Notícias

Química forense: da ficção para a realidade

A investigação criminal é um dos gêneros mais populares e de grande audiência entre as séries de TV. O suspense e as pistas deixam os espectadores compenetrados nas telas. Tendo isso em mente, o Conselho Regional de Química da 4ª Região (CRQ IV) presenteou os internautas com uma live sobre a Química forense, quando foram abordados os fundamentos básicos da criminalística, com destaque para vestígios, evidências, indícios e provas, bem como cadeia de custódia. 

A mestre e doutora em Química Analítica, Márcia Guekezian, na sua apresentação, iniciou abordando os principais indícios de provas no local de um crime. “Analisar esses indícios serve para descartar ou confirmar casos criminais”, apontou a perita oficial do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJSP) e também coordenadora da Comissão Técnica do Ensino Superior do CRQ IV.

 Segundo a perita, as principais provas são manchas, impressões, marcas, armas, instrumentos, roupas, fios de cabelo e pêlos. No entanto, existem outros vestígios que podem solucionar um crime.  

Márcia destaca que não basta localizar provas, é necessário, também, modelar o fato criminoso, ou seja, criar moldes que permitam melhor visualização e compreensão do vestígio. Segundo ela, para realizar este processo são utilizados produtos como parafina, gesso e plastisol. A modelagem criminalística é composta destas substâncias. “Nós temos regiões do País que não têm muita disponibilidade de reagentes, por isso a grande quantidade desses produtos utilizados no Brasil”, completou.

A área da Química forense também contempla análises de substâncias ilícitas e lícitas. Segundo a perita, em relação às suas características físicas, estes agentes tóxicos podem ser classificados em gases, vapores e partículas, ou aerodispersóides. Já quanto às características químicas são apontados pelo grau toxicológico. Ela citou como exemplos os halogênios, produtos ácidos e hidrocarbonetos alifáticos, hidrocarbonetos aromáticos e metais potencialmente tóxicos. 

 De acordo com Portaria nº 344 da Secretaria de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde, que lista as substâncias do ponto de vista legal (lícitas ou ilícitas) esses agentes podem ser depressores, diminuindo a atividade cerebral; estimulantes, aumentando a atividade do cérebro; ou ainda perturbadores, que são aqueles que produzem alucinações ou ilusões. “No filme Batman Begins, os vilões vaporizam uma substância que provoca alucinações nas vítimas”, ilustrou a química. 

Márcia Guekezian citou algumas substâncias ilícitas que constam no documento da Anvisa. São drogas sintéticas como LSD, produzido a partir de um medicamento para enxaqueca. “Seu efeito tóxico pode durar até 12 horas no organismo e pode levar a paranóia, bad trips e flashbacks”, reforçou a palestrante.

“Outra droga sintética é a desomorfina, na lista F1, usada no tratamento da dor como a morfina, um analgésico potente”, comentou.

A professora aproveitou o momento para lembrar que a nomenclatura correta é dependência em drogas, e não dependência química. 

Para finalizar, Márcia fez um alerta sobre algumas drogas, como os cristais, que podem provocar derrame cerebral, ataque cardíaco e psicose.

A noite contou ainda com a fala da Química e também perita judicial do TJSP Júlia Rabello Buci, que aproveitou o momento para explicar os princípios fundamentais da perícia criminalística e seus protocolos: observação, análise, interpretação, descrição e documentação. ” O papel do perito é identificar, coletar e analisar vestígios que podem ser ilusórios, verdadeiros ou forjados.

Segundo a perita, os vestígios podem ter autores absolutos (relação direta com a vítima ou com o seu autor) ou relativos (aqueles com relação indireta como manchas de sangue). 

Júlia enfatizou, ainda, que os locais de crime fazem parte de toda uma cadeia de custódia para a investigação. Essa cadeia de custódia é o conjunto de todos os procedimentos utilizados para manter e documentar a história cronológica do vestígio coletado em locais ou em vítimas de crimes. 

Análise de locais de crime

De acordo com o perito criminal da Superintendência de Polícia Técnico-científica do Estado de São Paulo, bacharel em Química pela Universidade de São Paulo, Murilo Piton Paulon,  o profissional perito busca por materialidades, autores e a dinâmica do crime. “Um corpo sem identificação num crime não é obstáculo para apontar as análises”, revelou Murilo.

Para essas análises é preciso seguir uma metodologia, disse o perito. É preciso preservar e custodiar o local com isolamento. “Confiar desconfiando, máximo reconhecimento e mínima alteração com modos de varredura”, ressaltou.  

Outro aspecto importante é perenizar os elementos com fotografia, anotações e croqui. “Uma imagem fala mais que mil palavras.” Murilo salienta que é preciso garantir in loco as condições para a realização dos exames laboratoriais e das interpretações finais.

“Não saia do local sem uma excelente ideia do que aconteceu”, encerrou o palestrante.