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QuimCast: Professor da USP explica a revolução nanotecnológica na humanidade

Sabia que o celular que você usa tem uma tecnologia que funciona em uma escala de grandeza 100 mil vezes menor que um fio de cabelo? E essa tecnologia não está apenas no smartphone. Está no corpo humano, no meio ambiente e em quase tudo o que você puder imaginar. Parece ficção, mas é uma realidade bem atual e se chama nanotecnologia.  Em entrevista ao QuimCast, o podcast do Conselho Federal de Química, o professor do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), Henrique Toma, fala sobre as aplicações dessa ciência que se apresenta como a grande revolução da atualidade e do futuro. “Desde a eletrônica até a medicina, estamos vivendo em um mundo nanotecnológico”, afirma.

Crítico da falta de investimento em educação no Brasil, o professor defende que o país está mais uma vez ficando de fora da revolução tecnológica que está em curso. “O Brasil está perdendo o bonde. É necessário investir em educação e pesquisa. É preciso que haja uma revolução educacional se o Brasil quiser acompanhar esta revolução tecnológica”, sentencia.

O que é a nanotecnologia?

É um limite onde estamos dentro de um conhecimento real, factível, não é ficção. É uma escala de grandeza muito pequena. Nano significa um bilionésimo de alguma coisa; é como imaginar um fio de cabelo e dividir por 100 mil vezes, e vai chegar a ser um nanômetro. É uma grandeza tão pequena que a vista não alcança. É justamente por isso que esta área do conhecimento ficou meio distante, o homem não tinha esperança de conseguir estudar nesta escala. Entretanto, esta é a escala onde estão os átomos e as moléculas, as nanoestruturas que movimentam o nosso corpo, as enzimas, as vitaminas…  Todos os componentes do nosso organismo estão na escala nano. Até o vírus, que é a máquina nano mais evoluída que se conhece. Absolutamente tudo o que move o nosso corpo é nano. Somos uma verdadeira máquina nano.

O que está acontecendo no mundo em relação à nanotecnologia?

Como é uma fronteira do conhecimento, é o que gera riqueza e desenvolvimento. E o mundo evolui em função disso. No passado surgiu a microtecnologia, que possibilitou o surgimento de tantos eletro-eletrônicos, como microcomputadores, por exemplo. E provocou uma grande revolução no mundo. Agora chegou a vez da nanotecnologia revolucionar o mundo. E já está acontecendo. Veja a qualidade dos monitores de televisão, do celular sensível ao toque, a quantidade de memória que eles têm.  A medicina, engenharia, ciências agrícolas, plásticos também… Tudo funciona com base em nanossistemas.

Como o Brasil se apresenta diante desta tecnologia?

No passado, surgiu a microtecnologia, e quando ela chegou ao Brasil o país não acreditou, achou que era ficção. Fazer chip de computador? Um rádio é do tamanho de uma mesa, como vai ficar do tamanho de uma caneta?  Isso é ficção. O Brasil não acreditou na microtecnologia e não investiu. Os países asiáticos investiram pesado nisso e se transformaram nos gigantes da eletrônica que conhecemos hoje, além da Europa. A microtecnologia provocou esta revolução no mundo. E diante disso, o Brasil parou. Exportou componentes, continuou produzindo insumos agrícolas, commodities, minerais, mas de baixa tecnologia. Agora chegou a vez da nano, que é a revolução da microtecnologia. E o Brasil também está perdendo o bonde.

O que pode ser feito para que o Brasil seja parte desta revolução nanotecnológica?

Se analisarmos como os países desenvolvidos atingiram este patamar, veremos que todos investiram em escolas, universidades, centros de pesquisa para gerar conhecimento. Não existe progresso sem recursos humanos. Sem professores, engenheiros, cientistas, médicos, estamos perdidos. São eles que movimentam o cenário do desenvolvimento. Pecamos no fundamental que é a formação do nosso cidadão, jovem, profissional. E os conselhos têm um papel muito importante de chamar a atenção para isso, porque eles lidam com profissionais. E o país precisa formar profissionais nessa área. Se é nano, é quase certeza que estamos importando, porque o Brasil ainda não tem capacidade ou qualificação para produzir competitivamente na escala nano.

O que podemos falar sobre o uso da nanotecnologia na medicina? É possível falar em cura para doenças?

Hoje se fala em nanomedicina, nanomedicamentos, nanoterapias. Tudo o que existe no nosso organismo opera na escala nano. Imagine uma célula onde estão todos os componentes da vida. Para entrar dentro dela tem que ser algo mil vezes menor. Então, as nano partículas conseguem entrar na célula e atingir o alvo que se quer curar. Imagine um remédio que se dissolve e vai para o corpo inteiro, mas você não quer curar o corpo todo, só uma parte. Essa medicina antiga está mudando. Os medicamentos são transportados por nanopartículas que vão só para aquela parte específica do corpo.

E quanto aos riscos para o meio ambiente e para quem manipula?

Toda tecnologia que criamos envolve riscos e o maior fator de risco é o homem. É como a energia nuclear: você pode salvar vidas ou fazer uma bomba. O homem tem que ser responsável, ser educado. Independente disso, a nano, entre todas as tecnologias, está onipresente, inclusive no meio ambiente, nos animais e em todos os seres vivos.

 

Clique aqui e ouça a entrevista do professor Henrique Toma.