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“Temos pessoas capacitadas e é urgente que se invista nelas”  

Austríaco de nascimento, brasileiro de coração, o presidente do Conselho Regional de Química da 4ª Região (CRQ IV), Hans Viertler, tem uma carreira que se confunde com o desenvolvimento e o ensino da Química em São Paulo e no Brasil. Observador atento dos rumos do setor que, em São Paulo, concentra um terço do PIB da Química nacional, Viertler identifica razões para otimismo mesmo no cenário adverso traçado pela pandemia do novo coronavírus. “A humanidade já passou por guerras, enfrentou grandes pandemias, mas sobreviveu”, avalia. O CRQ IV tem 84.202 profissionais registrados, além de 12.639 empresas. Veja a síntese da entrevista:


1) Como o senhor caracterizaria a química em seu Estado? Quais setores são os mais representativos e que profissionais têm mais campo de atuação?

O setor Químico tem participação significativa na economia paulista. Segundo dados do Sindicato das Indústrias de Produtos Químicos para Fins Industriais do Estado de São Paulo (Sinproquim), a indústria química paulista é a maior do País e responde por mais de 1/3 do faturamento do setor, que em 2019 foi de US$ 118,7 bilhões.  Atualmente, há 12.639 empresas registradas no CRQ IV, sendo que a indústria química, que reúne, entre outros, fabricantes de saneantes, cosméticos e tintas, é a que tem maior representatividade, com 3.277 registros.

Outros três setores importantes são o alimentício (1.085 empresas), comércio e importação de produtos (1.562 empresas) e o metalúrgico (1.321 empresas).

O setor de serviços tem crescido muito ao longo dos últimos anos, destacando-se os laboratórios de análises química e físico-química, empresas prestadoras de serviços de limpeza, de controle de pragas e de consultoria. Esta última é constituída cada vez mais por profissionais que atuam como Pessoas Jurídicas.

Quanto aos profissionais, atualmente somam 84.202 registrados no CRQ-IV. Devido à grande quantidade de indústrias no Estado de São Paulo, os cursos de formação tecnológica são os que oferecem maiores oportunidades de trabalho para esse pessoal.

2) E a atuação do seu CRQ? Qual tem sido o foco de atuação? Qual o maior desafio e qual a conquista o senhor avalia como a mais importante?

Talvez a conquista mais importante do nosso Conselho tenha sido a credibilidade construída ao longo dos anos junto aos profissionais, estudantes, instituições de ensino e entidades empresariais. Esse cenário foi possível por termos priorizado ações orientativas, buscando contribuir para que as empresas e profissionais possam cumprir as exigências da legislação quanto ao registro, formação profissional adequada e manutenção de Responsáveis Técnicos pelas atividades químicas das empresas.

Nessa linha de pensamento, é tradição em nosso Regional a promoção de cursos de atualização e capacitação profissional, alguns deles gratuitos e outros a preços acessíveis. Também temos feito numerosas parcerias que resultam em bolsas de estudo para cursos rápidos e livros técnicos para os nossos inscritos.

Outra iniciativa que consideramos de muita importância, e que tem relação direta com a atividade-fim do Conselho, foi a elaboração de um programa voltado a conscientizar profissionais que atuam ou pretendem atuar como Responsáveis Técnicos. Trata-se do curso “Entendendo a Responsabilidade Técnica”, que destaca os aspectos éticos, os direitos, deveres e as implicações legais inerentes a essa função.

Muitos desses trabalhos são desenvolvidos em parceria com associações e sindicatos empresariais e de profissionais, o que tem nos possibilitado uma boa colaboração dessas entidades com o nosso serviço de fiscalização. Essas parcerias permitiram, inclusive, a adoção de programas de capacitação e qualificação de funcionários para o exercício de atividades profissionais na área Química. Nesse sentido, dois parceiros importantes foram o SENAI e o Governo do Estado de São Paulo, por meio das escolas técnicas (Etecs) e faculdades de tecnologia (Fatecs).

3) No seu entendimento, como se pode avaliar o enfrentamento da pandemia de coronavírus no setor químico em São Paulo?

Mesmo afetadas pela crise, as indústrias químicas precisaram continuar em funcionamento, já que são essenciais no fornecimento de matérias-primas para outros segmentos fundamentais para o combate ao Covid-19, como o setor sucroalcooleiro, de cosméticos, saneantes e farmacêutico. Mesmo assim, só no mês de abril, o setor contabilizou, segundo a Abiquim, queda de 35% nas vendas, o que certamente gerou ou gerará impacto negativo no nível de emprego.

