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Substâncias da cannabis têm muitas possibilidades de aplicação no campo químico

Nos últimos anos, as propriedades terapêuticas e os benefícios medicinais dos derivados da cannabis têm despertado o interesse da sociedade. Afinal, a planta pode ser utilizada para a fabricação de fibras (cânhamo) e de óleos, além de possuir fins medicinais e ser conhecida ainda como droga psicoativa.

Para discutir as diversas possibilidades desta planta, o Conselho Regional de Química da 4ª Região (CRQ IV) realizou, na quinta-feira (15), live para tratar sobre este tema. Foram convidados para falar sobre o assunto o farmacêutico, mestre e doutor em Química de Produtos Naturais Douglas Chaves e o químico industrial, mestre em Síntese Orgânica e Produtos Naturais, doutor em Vigilância Sanitária e coordenador da Comissão Técnica de Química Farmacêutica do CRQ IV, Ubiracir Fernandes Lima.

Sob a mediação da Juliana Rodrigues Pena, que atua na Gerência de Fiscalização do CRQ IV, os convidados abordaram as substâncias químicas da cannabis, os processos extrativos de componentes canábicos, isolamento em pequena e média escala, caracterização por técnicas analíticas e a perspectiva de aplicação em diferentes formulações de produtos sujeitos à vigilância sanitária.

Lima destacou a importância de conhecer melhor o assunto e de ter uma visão mais voltada para a fitoquímica. “O mundo dos derivados metabólicos desta planta não está restrito ao uso terapêutico. Eles também podem ser utilizados – e já vêm sendo usados em muitos lugares pelo mundo – em formulações de uma variedade de outros produtos, inclusive sujeitos às normas da Vigilância Sanitária, tais como suplementos alimentares e cosméticos. Existe um conceito de eficácia, segurança e de alegações científicas de cada componente que são determinados pelos órgãos sanitários e que precisam ser comprovados pelos fabricantes”.

Chaves, por sua vez, explicou que este tema precisa ser mais conhecido e difundido no Brasil para que a legislação avance. “Precisamos mudar esta cultura, pois para uma boa parte dos brasileiros, quando se fala em cannabis, liga-se diretamente à maconha. Na verdade, a planta tem várias subespécies que não levam a efeitos alucinógenos, e há diversas funcionalidades que podem e que precisam ser exploradas. É preciso desmistificar isso para que os órgãos competentes mudem o direcionamento na hora de lançar uma resolução, por exemplo”.

Chaves também reforçou que, devido à legislação que rege o assunto na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), as pesquisas com cannabis ainda são muito limitadas. “Os estudos que fazemos são todos baseados em termos de cooperação. Não existe a liberdade que há em outros países para prosseguir e expandir pesquisas, e o resultado disso é que o Brasil está ficando para trás”. Ele esclareceu que é este é o motivo pelo qual é necessário importar canabinóides, já que a legislação não permite o desenvolvimento de produtos à base da planta, que ainda é reconhecida como uma droga.

A live trouxe aos participantes uma contextualização histórica da cannabis – os conceitos de botânica, de composições químicas, de canabinóides, de extração e de caracterização, por exemplo. Os palestrantes aproveitaram o momento para relatar sobre os estudos em andamento no Brasil e responderam às dúvidas dos participantes relativas às normas, regras, regulamentação, composição química e formulações dos canabinóides.

Em fala, Chaves lembrou que o Brasil já avançou muito e destacou o trabalho realizado pela Anvisa. Mas voltou a afirmar que é necessário mudar a mentalidade de uma forma geral, para que seja possível avançar mais.

Lima reiterou a fala e disse que há um tempo a sociedade clama pelo acesso a medicamentos baseados em substâncias químicas provenientes da cannabis. “Na área terapêutica, muitos pacientes dependem daquelas substâncias. Então, o nosso papel, como químicos, é de contribuir na racionalização para que haja um melhor entendimento da relação entre as estruturas das substâncias ativas presentes em diferentes extratos e aquelas eficácias já observadas, sem negligenciar dados de segurança e assim promover avanços que farão a diferença para a sociedade brasileira”.