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Por que o meio ambiente precisa dos Químicos

Saiba como o profissional da área atua para compreender o funcionamento dos processos químicos no ambiente e, assim, propor soluções e subsidiar tomadas de decisões

O que o esgoto, as drogas, o coronavírus e o meio ambiente podem ter em comum? Apesar de não parecer existir conectividade entre eles, com exceção do fato do esgoto ser uma importante fonte de contaminação ambiental, todos estes elementos podem ser abarcados e estudados de maneira conjunta pela Química Ambiental. Esta área tem o papel de entender como o meio ambiente funciona.

Quem explica as especificidades da área é o professor do Instituto de Química da Universidade de Brasília (UnB) Fernando Fabriz Sodré. Ele exerce atividades acadêmicas junto aos cursos de Química e Ciências Ambientais da instituição e trabalha em diferentes linhas de pesquisa científica, dentre as quais algumas que se baseiam no estudo do meio ambiente como forma de buscar o entendimento de questões muito próximas ao nosso dia a dia, como a pandemia do novo coronavírus e o consumo de drogas ilícitas.

Entre as pesquisas já realizadas por Sodré, é possível listar o estudo do comportamento de metais potencialmente tóxicos em águas e solos; efeitos de contaminantes no ambiente e na água para consumo humano; determinação de interferência de drogas, poluentes e produtos farmacêuticos e de higiene pessoal em matrizes de interesse ambiental; estimativa do consumo de drogas via análise de esgoto e identificação de fontes e destino de poluentes ambientais.

Um dos estudos em curso pode ajudar a entender disseminação da Covid-19. Uma pesquisa liderada pelo professor faz o monitoramento de estações de tratamento do Distrito Federal e já mostrou a presença de partículas do vírus em dejetos humanos três dias após a infecção.

Sodré ressalta que a Química Ambiental ainda é pouco disseminada entre os cursos de Química nas universidades brasileiras, sendo que o contato dos alunos com esta área se dá, muitas vezes, por meio de disciplinas complementares, não obrigatórias e especiais. Cabe mencionar, entretanto, que existem várias iniciativas que buscam incluí-la nos currículos dos cursos de Química, bem como cursos de graduação voltados para a habilitação de profissionais na área de Química Ambiental, tais como os oferecidos pela Universidade de São Paulo.

Uma das principais características desta área de conhecimento é a capacidade de desenvolver trabalhos na interface com outras áreas que também têm no meio ambiente parte do seu escopo, como a Geociências, a Bioquímica, a Toxicologia, a Física e diversas engenharias, como a Química, a florestal a sanitária e a ambiental.

“A formação de um Químico ainda precisa ser complementada por aspectos relacionados a disciplinas que fazem interface com outras Ciências, não só a Química Ambiental, como a Química Medicinal, a Bioquímica, por exemplo. Então, são disciplinas que devem ser fomentadas durante a formação dos estudantes, seja no curso de Química ou na Engenharia Química”, pondera. Para o professor, este campo ainda tem um longo caminho a ser percorrido e, para isso, é necessário que a Química Ambiental seja conhecida pela sociedade e pelo próprio corpo de Químicos.

“Existe uma visão errônea de que o Químico Ambiental faz monitoramento de águas, mede a concentração de poluentes, e é aquela a pessoa que aplica diferentes técnicas e equipamentos analíticos para fazer medições em amostras ambientais. Embora o Químico ambiental também possa exercer tais funções, sua atuação deve explorar o uso de dados diversos, inclusive os de monitoramento, para entender os processos naturais, o comportamento de espécies químicas no ambiente, suas vias de dispersão e suas formas de interação com a hidrosfera, a geosfera, a atmosfera e a biosfera. Tudo isso em um ambiente aberto, completamente diferente do ambiente laboratorial, onde todos os processos são controlados e estudados a partir de condições de contorno reducionistas. Com base neste conhecimento mais holístico, é possível fazer um diagnóstico do problema e propor soluções. Em várias situações, a solução envolve a necessidade de remediação e controle”, explica.

Segundo Sodré, existe uma grande necessidade da atuação de Químicos com formação sólida na área ambiental em instituições públicas e privadas, incluindo agências tomadoras de decisões. “Há uma carência no assessoramento correto que deveria ser feito por Químicos Ambientais em várias situações, como em quadros de acidentes ou problemas ambientais, tratamento de efluentes e assuntos correlatos. Hoje, o que se vê é muito mais uma preocupação em atender à legislação do que compreender e resolver os problemas emergentes que se apresentam”.

Para ele, o papel do Químico Ambiental hoje é se colocar à frente de vários dos problemas ambientais que surgem, para que as informações e soluções que chegam para a sociedade sejam as mais fidedignas, sem alardes desnecessários, mas sempre primando pela clareza sobre os assuntos abordados. Em um mundo no qual as mídias sociais promovem cidadãos comuns a especialistas e colocam em xeque a palavra de cientistas, é necessário cada vez mais a formação de profissionais preparados para lidar com esta nova realidade. Com relação à Química Ambiental, isso só será possível a partir do momento em que as disciplinas ligadas à área alcancem todos os cursos de Química do país e que os educadores, professores e profissionais de ensino também tenham a capacidade de entender como funciona o ambiente

Química Sustentável, a Química Verde

O professor do Instituto de Química da UnB Carlos Kleber Zago explica que, na Química Verde, a atuação foca mais nos processos químicos industriais, obviamente com uma preocupação de diminuir os impactos sobre o meio ambiente e a sociedade. “A Química Verde prevê a redução ou até a eliminação do uso e/ou geração de substâncias perigosas na fase de design de materiais. É como trabalhar com a ideia de que é melhor prevenir do que remediar. Se você faz um projeto voltado para a área industrial e planeja desde a sua concepção para não haver resíduo, ou reduzi-lo ao máximo, você está contribuindo para o meio ambiente e para a saúde humana”, esclarece.

Os 12 princípios da Química Verde estão voltados para a proteção ao meio ambiente e ao bem-estar humano. Segundo Zago, o papel do Químico é fundamental seja como planejador, gestor ou executor de processos químicos e é necessário que os profissionais passem por uma mudança de pensamento. “Há dois tipos de abordagem na Química: a tradicional e a sustentável. A tradicional foca na redução dos riscos pela eliminação da exposição. Já a sustentável foca na redução do risco pela redução do perigo. Se o perigo é reduzido, a exposição se torna irrelevante. Então é preciso educar, principalmente, a nova geração de Químicos para que sejam mais conscientes e desenvolvam processos químicos mais sustentáveis”, finaliza.