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Soro obtido de cavalos pode ajudar a combater a Covid-19

Estudo aponta que o plasma sanguíneo dos animais produz anticorpos até 100 vezes mais potentes dos que os gerados por seres humanos

Pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Instituto Vital Brasil (IVB) criaram um soro para o tratamento da Covid-19 produzido a partir de cavalos. Sob a coordenação do professor Jerson Lima, do Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ, cavalos foram inoculados com a proteína S recombinante do novo coronavírus, produzida em laboratório. Esse material induz o organismo dos equinos a criar anticorpos.

Após 70 dias, os plasmas dos cavalos apresentaram os anticorpos capazes de neutralizar o vírus. A etapa seguinte consistiu em desenvolver o soro anti-Sars-CoV-2, produzido a partir do plasma dos equinos imunizados. Estudos anteriores já apontavam que tratamento precoce da Covid-19 com plasma de pessoas que tiveram a doença pode reduzir a mortalidade de pacientes internados. Mas o experimento com o plasma dos cavalos permite que o tratamento seja feito em grande escala.

Quem explica é a Engenheira Química Leda Castilho. Ela é professora do Programa de Engenharia Química da Coppe da Universidade Federal do Rio de Janeiro e coordenadora do Laboratório de Engenharia de Cultivos Celulares, onde é produzida e purificada a proteína usada nos experimentos.

“Neste momento em que ainda não há terapias específicas contra o vírus, a única ferramenta que tem sido usada em pacientes é a transfusão de plasma de humanos que tiveram a Covid-19 para os que estão com a doença. Mas esta opção tem algumas limitações, inclusive de disponibilidade do plasma humano para uso em grande escala. Vimos que a quantidade de anticorpos capazes de neutralizar o novo coronavírus é muito alta no plasma dos cavalos, muito maior do que no plasma de pessoas que tiveram Covid-19”, detalha.

Segundo a pesquisadora, as vantagens de anticorpos dos cavalos vão além da escala de produção. “O soro anti-Covid19, como está sendo chamado, na verdade não é soro bruto, mas sim um preparado purificado que consiste da parte relevante dos anticorpos equinos, após remoção da parte denominada Fc, que poderia causar efeitos adversos. Tanto o plasma bruto dos cavalos quanto este preparado purificado de anticorpos, que é o produto final, demonstraram capacidade cerca de 100 vezes maior de neutralizar o vírus. Este resultado vai nos permitir atender um número muito grande de pessoas com um número modesto de cavalos e até mesmo infundir em cada pessoa um volume menor do agente terapêutico”.

Após a aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), o grupo de pesquisadores vai iniciar os testes clínicos, com foco nos pacientes com diagnóstico confirmado de Covid-19 que estejam internados mas não se encontram em unidades de terapia intensiva. Os testes vão comparar quem recebeu o tratamento com quem não recebeu.

O papel da Engenharia Genética

O laboratório coordenado por Leda vem desde fevereiro trabalhando na produção da proteína que compõe as espículas, que são as pontinhas que ficam na superfície do novo coronavírus. Uma equipe coordenada por ela e composta por Renata Alvim, doutoranda do Programa de Engenharia Química da Coppe, Tulio Lima, doutorando da Escola de Química, e Federico Marsili, doutorando do Instituto de Química da UFRJ, trabalham para fazer os experimentos ligados à produção e purificação da proteína.

“Usamos técnicas de engenharia genética que nos permitem produzir cópias fidedignas da proteína do vírus, usando células cultivadas em laboratório. Foi com esta proteína que os cavalos foram inoculados para estimular o sistema imunológico deles e levar à produção de anticorpos anti-coronavírus”, explica.

Para Leda, os resultados foram além do que a equipe esperava e isso mostra que a Ciência está encontrando muitas possibilidades para uma doença ainda pouca conhecida. “Ficamos muito satisfeitos e até surpresos com a concentração enorme de anticorpos nas amostras dos cavalos. Está sendo um trabalho muito gratificante”.

Foi solicitado um pedido de patente da descoberta e já foi feita a publicação do estudo na forma de preprint (ainda aguardando a publicação definitiva após revisão por pares). Agora, os cientistas esperam poder ajudar de forma efetiva nos tratamentos para a Covid-19. “A expectativa é que não demore a chegar aos pacientes, estamos trabalhando duro neste sentido”, finaliza.