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Tratamento e controle do Necrochorume requer atenção dos químicos

O Conselho Regional de Química da 4ª Região (CRQ IV), com sede em São Paulo, trouxe para discussão, durante live realizada no dia 3 de março, o Necrochorume, ou seja, a toxidade das substâncias liberadas na decomposição dos cadáveres. Diante da gravidade e dos riscos que podem trazer ao meio ambiente, especialmente aos lençóis aquíferos e também à saúde pública por meio dos cemitérios, o assunto está na pauta dos profissionais da Química.

De acordo com Dilcelli Soares Moura, mediadora do debate, “o tema ganhou notoriedade nos dois últimos anos, com várias aparições na mídia envolvendo os cemitérios, que exigem um gerenciamento adequado devido ao risco de contaminação do solo, uma vez que muitos deles operam em condições irregulares, como mostram estudos recentes”, afirmou.

Segundo um dos palestrantes, o professor Dr. Francisco Carlos da Silva, o Necrochorume é um líquido proveniente da putrefação do cadáver designado na medicina legal de liquame funerário ou putrelagem. A composição de tal líquido é de 60% de água, 30% de sais minerais e 10% de substâncias orgânicas (putrecina e cadaverina), altamente tóxicas, ressaltou. 

Em discussão, foi lembrada a importância das questões geoambientais, que devem ser consideradas nesse contexto.  O alcance do Necrochorume para o aquífero freático ocorre também em função do tipo de solo, e isso acontece mais facilmente em área arenosas. Por outro lado, o solo argiloso retém mais o líquido, em compensação pode conservar os corpos por mais tempo. Silva é autor de um estudo de caso para avaliar metais potencialmente tóxicos em zona não saturada no cemitério Nossa Senhora Aparecida em Piedade (SP). 

Durante a pesquisa, as técnicas geofísicas utilizadas mostraram-se eficientes na localização de anomalias metálicas no solo.  As análises textural, granumolétrica e de permeabilidade demonstraram a existência de solo não propício para sepultamento.  As análises químicas, apontadas pela geofísica, demonstraram que realmente há um incremento desses metais, principalmente nas profundidades abaixo das sepulturas (1,5 a 3 metros).  A pesquisa revelou, ainda, a existência de solo não propício para sepultamento no local, com risco de contaminação.  

Por se tratar de uma matriz complexa e tóxica, os procedimentos mais conhecidos para o tratamento do Necrochorume são pastilhas bacterianas, tubos coletores, manta absorvente, fitorremedicação, bombeamento, tratamento e processos biológicos. Porém, a maior eficácia ao tratamento do Necrochorume, vêm dos processos químicos, alertou Francisco. 

A Live do CRQ IV também contou com a participação de Juliano Andrade, químico por formação e diretor executivo da empresa Oxi Ambiental, que atua na pesquisa e controle de áreas contaminadas, inclusive por Necrochorume.

Andrade chamou a atenção para o aumento da população mundial, por estar atrelado à demanda e consumo de produtos, escassez de recursos naturais, produção industrial, geração de resíduos e o crescimento de áreas contaminadas.

Para o profissional “no Brasil, existem vários cemitérios centenários com problemas que ele considera extremamente crônicos por contaminação de Necrochorume”. Segundo ele, ”75% das áreas desses cemitérios possuem contaminação de alta complexidade procedentes do contato com o líquido oriundo de cadáveres”. 

No entanto, de acordo com Juliano Andrade, mesmo com os problemas, é necessário também visualizar os avanços de tratamento químico do Necrochorume, entre eles, por exemplo, a remoção total de (em menos de 30 minutos): Odor; Bactérias heterotróficas; Clostridium perfringens; Coliformes totais;  Coliforme termotolerantes; Remoção de mais de 70% da carga orgânica total; Remoção de 55% do nitrogênio amoniacal; Redução superior a 95% dos metais pesados: chumbo, arsênio e zinco.

O debate do Necrochorume x Meio Ambiente foi uma iniciativa da Comissão Técnica de Meio Ambiente do CRQ IV.  Assista à Live em: https://www.youtube.com/watch?v=8yFfZaRAJqM