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Premiação em SC destaca as mulheres na química

Mais mulheres na ciência e menos obstáculos para o seu desenvolvimento profissional e acadêmico. Assim podem ser resumidas as demandas que a Sociedade Brasileira de Química (SBQ) pôs em destaque na sessão temática “Multiplicando referências femininas”, durante a 42ª Reunião Anual da entidade, realizada em Joinville-SC. O simpósio, ocorrido no último dia 29, marcou o lançamento do Prêmio Vanderlan da Silva Bolzani, com o objetivo de reconhecer o trabalho de mulheres na química e no fortalecimento da sociedade.

O simpósio e o prêmio foram programados pelo Núcleo Mulheres SBQ, que atua pelo estímulo ao debate e à visibilidade de lideranças femininas para inspirar jovens cientistas. A primeira edição da premiação agraciou as pesquisadoras Maria Domingues Vargas e Dirce Maria Fernandes Campos, que é diretora-executiva da SBQ e trabalha na entidade desde a fundação em 1977.

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Maria Domingues Vargas é professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e deu aulas também na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Bacharel em química pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e PhD em Química pela University of Cambridge, onde foi a primeira mulher do corpo docente. Trabalha, atualmente, com a síntese e a avaliação farmacológica de aminonaftoquinonas e de seus complexos de metais de transição, além do estudo de sistemas nanométricos para entrega de fármacos. Ocupou diversos cargos na SBQ, incluindo o de vice-presidente, e é ainda reconhecida pelo engajamento em prol da inclusão de mulheres na ciência.

A sessão temática “Multiplicando referências femininas” foi organizada pelas professoras Rossimiriam de Freitas (UFMG) e Elisa Orth (UFPR), enfocando os desafios para ampliar a formação de mulheres referências no mundo da ciência e, especialmente, na química. O encontro indicou um consenso: de que o estímulo às meninas desde os primeiros anos da vida escolar e a criação de ambientes propícios ao pleno desenvolvimento são fundamentais para a formação de novas cientistas.

Considerada uma das principais referências no país, Vanderlan da Silva Bolzani emocionou-se ao ver o trabalho de uma vida inteira reconhecido com a criação do prêmio com o seu nome. “Não existe nada mais maravilhoso do que esse reconhecimento da sociedade em relação ao meu papel como pessoa, mulher e ser social”, diz a cientista, que é vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Ambientes estimulantes

Nos últimos anos, Vanderlan tem se dedicado a estudar também os papéis de gênero na sociedade e na ciência. A pesquisadora crê que as mulheres enfrentam as mesmas dificuldades de décadas atrás, e o principal fator para que elas possam se desenvolver é o ambiente onde vivem. “Quando verificamos as meninas que viviam em ambientes estimulantes, vemos o desenvolvimento”, reforça. Ao explicar o seu próprio sucesso acadêmico, Vanderlan menciona a dedicação ao aprendizado e a contribuição dos pais para a sua trajetória, por meio do apoio aos estudos e do incentivo à autonomia.

A professora avalia que os estudantes partem de posições semelhantes no início da vida acadêmica, independentemente do gênero, mas o quadro muda na hora de subir posições. “Somos apenas 30% de mulheres pesquisadoras no mundo. Quantas meninas brilhantes são perdidas nesse universo? Mesmo quando não há preconceito explícito, ele está presente. É uma questão de cultura”, pondera. “A maneira de mudar a mentalidade não só de homens, mas das mulheres também, é pela educação. Quanto mais instruídas, mais possibilidades as pessoas têm de repensarem seus papéis como seres sociais no mundo atual e pensando nas futuras gerações.”

A argumentação é reforçada por Rossimiriam Freitas, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Vice-presidente da SBQ e uma das coordenadoras do Núcleo Mulheres, a professora aponta que as mulheres sofrem o chamado “efeito tesoura”, pois o número delas no início da carreira é grande e pouquíssimas chegam a ocupar posições de liderança. “Por isso, queremos inspirar as mais jovens e multiplicar as referências femininas. É preciso falar e debater cada vez mais a questão e mostrar para as mais jovens que é possível (superar as barreiras)”, observa.

A SBQ já tem cinco prêmios com nomes de ex-presidentes homens. Agora, chegou a vez das mulheres. A escolha de Vanderlan Bolzani para batizar o prêmio deve-se à importante trajetória da pesquisadora e à sua atitude. Ela foi a única mulher a presidir a SBQ até agora. “A Vanderlan é extremamente talentosa e carismática, uma mulher inspiradora”, ressalta Rossimiriam.

Mais trabalho

Outra importante pesquisadora presente ao evento foi Márcia Mesko, que também venceu barreiras para ter o seu trabalho reconhecido em um ambiente predominantemente masculino. “Precisamos ter o dobro de currículo e de produção científica para conseguirmos conquistar espaço, enquanto que as pessoas estão acostumadas a ver lideranças masculinas no mundo inteiro”, comenta. Na visão de Mesko, a presença maior de mulheres no meio científico faz as mais novas pensarem que a vez delas também chegará.

Márcia Mesko defende o acolhimento das mulheres mães para que conciliem o desenvolvimento do trabalho com as questões próprias da vida das mulheres. “Não são coisas muito complicadas de conciliar”, sustenta a pesquisadora.

Premiada nacional e internacionalmente, ela também coordena o projeto Meninas na Ciência, focado no uso de temas que atraiam novos talentos para a química. A iniciativa é fomentada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e desenvolvida em uma escola de Ensino Fundamental do município de Capão do Leão (RS).