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Química Forense em local de crime movimenta Condequi

Apresentação de resumos e palestras sobre outros temas relacionados à Química completa a programação do congresso online

O universo da Química desperta interesse em estudantes, profissionais e em quem gosta de Ciência. A Química Forense é uma área ampla dentro deste universo. Ao participar do III Congresso Online Nacional de Química (Condequi), o perito criminal oficial da Polícia Civil de Minas Gerais doutor Tales Giuliano Vieira apresentou alguns pontos da rotina de um químico na perícia criminal.

“Sou perito criminal desde 2005 e, no início, eu imaginava – como a maioria das pessoas – que fosse como nas séries de televisão, nos filmes, que eu iria para um grande laboratório e tudo mais. Mas a coisa é mais profunda do que isso. Particularmente, gosto de trabalhar em locais (de crimes), mas também tenho minha vida de laboratório, faço análises de drogas aqui na região, mas eu gosto é do local. O perito tem que ver a cena, não somente o vestígio. Trabalhando nessa área você não tem muita rotina, um dia em laboratório, outro em local de crime”, explicou.

Vieira destacou que local de crime não é sinônimo de homicídio. “Um posto de gasolina suspeito de adulterar combustível é o local de um crime. O perito deve ir coletar aquele material e trabalhar em cima daquilo ali. Uma cervejaria que tem uma cerveja contaminada é um local de crime. Então, o crime não é simplesmente o crime contra a vida. Você tem crime contra o consumidor, contra o patrimônio, e trânsito, onde a aplicação da Química é vasta. A Química Forense é muito ampla”.

Desafios periciais das drogas naturais e sintéticas

Para o perito, um dos desafios atuais é o surgimento de novas drogas em velocidade exponencial. Vieira diz que até mesmo drogas comuns como a Cannabis Sativa já possuem variações, as chamadas maconhas híbridas ou super maconhas, que não têm as características morfológicas básicas, como a folha serrilhada, mas são espécies muitos potentes, sendo até 50 vezes mais potentes que a maconha clássica.

“Toda semana, mais de uma Nova Substância Psicoativa [NPS] é sintetizada. Hoje estamos com mil novas substâncias no mercado. A coisa está tomando uma proporção muito complexa, e aí o papel do químico é essencial, porque são novas drogas, e eu preciso identificar as estruturas delas para saber se são realmente ilícitas, se estão catalogadas ou não”, enfatizou.

Documentoscopia

A Química Forense pode contribuir para a solução de crimes relacionados à falsificação de diversos itens, entre eles, documentos, assinaturas e obras de arte. “Temos um caso marcante que foi o uso de documentoscopia na operação Lava Jato. Suspeitava-se que algumas obras que estavam no Museu Oscar Niemeyer eram falsas, e a perícia fez a análise desses itens. É simples? Não. É preciso analisar o momento em que a obra foi produzida, quais pigmentos eram usados na época, o que estava disponível sintetizado. E o grande fator: não posso destruir uma obra dessas, tenho que fazer uma análise não destrutiva”, disse Vieira.

O caso, segundo o perito, foi solucionado a partir da análise dos pigmentos utilizados no quadro. Um deles teve a síntese documentada a partir de 1930, e o quadro em análise datava de 1920, ou seja, era um item falso.

Vieira, que também é professor universitário em Lavras (MG), apresentou ainda algumas especificidades do luminol e como ele funciona. “O teste com luminol não é positivo para sangue. A luminescência indica a possibilidade de haver sangue ali”, esclareceu.

Tratamento e aproveitamento de resíduos sólidos

Todos já sabem que a Química está em tudo e seus profissionais são essenciais para a indústria, a segurança e a saúde da população. A professora do Departamento de Química Orgânica do Instituto de Química da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Mônica Regina da Costa Marques trouxe para debate no Condequi o papel da Química para o meio ambiente sustentável por meio da gestão de resíduos.

No começo de sua apresentação, ela contextualizou os participantes sobre alguns fatos importantes sobre a regulamentação do assunto no Brasil e no mundo. “Desde a Rio 92 (Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento), o assunto passou a ser muito debatido, e a indústria química pôde contribuir de diversas formas para gerar desenvolvimento sem agredir o meio ambiente”, lembrou.

Durante a Rio 92, foi assinada a Agenda 21, que preconizava o impedimento e redução da produção de resíduos. Para isso, ficou definido que todos os países deveriam ter uma política nacional de resíduos sólidos. Marques lembra que, no mesmo ano, foi assinado o Pacto Nacional da Indústria Química, no qual ficou preconizado que o Brasil teria uma indústria base renovável com base nos preceitos da Química Verde.

“Infelizmente, não é isso que vemos. Caso o pacto fosse cumprido, não teríamos tido esses acidentes ambientais que mancharam a nossa imagem para o resto do mundo”, frisou em referência aos acidentes em Mariana e Brumadinho.

Segundo a professora, o planeta Terra é uma máquina de reciclagem. “Tudo se recicla. O carbono que geramos quando respiramos é utilizado pelas plantas para produzir a sua matéria. Depois, nos alimentamos das plantas e geramos a nossa matéria. Quando dispomos resíduos inadequadamente, quebramos esse equilíbrio. É aí que temos o impacto ambiental”, explicou.

A especialista elencou os desafios para o tratamento e aproveitamento dos resíduos. “Nós precisamos descer mais nesse iceberg. É preciso uma regulamentação forte, financiamento, práticas adequadas, soluções consorciadas entre vários municípios, soluções locais e minimizar ao máximo a destinação final”.

De acordo com ela, isso só será possível com educação ambiental. “A gente precisa conscientizar a população da importância das questões ambientais”. Segundo uma pesquisa do Ibope (2018), 98% das pessoas enxergam a reciclagem como algo importante para o futuro, mas 39% não separam o lixo orgânico do reciclável. Já 81% sabem pouco ou nada pouco sobre as cooperativas de reciclagem e 66% sabem pouco sobre coleta seletiva. “As pessoas parecem esquecer que têm outros tentando viver no mesmo planeta que elas”, finalizou.