Da parte do CRQ-IV, embora prejudicado pela pandemia, o serviço de Fiscalização continuou a atuar, em regime de plantão, recebendo e acompanhando, pela imprensa, denúncias sobre falsificação de produtos. Também desenvolvemos um trabalho especial a respeito da instalação, em várias cidades paulistas, das tais cabines ou tendas “de desinfecção de pessoas”, que serviriam para eliminar a carga viral, inclusive a de Covid-19, presente nas roupas das pessoas.

Pareceres elaborados pela nossa Comissão Técnica de Saneantes concluíram pela ineficácia desses dispositivos e alertaram para o risco de a saúde da população ser afetada pela pulverização de produtos saneantes sobre elas. Para nossa satisfação, esses pareceres foram posteriormente corroborados pela Anvisa, que emitiu notas técnicas a respeito. Completamos nosso trabalho nessa área enviando ofícios aos prefeitos das cidades que instalaram essas tendas, informando-os sobre a ineficácia e riscos e sugerindo que empregassem os escassos recursos públicos em ações para mitigar a pandemia sancionadas por estudos científicos.

4) Como descreveria a sua experiência pessoal na Química? E dentro do CRQ? Como se deu sua trajetória?

Nasci em 1940, em Viena, Áustria, mas vim para o Brasil com 11 anos. Conclui minha graduação em Química na Universidade de São Paulo em 1962. Naquele mesmo ano, cursei uma especialização em Química Tecnológica, na Escola Politécnica da USP. Obtive meu doutorado em Química Orgânica, pela USP, em 1969, e o pós-doutorado pela University of Ottawa, Canadá, em 1973.

Toda a minha carreira foi desenvolvida nas áreas de ensino e pesquisa. Como professor, atuo há cinco décadas no Instituto de Química da USP, instituição da qual fui diretor entre 2006 e 2010. Atualmente sou professor colaborador-sênior do Instituto. Minha linha de pesquisa é a eletroquímica de compostos orgânicos de enxofre funcionalizados: mecanismos de reação e aplicações sintéticas; e catálise redox em eletrossíntese orgânica.

Presidi a Sociedade Brasileira de Química (SBQ) no biênio 1994/1996. Para me homenagear, em 2010 a SBQ criou o “Prêmio Hans Viertler para Jovens Pesquisadores”, que estimula e reconhece o trabalho de acadêmicos de até 35 anos de idade.

Estou registrado no CRQ-IV desde janeiro de 1964 e passei a atuar na entidade em agosto de 1975, quando fui eleito conselheiro. Ocupei vários cargos na diretoria, tendo sido eleito e sucessivamente reeleito vice-presidente desde 2010. Assumi a presidência em agosto de 2016, quando da renúncia do Engenheiro Manlio de Augustinis. Desde então, fui reeleito duas vezes para o cargo, com o término do segundo mandato previsto para 31 de julho de 2023.

5) Qual herança restará do enfrentamento dessa pandemia, pra você e para os profissionais da Química? Há motivos para otimismo?

Apesar da tragédia causada pela pandemia, o episódio mostrou a capacidade de rápida movimentação de governos e pesquisadores em busca de alternativas para o tratamento da doença. É verdade que não se chegou ainda a uma solução, porém profissionais de diferentes formações – Químicos entre eles – continuam se dedicando a esse objetivo. No Brasil, apesar da histórica falta de infraestrutura, nossos pesquisadores estão colaborando ativamente com grupos do exterior que contam com mais recursos financeiros. Um exemplo dessa colaboração foi o sequenciamento, 48 horas após o primeiro caso registrado no Brasil, do genoma do novo coronavírus por pesquisadores da USP. Isso é uma demonstração de que temos pessoas capacitadas e de que é urgente que se invista nelas.

6) Qual mensagem o senhor deixaria para os profissionais de Química de São Paulo e do Brasil? E para os estudantes?

Apesar do momento difícil que estamos vivendo, não podemos nos esquecer que a humanidade já passou por guerras, enfrentou grandes pandemias, mas sobreviveu. Aliás, podemos dizer que, de um modo geral, o ser humano está melhor agora do que antes e isso tem muita relação com a qualidade de vida que a Química nos proporciona. Assim, é preciso manter as esperanças de que o pior passará e de que a economia voltará a girar, gerando empregos e renda para um número maior de pessoas. E a sustentação de um cenário positivo sempre dependerá de profissionais bem preparados, daí a importância de nos atualizarmos constantemente.