 2015, talvez pela experiência na indústria, em especial nessa parte da Higiene que envolve vários setores, o pessoal me convidou para concorrer à Presidência. Acabei sendo eleito. Não tinha ideia do que seria trabalhar no Serviço Público, mas, por ter vindo da iniciativa privada, nós acabamos aplicando mais velocidade.  Isso é positivo. No Serviço Público é um pouco mais complicado, burocrático (risos).

5) O que lhe move na presidência do CRQ VII? Qual é o objetivo?

Um dos objetivos era dar maior visibilidade ao CRQ VII, havia reclamações dos profissionais nesse sentido e a minha intenção desde o começo era colocar o CRQ VII no lugar em que ele merece estar. O que acontecia era que uma indústria química era inaugurada na Bahia, o CREA estava presente e CRQ não. Nada contra o CREA, mas isso não é bom para nós químicos, por que o CRQ VII não é convidado? E ainda não estamos onde queremos… apesar de ter melhorado bastante após ações conjuntas dos demais Presidentes dos Regionais no finalzinho do mandato do Dr. Jesus e com a criação do COPRESI – Colégio dos Presidentes que teve e tem o apoio do professor José de Ribamar (Oliveira Filho, presidente do CFQ), sendo hoje um apoio ainda mais efetivo. Temos conseguido dar essa visibilidade ao Sistema CFQ/CRQs. Os professores, por exemplo, sempre tiveram muitas restrições aos Conselhos. Depois desse nosso trabalho conjunto durante a pandemia através do Programa Química Solidária, temos visto muitos professores que eram contrários aos Conselhos revendo sua posição. Ainda não estamos onde merecemos, mas saímos da inércia com esse apoio do CFQ. Um exemplo disso é a área de comunicação, que tem nos ajudado bastante, sempre tenho reforçado isso. O Falas da Química (ação de comunicação do CFQ em comemoração ao Dia Nacional de Química) foi absurdamente bom, valorizando o profissional e as empresas e demonstrando à sociedade o que fazemos e a real necessidade da existência dos Conselhos de Fiscalização Profissional.

6) Em relação ao pós-pandemia, há motivos para otimismo? Quais o senhor citaria?

Há sim. Não diria assim: “nossa, a pandemia acaba hoje e amanhã está todo mundo empregado”. Mas eu, pessoalmente, tenho recebido alguns pedidos e isso indica que sim, vamos nos recuperar, e sim, vamos nos recuperar bem. O prazo é difícil dizer, se são seis meses, se é um ano. Acho que vai melhorar não apenas a quantidade, mas a qualidade. Vamos sair dessa pandemia com outro olhar para as coisas, que a gente não tinha antes, principalmente nas relações humanas e com consequência nas relações socioeconômicas.

7) Qual mensagem o senhor deixaria para os profissionais de Química? E para os estudantes? A Química vale a pena?

Com certeza absoluta. Agora, mais ainda. Evoluiu muito a interface da Química com a área de Saúde. Muitas coisas do nosso dia-a-dia são inteiramente dependentes da Química. O que eu diria aos profissionais é que se capacitem. Já que se tem algum tempo, há várias ofertas de treinamento na internet, por exemplo. Aos estudantes, se possível, façam pós-graduação. A vida inteira a nossa atividade profissional é sempre complementada com treinamentos e aquisição de novos conhecimentos, ou seja, estar sempre atualizado. Eu tenho pouco mais de 40 anos na área Química e acho que ainda tenho muito que aprender. Vamos em frente, a Química é a essência da vida!